Na Rússia não tem fome

Sebastião Nery

Francisca era de Carurupu, terra dos irmãos Frejat e dos irmãos Barbosa Lima, Murilo e Antenor, lá no norte do Maranhão, perdido fim de mundo, que só conhecia Vitorino Freire e José Sarney de rádio. Francisca veio para o Rio.

Era empregada doméstica na casa de José Edson Sampaio, diretor financeiro da Unimed (previdência privada), de Niterói. José Edson convidou os amigos Aguiar de Paula, Murilo Barbosa Lima e Sérgio Barbosa para assistirem ao jogo Brasil x União Soviética.

Uísque, tira-gosto, e a alma gelada. Eles torcendo, sofrendo, bebendo, e Francisca, entre a cozinha e a sala, trazendo o gelo e os salgadinhos. Daí a pouco, a União Soviética fez um gol. Na sala, um silêncio de tocaia.

Francisca larga os pratos em cima da mesa, dá um pulo. Volta saltando para a cozinha, comemorando o gol dos russos. Ninguém entendeu nada. José Edson ficou furioso:

– Você está maluca, Francisca? Quem fez o gol foi a Rússia, contra o Brasil, e você aí comemorando?

– Não foi a Rússia que fez o gol, dr. José?

– Foi. Você é comunista, sua maluca?

– Não sei o que é isso. Mas lá em Cururupu me disseram que a Rússia é um lugar onde não tem fome.

José Edson só não mandou Francisca de volta para Cururupu porque Sócrates e Eder vingaram os pinotes dela.

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MARANHÃO

Em 2008, o País se escandalizou com a denúncia da Leila Suwwan (Globo) de que 60% da população do Maranhão só comia porque recebia os 150 reais (no máximo) do Bolsa Família. E não é só o Maranhão. No Piauí, eram 59%. Em Alagoas, 58%. Na Paraíba, 55%. No Ceará e Pernambuco, 53%.

Abaixo de 50%, a Bahia e Roraima com mais de 49%. Rio Grande do Norte, 48%. Acre, 47%. Sergipe, 46%. Tocantins, 45%. Pará, 42%. Abaixo de 40%, Amazonas com 39%, Amapá 38%, Rondônia 35%.

A partir daí, os que poderíamos chamar de não escandalosos: Espírito Santo e Minas Gerais com 25%, Mato Grosso do Sul 22%, Mato Grosso e Goiás 20%, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro 7%, São Paulo 12%, Santa Catarina 10%, Brasília 6%.

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BOLSA FAMÍLIA

Essa é uma estatística bíblica, dos tempos das sete pragas do Egito. Ou africana, da África de Biafra e Sudão, com suas multidões miseráveis. Dirão os insensíveis e insensatos que, se não houvesse o Bolsa Família, esses milhões de brasileiros iriam procurar trabalho para comer. Trabalho onde, se o desemprego aumenta e a educação não os prepara?

Os Mailson da Nóbrega da vida acham que essa merreca de 10 bilhões que o governo gasta por ano, para matar a fome de 50 milhões de pobres e miseráveis, devia ser dada aos banqueiros, para acrescentar aos 180 bilhões que o governo já paga de juros. Se dependesse desses “economistas”, o Banco Central fazia uma raspa e dava tudo aos bancos.

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SARNEY

Por mais que se tente passar uma semana sem macular a coluna com os bigodes feudais do senador Sarney, no painel da desgraça nacional mais uma vez aparece, de bigode sujo, o senador Sarney, que há exatos 52 anos usa e abusa da capitania hereditária do Maranhão.

Qual é a cidade mais miserável do País? Leila Suwwan responde. Junco do Maranhão: 95,7% de sua população vivem do Bolsa Família. Em Brejo de Areia, no Maranhão, são 95,3%. Em Poção de Pedras, também no Maranhão, 88,4%. Em São Raimundo do Doca Bezerra, sempre no Maranhão, 86,1%. Em São Luis Gonzaga do Maranhão, 86,1%. Em Paulo Ramos, mais uma vez no Maranhão, 83,9%. É a maior concentração de miséria do País. Depois de meio século de feudalismo dos Sarney.

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CAMPEONATO

No meio desse mapa, há três cidades, de três Estados, disputando o “campeonato Sarney”: Severiano Melo, do Rio Grande do Norte, com 95,4%; Camaru, em Pernambuco, com 92%, e Caraíbas, na Bahia, com 90%. Lá de São Luís, o Raimundo Garrone resumia tudo muito bem:

– No Maranhão, todos os 217 municípios são atendidos pelo Bolsa Família, que beneficia 753.512 famílias, atingindo mais de 3 milhões e meio de pessoas em todo o Estado. O programa alcança 59,1% da população. Apenas em São Luís, a capital, o Bolsa Família beneficia 71,7 mil famílias, o equivalente a mais de 30% da população local.

O Maranhão não é a Rússia.

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