Não se pode ter só certezas: a dúvida é essencial

Pedro do Coutto

Aqueles que acharam que o governo Dilma Rousseff  representaria apenas uma continuidade fria do governo Lula, a partir de hoje têm razão para rever o conceito simplista demais. Basta somente para isso comparar a formação das duas equipes ministeriais e observar paralelamente, com atenção, os resultados de pesquisa do Datafolha, publicada na edição de 22 da Folha de São Paulo. Foi inclusive bem comentada pelo repórter Sílvio Navarro, que destacou o que era para ser ressaltado: 83% acham que o governo que se instala a primeiro de janeiro será igual ou melhor do que aquele que termina a 31 de Dezembro.

Dos 37 cargos ministeriais, Dilma já escalou 21 novos nomes. Vinte e um, vale acentuar, não. Vinte. Porque o deputado Pedro Novais, convidado para o Turismo, depois da matéria de O Estado de São  Paulo, também de 22, certamente será desconvidado e portanto substituído.

Pedro Novais, de acordo com a reportagem de Leandro Colón, manchete da
 primeira página, pagou uma conta  no Motel Caribe, de São Luís, com a verba indenizatória da Câmara Federal. O valor foi de 2 mil e 100 reais. Destinou-se a uma festa que reuniu dez casais no motel. Assim é demais. Mas esta é outra questão.

O fato é que, como já escrevi, se não existem no mundo duas pessoas iguais, não pode haver duas administrações iguais. Cada um tem seu estilo, suas afinidades e antipatias, seus ângulos de avaliar o comportamento humano. A opinião pública, como revelou o Datafolha, percebeu este lado da vida, que vale e se ajusta plenamente ao universo político. Alguns analistas brilhantes, como Élio Gáspari entre eles, acreditam na plena continuidade. Eu não. Nesta altura do campeonato, dou valor à dúvida muito maior do que atribuía há quarenta anos.

É como disse no título deste artigo: não se pode ter só certezas, a dúvida é essencial. Sempre essencial, aliás. Vejam os leitores o exemplo na matemática. Se Einstein não tivesse dúvida quanto a total procedência da lei de Isaac  Newton, quase duzentos anos antes dele, não teria chegado à relatividade em 1905, aos 25 anos. Einstein consolidou sua visão entre 1931 e 1933. Com isso, não foi só a física que mudou. A alteração gerou mudanças no próprio pensamento humano na ciência, nas artes, na política, no modo de se analisar os fatos e as pessoas. Tudo é relativo, a frase ficou para sempre.

A relatividade é um marco em todo o processo de cultura, indagação, divagação, descoberta. Incessante o processo. Como o passo gigantesco de Sigmund Freud com a Psicanálise. Obras, como algumas de Shakespeare, passaram a ser encenadas de outra maneira. Otelo, por exemplo, Hamlet, outro exemplo. Enfim criou-se um ciclo totalmente diferente de ver e rever a atuação do ser humano.

Na política, então, os emblemas são infindáveis, renovando-se inclusive a cada passo. Muitos antecessores elegeram seus sucessores achando que continuariam no poder. Ledo engano. Poderia citar tantos casos dos quais tenho conhecimento. Fico com dois deles. Nas eleições de 55, JK conduziu o vice João Goulart à vitória nas urnas. Jango, um ano antes, havia perdido a disputa para o Senado pelo Rio Grande do Sul para Armando Câmara e Daniel Krieger. No auge da crise de 64, não atendeu no Palácio Laranjeiras, onde estava acuado, um telefonema urgente de JK.

Em 79, Ernesto Geisel fez de João Figueiredo seu sucessor. Condição, manter Golbery do Couto e Silva na Casa Civil. Golbery ficou só 15 meses no posto. Foi demitido na crise da bomba no RioCentro. Onde ficou a continuidade? No espaço, como se diz por aí.

E um Feliz natal para todos.

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