Nas curvas de Niemeyer

Sebastião Nery

RIO – Fernando Gasparian, meio exilado, estava dando um curso de América Latina na Universidade de Oxford, na Inglaterra. De manhã, Dalva e ele passaram no hotel, em Londres, e pegaram a mim e minha mulher:

– Vamos para Oxford, para a Universidade. O Oscar Niemeyer vai fazer uma conferencia sobre sua arquitetura e sobre Brasília. Do reitor aos principais professores, estarão todos lá.

Um gênio em ação

Fomos. Um sufoco. Gasparian correndo a 150 quilômetros e, como bom inglês, dirigindo do lado direito (Ibrahim Sued: “Na Inglaterra, quem dirige é o outro”), numa estrada de permanente e hipotética contra-mão. Oxford tinha 31 institutos independentes, 15 mil alunos e 5 mil professores, todos vivendo ali, dentro de maravilhosos prédios medievais.

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OXFORD

Salão superlotado. Professores e alunos dos mais diversos institutos estavam lá. Prestígio do gênio Niemeyer e de Gasparian e seu curso sobre a América Latina. Niemeyer, de pé, pincel na mão e dezenas de cartolinas sobre um cavalete, ia falando, desenhando e jogando as folhas no chão. Quando terminou, havia pilhas de folhas espalhadas. Os ingleses literalmente invadiram o palco, homens e mulheres, professores e alunos, para disputarem e pegarem as cartolinas em que ele riscara rápida e didaticamente seus projetos, seus monumentos, palácios, igrejas, mulheres.

Um mundo de curvas e cimento armado. Um professor me disse:

– É o maior arquiteto do século, mesmo contando o Corbusier.

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GASPARIAN

Depois da conferência, os debates. Anoiteceu e na saída o reitor chamou Niemeyer, Dalva e Gasparian e seus convidados, Philomena Gebran e eu, para o jantar. Niemeyer era o poeta das curvas e da alegria. Antes do cafezinho e do conhaque, vi a Philomena confabulando com a Dalva. Só então me lembrei de que era meu aniversário: 40 anos.

E tive o imperial orgulho de ver o reino da Inglaterra, o reitor de sua principal universidade, aparecer lá de dentro com um bolo inglês, uma vela acesa e Niemeyer e todos cantarem o “Parabéns Para Você”. 8 de março de 1972.Desde então, acho bonito tudo da Inglaterra.Até a Camilla do Charles.

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JUSCELINO

Eu conhecia Niemeyer desde 1952, em Belo Horizonte, no gabinete de Juscelino governador. Logo o entrevistei para “O Diário” , numa volta dele à Pampulha. Não se conformava com a Igreja Católica não permitir o funcionamento de sua encantadora igrejinha de São Francisco de Assis.

Em 19 de setembro de 1956, JK já presidente, o Congresso aprovou a construção de Brasília. Juscelino não perdeu tempo. No dia 2 de outubro, encheu dois aviões da FAB, inclusive com o ministro da Guerra marechal Lott, o Chefe d Casa Militar general Nelson de Mello, e o ministro de Obras Públicas Lúcio Meira. Desceram no aeroporto improvisado, onde hoje é a rodoferroviária. E JK fez aquele histórico e iluminado discurso, escrito pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, cujo começo está gravado em mármore na praça dos Três Poderes:

“Deste Planalto Central, nesta solidão que em breve será o cérebro das decisões nacionais…Estamos aqui para construir a capital do país e o novo pólo de desenvolvimento do Planalto Central e do Centro-Oeste”.

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BRASÍLIA

Duas semanas depois, no dia 18 de outubro de 1956, fui lá com outros jornalistas em um aviãozinho do governo de Minas. Juscelino começava a plantar Brasília em cima do nada. Apenas o cerrado verde sem fim e o horizonte infinito. O marechal Lott, de braços cruzados, olhava o planalto imenso, perguntaram-lhe: -“Como vai ser, general?”–“Não sei”.

Juscelino, Lúcio Costa, Niemeyer, Israel Pinheiro sabiam. Nos meses de outubro, novembro, dezembro, no mínimo cinquenta voos saíram do Rio ou de Belo Horizonte levando governadores, senadores, deputados, jornalistas, empresários. Queriam ver para crer. A maioria para não crer.

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CATETINHO

Quando cheguei no dia 18, Niemeyer estava lá. Tinha ido com JK no dia 2, cheio de medo. Detestava avião. Trabalhava dia e noite e antes de dormir bebia uns uísques numa cabana do Núcleo Bandeirantes, depois transformada no hotel Rio de Janeiro, onde outras vezes me hospedei.

Niemeyer e o engenheiro Juca Chaves, dono do lendário Juca’s Bar, no hotel Ambassador, no centro do Rio, do pai do saudoso Márcio Moreira Alves, fizeram um empréstimo de 500 contos no Banco de Minas Gerais com Maurício Chagas Bicalho e construíram o Catetinho para hospedar JK.

E assim começou a maior epopéia da nossa historia, nascida da grandeza de Juscelino e do gênio de Niemeyer. Ninguém me contou. Eu vi.

sebastiaonery@ig.com.br

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