Na Previdência, de novo as corporações conseguem manter seus privilégios

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Na Câmara, galerias cheias de representantes das corporações

Antonio Britto

Assembleia Nacional Constituinte, 1988. Em votação, direitos do funcionalismo público. Nas galerias, representantes de algumas corporações, exigindo privilégios. Na Mesa, impaciente com as manifestações e a pressão sobre os parlamentares, o doutor Ulysses. Interrompida a sessão, por conta do impasse, ele perguntava a quem se aproximava: “Vocês já viram as galerias ocupadas pelo sindicato dos desempregados?”

Passados 31 anos, o país se modernizou, é melhor em quase todos os aspectos, mas as galerias e todos os locais onde se exerce a pressão política seguem carentes de representação dos realmente necessitados – desempregados, analfabetos, os injustiçados pela realidade brasileira – enquanto o monopólio das corporações sobre galerias e corredores do Congresso parece maior que nunca. Foi o que se viu, mais uma vez, na votação da reforma da Previdência, esta semana, na Câmara dos Deputados.

POLICIAIS – Pegue-se, como exemplo, os policiais. Desde sempre, discute-se no Brasil o chamado regime das aposentadorias especiais – profissionais que diante da insalubridade, risco ou condições inerentes ao trabalho que exercem sofreriam, de forma comprovada, desgaste superior ao de outras profissões e, por isso, mereceriam atenção diferenciada na contagem de tempo de serviço e regras para aposentadoria. Caso clássico de policiais em atividade permanente nas ruas.

Até aí, tudo certo. Mas, como sempre no Brasil, o discurso sobre justiça rapidamente se transforma em biombo para proteger privilégios. E o argumento do perigo e do risco é usurpado, por exemplo, por membros da polícia legislativa – profissionais que passarão a vida pelos tapetes e gabinetes dos parlamentos. Uma generalização, essa sim injusta, torna-os iguais a quem estiver em alguma fronteira perigosa do país combatendo traficantes.

Ou burocratas da ABIN, analistas de informações, que viverão anos lendo jornais e navegando pelas redes sociais, mas recebendo benefícios especiais.

HOUVE AVANÇO – A firmeza e competência de alguns parlamentares, Rodrigo Maia à frente, permitiram que a reforma da Previdência avançasse, apesar de concessões muitas vezes injustificáveis ainda que necessárias para sua aprovação. Mas deixaram, mais uma vez, a comprovação do peso e do prejuízo que a presença excessiva das corporações vem trazendo ao país, principalmente quando o presidente da Republica renuncia à defesa do interesse geral para comportar-se como presidente de sindicato de uma única categoria.

Este prejuízo decorre, primeiro, do fato do quase monopólio delas na hora da pressão. Em um cenário verdadeiramente democrático, o legitimo direito de alguma corporação querer mais e mais benefícios sofreria a oposição dos representantes dos demais setores, majoritários, estes sim necessitados – o sindicato dos desempregados a que se referia Ulysses Guimarães. Mas, estes, estão ausentes ou no máximo pouco representados no debate político e na disputa pela divisão de recursos e políticas públicas.

VOZ PRÓPRIA – Em segundo lugar, o atual sistema eleitoral garante às corporações, com exclusividade, a condição de terem “os seus parlamentares”. Uma corporação poderosa é tríplice garantia para um candidato que a ela se vincular –uma base concreta para atuar, uma rede eficiente de contatos e apoios e, ainda, recursos materiais e financeiros. Os desempregados, para comparar, não têm sede, nem rede e muito menos recursos…

O efeito das corporações estende-se ainda aos partidos, desmoralizando discursos. A esquerda, sem constrangimento, troca a defesa histórica de justiça e igualdade pela adesão incondicional, com honrosas exceções, a interesses de poucos. Ainda essa semana, na discussão sobre alguns destaques apresentados à reforma da Previdência, assistimos líderes que conseguiam ao mesmo tempo criticar a proposta por “prejudicar a maioria dos brasileiros” enquanto anunciavam apoio a emendas que apenas beneficiam a poucos e, por isso, retiram obrigatoriamente recursos da maioria…

NOVA POLÍTICA? – À direita, o efeito desmoralizador do peso das corporações, também se faz sentir. Partidos e líderes que simultaneamente se anunciam reformistas defendem a redução do tamanho do Estado e a “nova política” mas se submetem com entusiasmo ao que há de mais velho no país: a tomada de fatias crescentes do setor público por interesses corporativistas, a forma mais perversa de privatização.

Enquanto não vier o voto distrital, porém, o apoio de uma corporação seguirá sendo o caminho mais rápido e eficiente para enfrentar uma campanha eleitoral para cargos legislativos. E, na dimensão desproporcional que assumiu entre nós, um elemento que deturpa o debate e fragiliza a possibilidade de justiça e equidade.

(Artigo enviado por Duarte Bertolini)

5 thoughts on “Na Previdência, de novo as corporações conseguem manter seus privilégios

  1. “No âmbito do sistema político podre, nova política não existe, e voto distrital tb é outra falácia. VERDADE SEJA DITA, JUSTIÇA SEJA FEITA. Não ecxiste Nova Política no sistema político podre, como diria o saudoso Padre Quevedo (aquele que desmascarava charlatões na TV, e que está fazendo muita falta no Brasil atual), mas, isto sim, apenas novo estelionato eleitoral ou golpista ditatorial, assim como jamais conseguiremos ser um país de primeiro mundo com um povo e um sistema político de quinto mundo. Aliás, sistema podre e nova política são noções incompatíveis. E não digam que é o povo a besta do apocalipse eleitoral, não é a bugrada que não sabe votar, mas, isto sim, os golpes e os partidos que não dão ao povo a opção capaz de realmente mudar este estado de coisa$ e coiso$, que parece não ter fim neste país. https://twitter.com/Benett_/status/1149274445405663232

  2. E ainda terá o tal segundo turno e o Senado… Bleargh…! (som de vômito).

    Ainda vai ter muita porcaria jogada na cara do povo. Bleargh!

    Depois vai ter a reforma tributária, a reforma política… BLEAAARGH !!!!

    Haja estômago!

  3. Perfeito. Sem voto distrital, sempre haverá deputado representando funcionário da petrobrás, do banco do brasil etc. Cidadão comum não tem representante.
    Mussolini teve estar orgulhoso deste brasil corporativo.

  4. Esse comentários abaixo são dessa matéria. Outro blog.

    Anônimo12 de julho de 2019 12:25

    Mas quem é este pilantra, para falar em corporativismo?

    Durante o seu governo, deu reajuste a uma categoria e não deu para outras.
    O resultado é que até hoje o contribuinte paga os precatórios.
    Isto para os que não morreram esperando o dinheiro.

    Anônimo12 de julho de 2019 12:38
    Mas que corporações? Políticos, Juízes, militares, policiais, ruralistas, financistas?
    O funcionário público desde 2003 já se aposenta com o teto do INSS, realmente estamos aumentando o abismo entre os diferentes e os mais diferentes, só visto no tempo do Império e da escravidão.

    Anônimo12 de julho de 2019 13:09
    Pois é, Sr. Antônio Brito, somos uma MONARQUIA travestida de república, com suas CORTES e PLEBES.

    ATÉ parece que temos democracia, mas o que se tem na verdade é uma DITADURA CLEPTOESCRAVOCRATA, em vez de um ditador CORPORAÇÕES chamadas de públicas para legitimar modus operandi. POIS além de todos os direitos adquiridos se mistura a população, faz promessas e se candidata para votar na manutenção deste SISTEMA eternamente.

    Estamos iguais aos indianos, CASTAS com religiosidade. Haverá um dia que estas cortes irão ao pelourinho para chicotear plebeu (plebeu=livre iniciativa, produtor de riquezas para um país).

    A DITA reforma está mostrando tudo isto. Não pode faltar recursos para as aposentadorias dos “servidores públicos”.

    Anônimo12 de julho de 2019 13:21
    Fácil falar. Era pra ter feito e não fugido pros EUA. Ganha gorda aposentadoria com suor do trabalhador e utiliza nosso dinheiro nos EUA. Pelas convicções dele, o RS era pra estar nadando em dinheiro. Só que não. Matou e endividou a CEEE. Deixou milhares de desempregados

    Anônimo12 de julho de 2019 13:49
    Um político como esse Sr. Brito que tentou
    ser reeleito governador no R.G.do Sul e não
    esteve presente no dia da posse do governador
    que o substituiu, mas não deixou de receber a
    “pensão” de governador pelo resto da vida não
    deveria se manifestar sobre as carreiras dos
    legítimos funcionários públicos.

    Anônimo12 de julho de 2019 15:14
    MAIS UM EMBUSTEIRO ARROGANTE, UM JORNALISTA DE PRÉ-CADAVER QUE SE AGARROU AO MESMO E A REDE GLOBOLIXO PARA APARECER!

    COLOCOU TUDO A PERDER NA REELEIÇÃO NO RS POR PURA ARROGÂNCIA; VIROU “PARLAPATÃO-EMPRESÁRIO” E SEMPRE SE ACHOU COM O REI NA BARIGA!

    VIVEU SEMPRE NA FACÇÃO DO PÂNTANO: O PMDB DE TEMER, ULISSES E SUA CATREFA!

    VADE RETRO

    Mxxxx Dxxxxx
    12 de julho de 2019 16:28
    Pois é, Políbio…
    Logo ele que nunca contribuiu para o IPERGS (e continua não contribuindo), trabalhou no Estado só por 4 anos, e usufrui de pensão VITALÍCIA com remuneração de DESEMBARGADOR se acha em condições de criticar quem quer que seja, ainda mais os policiais.
    Talvez ele devesse visitar as famílias dos 5 PMs assassinados este ano no RS e dizer para elas que as pensões são injustas.
    Sem falar que ele vendeu a Carteira Imobiliária do IPERGS para a Caixa e colocou o dinheiro no Caixa Único, dando um verdadeiro desfalque na previdência.
    Logo ele que não depositou 1 mísero centavo da parte patronal da previdência dos servidores durante todo seu mandato, como todos os demais governadores que vieram após o governador Jair Soares.
    Aliás, não posso acreditar que você comunga dessa falácia.
    Por fim, se você quiser falar seriamente sobre previdência, estou a sua disposição.

    Anônimo12 de julho de 2019 16:39
    Esses FDP vendem o patrimônio do Estado, roubam, e depois vão gozar a vida no exterior.

    Fxxxxxx
    13 de julho de 2019 06:54
    A matéria está em parte correta. Mas o autor, pelos comentários parece não ter moral pra falar isso. Existe a polícia que corre risco e a polícia de gabinete,sim, mas uma depende da outra. Na PF por exemplo: Todos os cargos concorrem para missões em todo o Brasil, sempre correndo risco. Em caso de invalidez, a serviço, o policial ainda tem amparo, recebe 100%. Mas se o policial vier a ficar doente por outras causas, e invalido, sua remuneração será progressivamente menor, ficando, na hora que mais precisa, desamparado. O mesmo vale a pensão caso o policial na ativa ou aposentado venha a falecer. A família ficará com seu orçamento muito comprometido. Não se leva em conta o tempo que o servidor ficou afastado trabalhando longe da família, dedicando-se ao trabalho, ficando meses longe, com jornadas de 12 a 15 horas ininterruptas, sem fins-de-semana e feriados, não se conta o stress e desgaste físico e emocional que vai corroendo a saúde do policial por ter que lidar com o pior da sociedade. Sim, só é polícia quem quer sabendo que vai passar por essas dificuldades, mas quando entra, é por regras estabelecidas. Só aumentam as atribuições e perigos, ao passo que não há o reconhecimento disso, e pior, mudam-se as regras no meio do jogo. O policial contribui desde o primeiro dia na profissão pelo teto do que recebe, e por toda vida, mesmo aposentado. Outra, não recebem plano de saúde. Nao esqueçam que se as investigacoes avançam e porque o policial tem dedicação exclusiva, não pode buscar outra fonte de renda. Agora vão acabar com a estabilidade, o lhes gerente isenção, passaram a ser perseguidos por quem está no poder em caso de estar sendo investigado. Isso é injustiça com a carreira.

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