Na visão genial da “Disparada” de Geraldo Vandré, o boiadeiro podia ser um rei

Biografia de Geraldo Vandré desfaz mito do artista torturado - Jornal O Globo

Biografia de Vandré desfaz mito do artista torturado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, na letra de “Disparada”, faz uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.

Neste sentido, a boiada é o povo, a massa (população inconsciente, alienada). Boiadeiro é um líder carismático, que pode ser político ou religioso. Logo, quando o povo começou a sonhar, teve revelações sob a realidade das coisas e, então, acordou da ignorância e teve consciência da realidade.

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

12 thoughts on “Na visão genial da “Disparada” de Geraldo Vandré, o boiadeiro podia ser um rei

  1. 1) Antigamente faziam canções que permanecem até hoje. Haja beleza.

    2) Por falar em beleza, licença…

    Estrofe Falta Pouco
    Antonio Carlos Rocha

    Minha Terra tem Palmeiras
    onde canta o sabiá
    2021
    é tempo de curar !

  2. A vontade revolucionária de combater a ditadura militar: começou no acalanto de Orfeu e acabou na maca com Morfeu. Os grupelhos armados se notabilizaram mais pelos sequestros e assaltos a bancos.
    Bom para os compositores que ganharam estro, fama, e dinheiro; arrancando verdadeiras filigranas, do pouco que a censura permitia. Assim, os nossos expoentes musicais se igualaram aos cantores de reggae, os quais usam os esterco da miséria e opressão, como denúncias inspiradoras, paradoxalmente, levam uma vida nababesca. Haja mais miséria e opressão, para os messageiros de Jah se locupletarem!
    Nunca ficou provado que Che Guevara viera a Imperatriz-MA, às escondidas. Como tudo se resume ao incerto, nessa incerteza, alguém aproveitou para emendar nela mais dúvidas, Che teria dito: “No Brasil nunca vai haver uma presúria; falta aqui homens”

    • 1) Amigo, o tempo de revoluções passou, até porque, já ouvi especialista dizer…

      2) Se tivesse levante popular em Pindorama iriam parar sexta-feira para o chopinho, no sábado o pagode no quintal, nos feriadões baile funk com proibidões e tregua no carnaval.

      3) Se o Che.veio em Imperatriz do MA, talvez faça parte da mitologia tupiniquim.

      3)

      • ? …”o tempo de revoluções passou, até porque, já ouvi especialista dizer…”
        Na terra ou aí, na lua?
        Três especialistas afirmaram a minha mãe que eu não chegaria aos 22 anos. Já dobrei isso! O mundo real é mais embaixo!

        • 1) Aqui na Lua o tempo de revoluções armadas acabou faz tempo…

          2) Nas noites enluaradas casais falam em evoluções amadas.

          3) Jesus disse sobre o mundo real: “Meu reino não é deste mundo”.

          4) E, por fim, me diga, qual é a revolução atual que teve sucesso, em qualquer parte do mundo?

          5) Certa feita li artigo interessante no JB – Jornal do Brasil: quem luta contra os governos perde..veja o caso das Farc na Colômbia, ficaram meio século e perderam,

          6) Revolução no voto, na consciência, como diria o grande jornalista Helio Fernandes.. “vá lá, que seja”

  3. 1) Certo amigo Paulo !!! (desculpe, mas sempre que escrevo o seu nome, vejo que vc tem nome de Papa).

    2) Mas China e Rússia ficaram lá no passado, eu pergunto hoje, século 21. Não vejo revolução popular em nenhum país.

    3) A questão palestina e o Oriente Médio é diferente, não vejo revolução no sentido de povo que muda as estruturas. A meu ver, isso não existe mais.

    • Duas décadas é um período considerado curto para uma experiência construída com ações, reações e contra-reações. No continente africanos e Ásia Central há vários conflitos em curso; vamos ver o que vai resultar desses banhos de sangue.
      Outro fator desfavorável, atualmente, é a escassez de financiadores externos: ou por desinteresse político-ideológico, ou por medo de investir sem certeza de retorno. Por este último caso passa agora a Venezuela: Rússia e China ficam titubeando, não sabem se assumem duma vez, ou se abandonam.
      Apesar de essas incosistências, dentro dos países onde há desgoverno e opressão de qualquer tipo, a gana por uma luta que produza consequências, continua efervescente, incluso, o Brasil.
      Quanto ao nome de para, lembrei-me do papa do diabo, aquela figura que surgiu na década de 80, no Rio Grande do Norte e Ceará, que, em seguida, escapou de ser linchado em Belém.
      Matar para remover obstáculos, tanto no individual quanto no coletivo, talvez nunca seja uma prática ultrapassada; são recursos extremos que, não raro, representam avanços formidáveis a quem o perpetra.

  4. 1) Tudo bem na África e Ásia Central algumas escaramuças…

    2) A meu ver não chegarão aos poderes nem mudaram as estruturas.

    3) Penso que Rússia e China vão aos poucos bancar a Venezuela, porque lá tem petróleo,

    4) Abraços de boa semana.

    5) Na faculdade, ano 1978 um colega dizia, país que tem prédio acima de 35 metros de altura não tem mais revolução popular, por enquanto ele está acertando o cálculo numerológico…

  5. Música de Théo de Barros e letra de Geraldo Vandré;
    Theo de Barros (contrabaixo e violão) era integrante do Trio Novo, que ainda contava com Heraldo do Monte (viola e guitarra); e Airto Moreira (bateria e percussão).
    Com a entrada do flautista Hermeto Pascoal, o trio passou a se chamar Quarteto Novo.

    O Brasil ganhou uma grande música, uma letra de muita profundidade, mas perdemos um cantor e compositor inigualável, além de um conjunto musical altamente comprometido com as nossas raízes musicais.
    Valeu, Paulo Peres, pela escolha´mais do que oportuna.

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