Negrão e Chagas Freitas: santificados sejam vossos nomes

Pedro do Coutto

A comparação entre Negrão de Lima e Chagas Freitas, de um lado e Sérgio Cabral de outro, todos governadores da Guanabara e do Rio de janeiro, tornou-se oportuna, a partir da reportagem de Denise Luna, Lucas Vetorazo e Ítalo Nogueira, Folha de São Paulo de sexta-feira, focalizando a saída de Cabral, pela porta dos fundos, após solenidade no BNDES, para evitar os jornalistas. As fotos são de Daniel Marento e Ide Gomes. A de Marento ocupou praticamente a metade da primeira página. Expôs, através da força da imagem, o abatimento do governador.

O título deste artigo tem origem numa conversa com o ex-deputado Alexandre Farah, adversário de Chagas Freitas. “Mas hoje vejo”, me disse, “que aquele ex-governador foi um santo se comparado a Sérgio Cabral”. Achei procedente o cotejo e resolvi acrescentar outro nome. Negrão de Lima, homem de integridade absoluta. Vendera a casa que tinha na Borges de Medeiros, onde hoje está o edifício Garça Branca.

No final da vida, morava num apartamento alugado na Anibal de Mendonça, esquina com Vieira Souto. Em frente a Millôr Fernandes. Impecável no trato do dinheiro público e em relação ao funcionalismo. Jamais deixou de reajustar os servidores públicos ao nível da inflação encontrada pelo IBGE.

Chagas Freitas também não. Seguia invariavelmente os índices adotados pelo governo federal. Absolutamente conservador, ferrenho adversário da esquerda, governava com pulso de ferro, mas exigia honestidade de seus secretários e integrantes da assessoria. Diante da menor dúvida colocada, ou não nomeava ou demitia. Era um homem rico. Diretor proprietário do jornal O Dia, que, no seu tempo, dava lucro na venda avulsa. Fato raro na imprensa.
Era um jornal popular. Como é até hoje.

Indicado pelo poder militar, assumiu o governo da Guanabara. O advogado Benedito de Barros era seu amigo fraterno de muitos anos. Chagas convidou-o para a Secretaria de Administração. Mas O Globo publicou uma nota revelando que, entre os Secretários convidados, um devia ao Imposto de Renda. Chagas procurou saber quem era e exigiu que enviasse carta ao jornal. Benedito não quis. Chagas o desconvidou. Da mesma maneira, agiu em relação a Miguel Lins, em 71, desconvidando-o para presidir o então Banerj.

Fechou, eu sei que os leitores vão lembrar, a sede do PMDB no Rio, então presidido pelo deputado Reinaldo Santana, para não receber os candidatos simbólicos do partido, Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, lançados em 74 contra os generais Ernesto Geisel e Adalberto dos Santos. Alinhava-se com o sistema militar de poder.

Mas no plano pessoal era absolutamente íntegro no trato com o dinheiro público. Negrão de Lima também. Como lembrou Humberto Braga, durante quatro anos Secretário de Governo, antes de ir para o TCE-RJ. O testamento que redigiu para Negrão foi uma peça de integridade. Ministro da Justiça de Vargas, prefeito do Rio, Chanceler de JK, embaixador e governador da Guanabara, os bens que deixou poderia fazer parte do inventário de qualquer pessoa de classe média superior.

Certa vez, me contou também Humberto Braga, chegaram à Casa Civil informações que assessores próximos estavam fazendo despesas muito acima de seus vencimentos. Mandou investigar. Comprovado o relacionamento com empreiteiros e fornecedores do estado, demitiu-os imediatamente.

Hoje, a época é outra. Sérgio Cabral viaja e é íntimo de um empresário como Fernando Cavendish. Negrão de Lima e Chagas Freitas; santificados sejam vossos nomes, assim na Terra como no Ceu. Principalmente na Terra.

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