Na hora da herança, nada para ninguém…

João Pereira Coutinho
Folha

Os meus amigos esquerdistas não concordam com a minha visão pessimista sobre a natureza humana. Demasiado Thomas Hobbes para eles. Preferem Jean-Jacques Rousseau e as piedades idílicas sobre o “estado de natureza”, uma espécie de Disneylândia onde os homens eram naturalmente bons e não cobiçavam a mulher do próximo. Ou a macaca do próximo, melhor dizendo.

Tento contra-argumentar. Não com filosofia. Com as questões mundanas da vida terráquea. Qualquer visão otimista sobre a natureza humana não sobrevive a meia hora de trânsito em Lisboa ou no Porto, onde entendemos claramente como a existência pode ser “pobre, feia e brutal”.

É por isso que raramente uso carro próprio. Prefiro táxis. Só para observar: motoristas animalescos que se insultam mutuamente e aproveitam qualquer pretexto para humilhar ou ganhar vantagem sobre terceiros. Certa vez, um deles chegou mesmo a confessar-me que o seu maior sonho era usar o taco de beisebol que trazia sob o assento só para “rebentar com as rótulas” de quem não respeita a sinalização.

MORTOS E FERIDOS

Quando penso no “estado de natureza”, imagino um trânsito de fim de tarde, onde só não há mortos e feridos porque, algures na história, alguém inventou a polícia e a lei. No fundo, as instituições repressivas que tanto incomodavam Rousseau.

Mas o trânsito não é a única escola naturalista. Existe outra, capaz de derrotar o otimismo de um santo. Heranças. Herdeiros. Você, leitor, sabe do que estou falando.

Nos últimos tempos, tenho acompanhado a saga de uma amiga (progressista) que está estupefata com o comportamento dos pais e dos tios. Tudo por causa da herança dos avós. “O mais perturbante”, diz ela, “é que o processo começou bem”. Tradução: respeito pela memória do falecido; diálogo e harmonia; vontade de resolver o assunto com dignidade.

Mas quando se desceu aos pormenores — quem fica com quê?, quem fica com quanto? — a coisa virou um filme de Sergio Leone. “É o faroeste. Temo até que eles se matem”, suspira ela, enquanto eu leio o meu “Leviatã” com um sorriso nos lábios.

O problema é que nada disso tinha de ser assim. Se o interesse próprio conduz os homens ao egoísmo e à violência (obrigado, sr. Rousseau), também pode funcionar em sentido inverso (obrigado, sr. Adam Smith).

EXEMPLO INGLÊS

Aqui na Inglaterra, onde estarei nos próximos tempos, um caso trivial tem alimentado as notícias e ilustra bem a minha tese: falo do magnífico jardim de Sir Roy Strong, o antigo diretor da National Portrait Gallery e do Victoria and Albert Museum. Trata-se de uma proeza paisagística que ele e a mulher foram construindo e decorando durante décadas.

Morta a mulher, Sir Roy entende que a hora dele não está muito distante. E, por via das dúvidas, resolveu fazer um testamento: o jardim será legado ao National Trust, instituição responsável pela preservação do patrimônio britânico, juntamente com um cheque generoso para ajudar na sua manutenção.

Azar: o National Trust recusou a oferta por não ver grande valor no jardim do homem. E este, em declarações ao “Sunday Times”, já encontrou forma de resolver o impasse: depois da sua morte, haverá indicações precisas para destruir o jardim.

VANDALISMO POST-MORTEM

Os ingleses estão horrorizados com o vandalismo “post-mortem” de Sir Roy. Eu, pelo contrário, compreendo e abençoo o gesto. O respeito pela propriedade privada também inclui o respeito pela destruição dela. E, aqui entre nós, não seria louvável se a atitude de Roy Strong fizesse doutrina no direito sucessório?

O processo seria simples: morto o proprietário, os herdeiros seriam convocados para as partilhas. Caso existisse conflito entre eles, a herança seria imediatamente destruída —ou, no mínimo, dissipada por instituições de caridade. Isso, e só isso, faria os herdeiros pensarem duas vezes antes de sacarem o revólver.

Claro que a minha amiga discorda. E responde, com resignação e melancolia: “Do jeito que as coisas estão, o mais provável era eles aceitarem que ninguém ficaria com nada”.

Talvez, minha querida, talvez. Mas, curiosamente, esse pessimismo só reforça o meu. E, já agora, confirma a justiça cósmica da minha proposta para a paz mundial.

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