Não respeitaram nem o pescoço de Tiradentes

Sebastião Nery

Augusto de Lima Junior, romancista, historiador, filho de Avenida em Belo Horizonte (o pai, Augusto de Lima, poeta e governador, foi um dos patriarcas mineiros) e avô do jornalista Aristóteles Drummond, criou a Medalha da Inconfidência quando Juscelino era governador e o nomeou Chanceler Perpétuo.

O governador só dava a medalha a quem Lima Junior aprovava. Bias Fortes chegou ao governo e, no primeiro 21 de abril, queria dar a medalha de Tiradentes à sogra. Liminha protestou, não adiantou nada. Bias assinou o ato. Liminha pediu demissão e, no dia seguinte, o “Estado de Minas” publicou longa carta do Chanceler demissionário, com o título: – Parir mulher de governador não dá direito à medalha.

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JUSCELINO

Juscelino, governador, no fim de 54, saiu candidato a presidente pelo PSD de Minas, contra a opinião e o voto de Benedito Valadares, chefão do partido, que, no entanto, na convenção nacional do começo de 55, o apoiou.

Mas a UDN continuou atiçando o golpismo do então presidente Café Filho, que, em nome das Forças Armadas, vetava a candidatura de Juscelino, para arranjar um “candidato de união nacional”, que podia ser qualquer um, menos JK. Benedito chamou a seu apartamento, na Rua Raul Pompéia, em Copacabana, o ex-secretário de Juscelino e deputado eleito Olavo Drummond:

– Olavo, você precisa falar para o Juscelino desistir.

– Desistir, como, senador? O povo vai elegê-lo, vai ser o presidente.

– Olavo, já não aguento mais tanto boato. Cada um que telefona conta coisas piores. Vai acabar acontecendo um golpe, e é mais razoável desistir logo. Tem alguém que toca corneta lá embaixo, na rua, toda hora. Me dá susto.

– Ora, senador, é um menino aprendendo tocar corneta.

– Ainda bem. Mas o Juscelino está com mania de ser Tiradentes com o pescoço da gente.

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TIRADENTES

A Medalha da Inconfidência é uma homenagem ao pescoço de Tiradentes, que se imolou porque tinha caráter e não afrouxou como alguns do grupo que com ele conspirava contra a extorsiva cobrança do imposto sobre o ouro (como os impostos e juros de hoje), e pela conquista da Independência. Não negou sua participação, não delatou ninguém, foi enforcado e retalhado.

Em 21 de abril de 2005, em Ouro Preto, mais uma vez o governo de Minas homenageou pessoas com a Medalha da Inconfidência, criada por Augusto de Lima Junior. E o governador Aécio Neves distribuiu exatamente 247  medalhas. Foi um amedalhamento geral. Inacreditável.

Certamente muitos, talvez a maioria dos amedalhados, devia merecer a homenagem. Mas 247 é evidentemente demais. Não há critério que justifique uma farra dessas à custa do pescoço do maior herói nacional. E, por que, do governo, exatamente o Antonio Palocci, símbolo da traição de Lula, em cujo pescoço febrabânico ficaria bem melhor a medalha de Silvério dos Reis?

Respeito é bom e o nosso herói Tiradentes merece.

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