Não me incomodo, o mínimo que seja, que alguém tenha admiração por Vargas, Hitler, Mussolini, Stalin. Mas sem hostilidade ou fingindo que é verdade

Valentim Valente:
”Caríssimo Helio Fernandes, não me conformo de longa data, que um homem como você não reconheça em Getulio Vargas, a maior figura que o Brasil já teve, levando em consideração apenas o aspecto político. Getulio tirou o Brasil de país essencialmente agrícola para ser um  país em desenvolvimento, como se diz agora.

Criou o SESI, SENAC, Previdência Social, Petrobras, que mais tarde um minúsculo Calabar quase destruiu, Companhia Siderúrgica Nacional, fez a CLT, que o mesmo Calabar e asseclas tentaram e tentam excluir. Acho que isso tudo é suficiente para mudar o seu conceito sobre tão magistral figura, excluído o aspecto político, de menor importância. Grato por me aturar”.

Comentário de Helio Fernandes:
Obrigado, Valentim, não por te aturar e sim por permitir que complete tanta coisa que sobrou da conversa com Homero Benevides.

Sobre Vargas, muitas coisas são indiscutíveis. Quando assumiu, já sabia que não passaria o governo a ninguém, a não ser obrigado. Que foi o que aconteceu. Concordo em parte com você, mas no todo é impossível.

Em 1930, quase tudo estava por fazer no Brasil, e quase tudo já havia sido feito no mundo ocidental. Valentim, tudo o que você relacionou como realização de Vargas, acreditando que tenha sido feito mesmo, é pouquíssimo para 15 anos e 5 dias de ditadura implacável e sem limites.

E nos 3 anos e quase 7 meses em que exerceu o Poder, “eleito” pelo povo, vá lá, não fez coisa alguma. Sabe por quê, Valentim? Porque não sabia, não tinha o mínimo de conhecimento e competência. A tragédia do 24 de agosto de 1954, na verdade começou em 3 de outubro de 1950 e se aprofundou no dia 31 de janeiro de 1951, a posse amaldiçoada, incapacitada, malograda.

(Não retiro uma linha, não faço qualquer concessão ao eu escrevo há anos, considerando o suicídio de Vargas, GENIAL. Esse suicídio, além de jogar inapelavelmente com a vida, foi um ato rigorosamente político, inteiramente diferente da RENÚNCIA de Janio, que não arriscou a vida, queria apenas mais Poder).

Não posso deixar de chamar atenção para os crimes políticos de Vargas, (cometidos a vida toda) pois A POLÍTICA É A ARTE DE GOVERNAR OS POVOS. Essa definição magistral não é minha, aprendi com Sócrates e Platão. Como desmenti-los?

Quando Vargas começou a fazer alguma coisa a partir de 1934, o mundo ocidental já havia feito quase tudo isso, pelo menos há mais de 20 anos. Os bravos Pancho Villa e Emiliano Zapata, no México, derrubaram a ditadura de Porfírio Dias, que estava há 41 anos no Poder. Foram assassinados, mas obrigaram a uma revolução civil, que implantou a belíssima Constituição de 1918/1919.

Todas as vantagens trabalhistas que Vargas concedeu, vinham em linha reta, das que Mussolini implantou em 1922, quando tomou o Poder, na famosa “Marcha sobre Roma”. Falando do Palácio dos Doges, na Piazza Venezia, anunciou todas as medidas trabalhistas que concedeu.

Mussolini não era um carreirista, arrivista e oportunista como Vargas. Era jornalista-socialista, diretor do jornal “Il Poppolo di Roma”. Depois é que se tornou ditador, fascista, servo, submisso e subserviente a Hitler. Por tudo isso, Mussolini acabou pendurado num varal de secar roupa, o povo italiano queria secar seu passado, implantou a República, tranquilamente.

(Pendurar alguém de cabeça para baixo, não é da tradição brasileira. Chegaram perto disso, por preconceito e racismo, quase mataram o Almirante Negro. Que depois, brava e heroicamente, comandou a REVOLTA DA CHIBATA).

A própria Alemanha, em 1921, (vésperas de Hitler) promulgou a extraordinária Constituição de Weimar, que infelizmente durou muito pouco. O mundo não é democrático, os ditadores conseguem facilmente enganar o povo, se dizendo REALIZADORES.

Das “realizações” atribuídas a Vargas, algumas até são verdadeiras. Por mínimo que tenha feito, alguma coisa era obrigatória. (Foram 15 anos, Valentim). Quase todas, altamente IMAGINATIVAS, para não dizer MENTIROSAS. Vargas não teve nada a ver com a Petrobras. Foi aprovada no Congresso, perto, na verdade, pertíssimo de 1954, quando desapareceu.

Vargas, nos 15 anos da ditadura, não ligava para o petróleo. Intervenção mesmo, foi prender várias vezes o grande Monteiro Lobato, lutador invencível do assunto. Cansado de prender o escritor, DEPORTOU-O, ficava tranquilo.

Só para terminar “as realizações”, falam muito em Volta Redonda. Rapidamente e pela primeira vez, o que aconteceu: em 1941, já em guerra, que não queriam,  os EUA tiveram que se preparar e Roosevelt nomeaou o jovem Kenneth Galbraith coordenador da Mobilização Econômica, para transformar a INDÚSTRIA CIVIL em INDÚSTRIA DE GUERRA.

E passou a cuidar da guerra externa. O general Marshall (comandante militar geral) pediu a ele UMA BASE NO ATLÂNTICO SUL. Examinaram a Ilha de Trindade, era no meio do oceano, seria destruída facilmente. Fernando de Noronha, excelente geograficamente, mas sem condições.

Roosevelt se fixou então em Natal, conversou com Vargas, marcaram um encontro para dentro de 10 dias (meados de 1941, em Natal). Nesse intervalo, morreu Getulinho (um de seus filhos), o velório acabou às 5 da manhã, quando o ditador civil devia ir para Natal. O corpo foi para Itu, Vargas para o local do encontro.

Concordaram rapidamente, havia interesse dos dois países. Tudo assinado, Roosevelt, compreensível e amigável, pergunta: “O que o seu país mais precisa no momento?” Vargas sem hesitação: “Uma siderúrgica”. Roosevelt também sem hesitação: “O Brasil terá sua siderúrgica imediatamente”.

Voltou para os EUA, mandou logo uma comissão de 8 especialistas ao Brasil, para estudar o problema. Não havia nem o que estudar, a siderúrgica tinha que ser em Santa Catarina ou no Paraná, onde estavam a matéria-prima (carvão) e o transporte (Porto de Paranaguá).

Pediram audiência a Vargas, comunicaram as conclusões, ele respondeu imediatamente: “Tem que ser aqui no Estado do Rio, de preferência Volta Redonda”. (Os engenheiros não sabiam, mas o genro de Vargas, Amaral Peixoto, era interventor no Estado do Rio).

Horrorizados e apavorados, voltaram para os EUA. Recebidos por Roosevelt, contaram o absurdo de fazer uma siderúrgica onde Vargas determinara. Resposta de Roosevelt: “Voltem ao Brasil, cumpram as ordens do presidente ou de quem ele designar, SEM QUALQUER DISCUSSÃO OU RESTRIÇÃO”.

E assim surgiu Volta Redonda, para servir a Vargas e seu DOMÍNIO POLÍTICO usando o genro, sem o menor interesse no que seria melhor para o Brasil.

***

PS – Desculpe, Valentim, essa é a realidade. Se você tiver acesso (você ou outro cidadão) à eleição de 1919 entre Rui Barbosa e Epitacio Pessoa, confira.

PS2 – No projeto de governo do grande brasileiro, existiam 27 itens, extraordinários para a época. Dos quais, depois de 26 anos (no fim da ditadura), Vargas cumpriu apenas 4 ou 5 . I-N-A-C-E-I-T-Á-V-E-L, mas rigorosamente verdadeiro.

PS3 – Obrigado pela oportunidade de conversar. E pode discordar tranquilamente de tudo o que está aqui.

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