Não conduz: é conduzido

Carlos Chagas

Faltasse mais uma evidência de que José  Serra  perdeu as condições de conduzir sua campanha, passando  a ser conduzido, e mal, aí está a inclusão de Fernando Henrique nos discursos e na  propaganda gratuita do PSDB e afins  pelo rádio e a televisão. O Alto Tucanato impôs ao ex-governador a volta ao passado como penhor da conquista do futuro. Pode ter sido por desespero, por incompetência ou ranhetice, mas a verdade é que Serra cedeu. No fundo, não quis abrir uma nova frente de dificuldades em sua campanha. Não custa nada providenciar  imagens onde aparece ao lado do ex-presidente, muito menos referências ao governo dele. O problema será convencer o eleitorado de que as privatizações estiveram na base da recuperação econômica do país. Ou, pior ainda, de que o neoliberalismo foi o responsável pelo sucesso do governo Lula.

No início da campanha, em entrevista à Jovem Pan, Serra desconversou quando perguntado sobre o papel do sociólogo em seu governo, caso fosse eleito. Disse que ex-presidentes da República situam-se em patamares superiores àqueles ocupados pelos pobres mortais. Convocá-los para o ministério ou dar-lhes a função de conselheiros de governos   posteriores equivaleria a diminuir sua importância no processo histórico.

Fernando Henrique sentiu o golpe, tanto que passou a lançar farpas sobre a estratégia político-eleitoral de seu ex-ministro. Sempre que pode, em entrevistas variadas, criticou os antigos companheiros e, mesmo subliminarmente, admitiu comparações entre a sua administração e a atual, do Lula, visando sempre limitar e engessar um hipotético governo José Serra. Mesmo assim, na campanha, ficou isolado. Agora, volta a ser conduzido no andor sustentado por Aécio Neves, Sérgio Guerra, Tasso Jereissati e outros tucanos. Seu ego por certo inflará ainda mais, ainda que nem um voto, sequer, possa acrescentar ao candidato.

No auge da disputa pelo primeiro turno, quando ainda empatava com Dilma Rousseff, nas pesquisas, Serra perdeu outra oportunidade de afirmar sua liderança e seu comando quando aceitou a imposição de um desconhecido candidato a vice-presidente, indicado pelo DEM. O ideal seria Aécio Neves, que se manteve irredutível na recusa. Sendo assim, caberia ao candidato buscar outro nome  de envergadura, fosse no arraial dos aliados, fosse no próprio ninho tucano. Perdeu  pontos e votos  ao aceitar, sem discutir, o deputado Índio da Costa, que ninguém conhecia.

O resultado aí está. Não será exaltando o Plano Real nem sustentando a excelência das privatizações que José Serra conquistará os  17% do eleitorado de que necessita para bater a adversária.

BRINCADEIRA TEM HORA

Parte dos 80% de popularidade a que faz jus o presidente Lula vem por conta de seu comportamento informal e da capacidade de comunicar-se  da forma como o povo gosta, com imagens, blagues e comparações. Esta semana, porém, junto com trabalhadores da Petrobrás, o primeiro companheiro exagerou. Disse que no últimos dia de seu mandato não passará a faixa presidencial a quem tiver sido eleito: passará cola no símbolo do poder, unindo-o à sua barriga, e sairá correndo…

Tempos atrás  quem falasse no terceiro mandato para o Lula seria aplaudido em praça pública. Foi ele mesmo, demonstrando forte espírito democrático, que desarticulou operações continuístas e impôs à classe política a realização de eleições.

Brincadeira tem hora. O último que foi embora levando escondida a faixa presidencial foi Jânio Quadros. Quebrou a cara. Para quem não se lembra, ao renunciar sete  meses depois de empossado, o histriônico presidente pediu ao ajudante-de-ordens,  major Amarante, que pegasse a faixa, no palácio do Planalto. Com ela numa pasta, viajaram  para  Cumbica.  Lá, verificada a impossibilidade de dar certo aquela grotesca tentativa de golpe,  Amarante deixou a faixa presidencial  aos cuidados do comandante da base aérea enquanto Jânio partia para o exílio, num navio cargueiro.

Empossado Raniéri Mazzilli, presidente da  Câmara, sem a faixa, e tendo os  militares vetado  a volta do vice-presidente João Goulart  ao país, coube ao Comandante Militar do Planalto, general Ernesto Geisel, sair atrás do símbolo do poder. Dizem que foi pessoalmente a Cumbica buscar a relíquia. Se a trouxe colada ao corpo num avião comercial, para ninguém perceber, é apenas uma lenda,  o fato é que anos mais tarde  vestiu-a solenemente ao receber o governo das mãos do general Garrastazu Médici.

Bem que o presidente Lula poderia ter encontrado outro jeito de arrancar gargalhadas dos operários que  visitava numa plataforma submarina. Essa história de vestir escondido a faixa presidencial já aconteceu uma vez.

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