Na terra incestuosa da “mamma”

Sebastião Nery

Em 90, adido cultural em Roma, voltava de um seminário Brasil-Italia em Milão, tarde da noite. Tinha deixado o carro no aeroporto Leonardo da Vinci. No avião, vim conversando com um barbudo, poderoso e já sessentão jornalista italiano. Ofereci-lhe uma carona. Aceitou.

Mas, antes de ir para casa, tinha um importante telefonema a dar. Fomos até a cabine telefônica. Ligou e disse apenas : 

– “Mamma, sono arrivato” (“Mamãe, cheguei”).

E deu dois beijinhos no fone. Tinha mulher, filhos, uma neta. A mãe  não morava com ele, morava com o pai. Mas era a ela que ele avisava da chegada. A mamma na Itália é o centro. Todo o resto, pai, mulher, marido, filhos, é periferia. A Bíblia lá começa assim: -“No principio, era a mamma”.

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A “MAMMA”

Todos pensamos que a Italia é o pais do Papa. É, mas não só. É o pais do Papa e da “mamma”. A Italia é uma sociedade matriarcal. Lá quem manda é ela. Na cozinha, na casa, na escola e no caixa. A pequena e a media empresa familiar, centro da economia italiana, são comandadas pela “mamma”.

Na pizzaria, taverna, tratoria, restaurante, loja, pensão, “albergo”, hotel, de uma, duas, tres estrelas, quem está no caixa, de olho no dinheiro, é ela, a “mamma”, fogão e cofre da Itália. As más linguas falam que a conta do táxi, do bar, restaurante, hotel, loja, dá sempre errada, e sempre para mais, porque a “mamma” faz ou manda fazer. Diz-se que é dela a mais genial criação da conta errada : põe em cima o dia, o mês e o ano. E soma embaixo com as despesas.

Mas tambem é verdade que a Itália tem a mais alta taxa de poupança individual da Europa, acima da Inglaterra, Alemanha, França, porque a “mamma” é dura no controle da poupança domestica. Ela rouba mas poupa. 

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MACARRÃO E PIZZA

E foi ela, a “mamma”, quem inventou, antes de Jesus, Maria e José, essa obra-prima da mesa universal, a macarronada. Mas também criou esta humilhação do pâo com manteiga, a pizza, um papelão coberto de molho.

Em casa, a “mamma” é rainha e rei. Meus amigos italianos sempre me dão a impressão de não terem pai. Só mãe, a “mamma”. Não falam dele, não apresentam. Em casa, o pai é um a mais, como um fillho mais velho.

O coração e a cabeça do italiano são da “mamma”. Lá não é feminismo. É o imperialismo feminista: o “mammismo”. E todos adoram. A cara gorda e terna, o corpo redondo e forte, 24 horas a serviço coletivo,  doçura e dureza, de colher na mão e conta aumentada, a “mamma” é a Itália.

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ITALIA

Toda generalização é burra. Nelson Rodrigues. É impossível dizer qual o pais mais bonito. Cidade, o mundo já elegeu e sou um democrata: é Paris. Mas, país, tirando uma media universal, nenhum junta mais belezas do que a Itália. A começar porque tem 54% do patrimônio cultural da humanidade.

E no entanto a França recebeu, no ano passado, mais de 75 milhões de visitantes. Os Estados Unidos, quase 70 milhões. A Espanha, quase 60 milhões. E a Italia não chegou a 40 milhões. Não dá para entender. Os profissionais do turismo quebram a cabeça mas não conseguem explicar.

Estados Unidos e França são mais ricos, têm mais comercio. Mas têm menos sol e menos historia.  A Espanha, menos dinheiro, menos beleza cultural, menos historia, sol e mar iguais e o turismo espanhol ganha longe da Itália. Sem falar na cozinha, que a Itália tem a mais farta do mundo e o vinho, o segundo melhor (só depois da França). E ambos melhores do que a Espanha.

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ESPANHA

A diferença não deve estar no toureiro espanhol. É no espanhol mesmo. E no italiano mesmo, que, apesar de simpático, alegre, aberto, é anárquico, é antituristico. Não cuida e não mostra a Italia. Não sabe, como o francês, faturar o turismo. Na Itália, o que o turista consegue ver é apesar do italiano.

 Quem tem tanta eternidade na janela da casa e na porta da rua, talvez tenha seus ciúmes e não goste de dividir suas belezas. Mas isso é profundamente antituristico. A França (governo, imprensa, empresários) fez uma campanha tão cerrada que conseguiu educar seu taxista e fazê-lo gentil.

E o espanhol é um baiano falando espanhol.                           

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TEM QUE 

Desde 57 ando por lá. Vivi dois anos em Roma. Tudo “tem que”. Será a lei da “mamma”? Nada mais contra o turismo do que o “tem que”. Turismo é vadiagem. O turista é um vadio. O horário, o “tem que” do horário, é antiturismo. O turista na Italia “tem que” acordar cedo, porque a arrumadeira “tem que” arrumar o quarto do hotel de manhã. O turista “tem que” tomar café cedo (antes das 10) porque o garçon “tem que” preparar logo as mesas para o almoço. Você “tem que” chegar ao restaurante até duas da tarde e almoçar aflito porque o dono, o maitre, os garçons, o cozinheiro, todos têm que sair exatamente às tres da tarde. Para que? Para tirar um sono com a “mamma”. 

São “incestuosos”. Fazem a “sesta” na casa da “mamma”. Só vão para a casa deles de noite. E os museus? É mais fácil acertar dois tiros no Papa do que visitar os museus do Vaticano. Abrem às 9 e fecham às 15. Filas infinitas. Tudo lá está sempre “chiuso” (fechado). Ainda bem que três coisas eles não “chiusam”: o Papa, a mamma e a beleza eterna de Roma, Florença, Veneza.

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