Não vale o escrito

Sebastião Nery

14 de dezembro de 1968. O Brasil acordou com o AI-5 na cabeça e o ministro da Justiça Gama e Silva com a ressaca na boca. Iracema Silveira, mulher de Joel Silveira, telefonou cedo para Rubem Braga:

– Prenderam Joel. Cuide-se.

– Vou tomar uma providência.

E fugiu. Foi para a casa de Fernando Sabino. À tarde, ligou para a casa dele, em Ipanema, a empregada tinha notícias:

– Chegaram aqui dois homens de cabelinhos cortados, com um jipe lá embaixo, procurando o senhor.

***
ADONIAS

Fernando e Rubem telefonaram para o escritor Adonias Filho, amigo do general Sizeno Sarmento, rei da Vila Militar. Daí a pouco, Adonias, baiano solidário e eficiente, chamou:

– Falei com o Sizeno, ele disse para o Rubem ficar onde está e aguardar instruções.

Rubem ficou três dias onde estava: no uísque de Fernando. Adonias ligou de novo:

– Rubem, você vai ser ouvido, mas não vai ser preso. Será ouvido por um ex-colega seu da FEB, o coronel Andrada Serpa. Amanhã, 8 da manhã.

– Não pode ser às 10? 8 é  muito cedo.

***
BRAGA 

Rubem chegou ao quartel, o coronel Serpa o esperava:

– Dr. Rubem, bom-dia.

– Um momento, coronel. Se vai me tratar com cerimônia, me chame de embaixador e eu o chamo de coronel. Sem cerimônia, sou Rubem e você é Serpa, o Rubem e o Serpa da FEB lá na Itália.

Rubem depôs até às 9 da noite. As crônicas de Rubem estavam todas sobre a mesa do coronel, marcadas, grifadas em lápis vermelho forte. E o coronel investigando:

– O que é que você quis dizer com estas frases aqui, Rubem?

– Serpa, você conhece o “Constantino”, aquele jogo do bicho de Niterói? A pule diz assim: “Vale o escrito.” Minhas crônicas, Serpa, são como o “Constantino”. Valem o escrito.

E voltou para o uísque mineiro e generoso de Fernando Sabino.

***
DIRCEU E PALOCCI   

Esse foi o problema do governo de Lula e é o do governo de Dilma : nunca vale o escrito. O PT não deixa. Para o PT, o escrito não vale nada. O ex- procurador-geral da Republica Fernando Souza acusou (e o Supremo Tribunal concordou, recebeu a denuncia e abriu o processo) que o Mensalão era “uma organização criminosa” e José Dirceu o “chefe da quadrilha”.

Lula defendeu Dirceu, dizendo que não houve mensalão, mas “só caixa dois, que todo mundo faz”. Não valia o escrito.

Palocci primeiro negou, depois foi obrigado a confessar que faturou R$ 20 milhões durante a campanha de Dilma, da qual era coordenador, e desses, R$ 10 milhões entre a vitória e a posse, quando era chefe da Comissão de Transição e já convidado para a Casa Civil.

Lula defendeu Palocci e foi ao palácio pressionar Dilma para não demiti-lo, porque “o que ele fez todo mundo faz”. Não valia o escrito.

 

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