Não pode ficar sozinha

Carlos Chagas

Senão revendo a candidatura, hipótese impossível, ao menos perplexo está o presidente Lula diante das trapalhadas de Dilma Rousseff. Porque enquanto ela permaneceu à sombra do criador, pecava por omissão. Solta, peca por confusão.

Ninguém na presidência da República confirmava, ontem, mas espalhava-se por Brasília  a versão de estar o primeiro-companheiro irritado com o périplo da candidata por Minas Gerais. Em quinze minutos ela desfez quinze semanas de trabalho minucioso do Lula em favor da aliança PT-PMDB para o governo local. Além de haver deixado confusos os mineiros,  ao admitir apoiar o nome de Alberto Anastásia para o palácio da Liberdade, com a contrapartida de os tucanos sufragarem o seu nome para a presidência da República.

Como ficou o senador Hélio Costa, do PMDB,  quase endossado pelo presidente Lula para o governo mineiro? E os companheiros Fernando Pimentel e Patrus Ananias, que ainda insistem em disputar a sucessão local?

Dilma também deixou mal o ex-governador Aécio Neves, supostamente beneficiado com o reforço ao seu candidato Anastásia. Estranhou, tanto que não acompanhou a candidata  na visita ao túmulo de Tancredo Neves, em São João Del Rey. Mas ficou calado, pois seria descortês criticar homenagem feita ao avô.

Em suma, a conclusão é de que Dilma não pode ser deixada sozinha. Começa a quebrar louças, como já fez no Rio de Janeiro ao confraternizar com Anthony Garotinho, para horror do governador Sérgio Cabral. Imagine-se quando for a Pernambuco ou ao Rio Grande do Sul…

NADA DE NOVO SOB O SOL

Faltou  apenas o garotinho para constatar que o rei estava nu, ontem,  no Congresso. Porque a imensa maioria dos deputados continuava justificando o adiamento do projeto “ficha limpa” como os súditos de Sua Majestade elogiavam seus trajes inexistentes. Não houve um que assumisse a evidência de que nem nas eleições de outubro, nem nas próximas, será aprovada a proibição de se candidatarem a  postos eletivos cidadãos condenados pelo Código Penal. A começar pelo presidente Michel Temer, todos comentavam que em maio, ainda dentro do prazo, a Câmara aprovará a sugestão de 1 milhão e 600 mil eleitores  pelo impedimento de disputarem eleições quantos tivessem recebido sentenças transitadas em julgado como punição por crimes variados.

Nem em maio nem nunca os deputados aprovarão dispositivos capazes de limitá-los. Como reconhecer a atuação em causa própria pegaria mal, não faltaram explicações canhestras e fajutas pela recusa dos líderes dos partidos do governo em rejeitar a votação na última quarta-feira. Rejeitaram o requerimento de urgência para que o projeto entrasse imediatamente em pauta, alegando a necessidade de pronunciar-se outra vez  a Comissão de Constituição e Justiça.

A manobra demonstra que nada de novo acontece sob o sol. É a mesma  lambança de sempre, quando se trata de sustentar benefícios e privilégios, mesmo os mais abomináveis.

Dez zumbis

No último dia de prazo, apresentaram-se dez zumbís como candidatos a governador de Brasília, para cumprirem   o término do mandato do ex-governador preso, José Roberto Arruda. Nem adianta relacionar os pretendentes, todos sem outras características que as dos fantasmas.  Acrescido o fato de quem vai eleger um deles é a desmoralizada Câmara Legislativa,  aquela onde pelo menos dez  integrantes estão envolvidos no escândalo do mensalão local.

Reforça apenas a necessidade da intervenção federal, essa exposição de tantas nulidades indicadas pelos partidos e pelos grupos que já deveriam estar na cadeia.

Enquanto isso, o caos aperta o cerco sobre o Distrito Federal. Todos os dias falta energia, o trânsito está infernal, a polícia sumiu das ruas e o desemprego pode ser visto ao redor de qualquer semáforo.  Só o Procurador Geral da República continua a insistir na intervenção.

Um bigode no Planalto

Domingo, se mudanças não tiverem acontecido, um bigode estará de novo no poder. José Sarney só  não subirá a rampa do Planalto porque a sede do executivo federal continua em obras. O presidente Lula não poderá deixar de estar em Washington, junto com mais 46 chefes de estado e de governo, para ouvir Barack Obama anunciar o desmonte de umas tantas bombas atômicas.  O vice-presidente José Alencar viaja para o exterior, sinal de que ainda continua candidato, ainda que pela Constituição só possa disputar a presidência da República, caso não assuma. Para pleitear o governo de Minas ou uma senatoria, precisaria ter-se desincompatibilizado. Também não pode assumir o próximo na linha sucessória,  o presidente da Câmara, Michel Temer, que aspira tornar-se companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Resultado: vai para o trono o presidente do Senado, lá permanecendo até quarta-feira, dia do retorno do Lula.

A pergunta que se faz é se a opinião pública tomará conhecimento da mudança, porque a disposição de Sarney, pelo menos até ontem, era de passar feito uma sombra na presidência da República. Os tempos são outros.

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