Não percam as memórias de Sarney. Ele conta como pressionou o governo Lula em 2009 para ter apoio e não renunciar à presidência do Senado. Mas esqueceu de contar como ficou rico fazendo política.

Carlos Newton

Realmente, brasileiras e brasileiros estão loucos para ler a “biografia autorizada” do senador José Sarney (PMDB-AP), lançada ontem com uma grande festa em Brasília. Como as biografias desautorizadas falam horrores do cacique maranhense, desta vez, na única autorizada, escrita pela jornalista Regina Echeverria, ele poderia explicar tudo, nos mínimos detalhes.

Mas antes mesmo do lançamento, os jornais já estavam mostrando que Sarney tem um modo muito peculiar que lembrar as coisas. Por exemplo, no livro Sarney ele acusa o atual governador do Acre, Tião Viana, do PT, de ter divulgado o dossiê que provocou a famosa crise dos atos secretos no Senado, em 2009.

Curiosamente, o presidente do Senado se apresenta como vítima de um “processo político”, armado especialmente por ele ser na época aliado do então presidente Lula. Incrível! Então Sarney acredita que, se fosse da oposição, os atos secretos não seriam denunciados por Viana? Essa é boa. Sarney não percebe que foi denunciado por um senador do PT APESAR de ser aliado de Lula, tal a gravidade da situação. Não foi denunciado POR SER aliado de Lula, é claro. 

No melhor estilo de Cazuza, “com a metralhadora cheia de mágoa”, Sarney tenta deturpar os fatos. Insiste em que na época Viana era senador, seu adversário nas eleições para a presidência da Mesa Diretora e teria conseguido o apoio de alguns servidores para prejudicá-lo.

“No início de todo este problema, informaram-me que o Tião Viana entregara para o Estadão um dossiê a meu respeito com mentiras todas alimentadas pelo pessoal do Senado que estava a favor dele, para quem ele já tinha prometido cargos e direções [se fosse eleito]”, afirma Sarney no livro.

“Era uma acusação política cruzada com ressentimentos pessoais”, acrescenta o imortal maranhense, ao citar nominalmente os senadores Cristovam Buarque (PDT-DF), Pedro Simon (PMDB-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP), que na época defenderam seu afastamento da presidência  do Senado.

O mais interessante e revelador vem a seguir, quando Sarney admite ter feito pressão junto à então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, quando ameaçou retirar não somente seu apoio (pessoal e de seu grupo político) ao governo Lula, mas também o apoio do PMDB, como se o partido pertencesse a ele.

“Se o governo acha, se o PT acha que eu devo sair, deixo de ter sustentação política e não estou apegado ao cargo. Não tenho motivo nenhum para renunciar (à presidência do Senado), a não ser que o PT ache que eu sou mau apoio ao governo e, comigo, o PMDB”, afirma Sarney no livro, ao relatar o diálogo com Dilma Rousseff.

A crise política do Senado dos atos secretos, que incluíam até a nomeação de parentes e afilhados de Sarney, resultou em 11 processos contra o cacique maranhense no Conselho de Ética do Senado, mas todos foram arquivados pelo colegiado.

O mais desanimador é que, na biografia, Sarney esqueceu de detalhar como ficou rico fazendo política. Não abordou, por exemplo, o fato de ter adquirido grandes extensões de terra no interior do Maranhão (na década de 60, quando foi governador) e essas propriedades logo tiveram espetacular valorização, porque Sarney mandou o DER (Departamento de Estradas de Rodagem) estadual abrir rodovias cortando as áreas, mesmo sistema usado em São Paulo por Orestes Quércia para enriquecer às custas dos cofres públicos. No caso de Quércia, ele chegou ao ponto de mandar cercar as fazendas usando mourões de concreto e arame farpado do DER paulista. Mas isso já é outra história.

Voltando a Sarney, as livrarias estão oferecendo agora três biografias dele. A livraria da Folha de São Paulo, por exemplo, oferece a obra lançada esta semana, escrita pela jornalistas Regina Echeverria, ao preço de R$ 35,90; a biografia anterior, redigida por Saulo Ramos, por R$ 36,47; e a de Palmério Dória, sob o título “Honoráveis Bandidos”, a preço de ocasião, por$ 21,90. Detalhe: a obra de Dória mostra como se deu o enriquecimento do mais conhecido político maranhense. É muito mais divertida.

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