Nelson Rodrigues, o álbum de família até depois da morte

Pedro do Coutto

Alessandra Medina, em reportagem na revista Veja que está nas bancas, focaliza o conflito entre os herdeiros de Nelson Rodrigues pelo espólio do grande autor brasileiro – o maior poeta dramático do país na definição de Manuel Bandeira -, vinte e dois anos depois de sua morte, quando transcorre seu centenário de nascimento. Fui muito amigo dele e personagem seu, entre outros amigos, de suas colunas no Globo, As Confissões e À Sombra Das Chuteiras Imortais.

Sua maior peça, sem dúvida, é Vestido de Noiva, que Ziembinsky dirigiu em 43. A mais controversa é, exatamente, Álbum de Família. O ator Jaime Costa, para se ter ideia, recusou o principal papel, achando que a plateia não suportaria a história. Enganou-se. Fregolente entrou em seu lugar e a obra, em meio à tempestade que naquele tempo se formava em se tratando de Nelson Rodrigues, foi consagrada como tragédia brasileira. Ele, Nelson, a classificava no ciclo da tragédia carioca, lado do próprio Vestido de Noiva, O Beijo no Asfalto, Bonitinha Mas Ordinária, Toda Nudez Será Castigada, esta de 1965, no teatro com Cleide Yaconis.

Mas, observando o conjunto de sua extensa obra, nela encontra-se uma unidade em torno do tema família. Os Sete Gatinhos integra esse ciclo, estava esquecendo de citar. Pois bem. A vida e o palco, como sempre sustento, são uma coisa só. Acrescentam-se entre si, como concebeu Marcel Carné no magnífico “Les Enfants Du Paradis”, maior filme do cinema francês.

No caso de Nelson, vida e interpretação dela giram em torno, não do seu legado artístico, mas dos efeitos financeiros dele. Nada a opor. Está na lei. E a lei, na excelente definição de Hegel, é a conciliação dos contrários. Contrários não faltam na herança do torcedor símbolo do Fluminense e as Seleção Brasileira.

Ele – vê-se agora – transitava em três famílias. Elza, sua primeira mulher, ainda viva, Helena Santos e Lúcia Cruz Lima, falecida. Jofre morreu, mas há cinco filhos vivos. O inventário, revela Alessandra Medina, já reúne 5 mil páginas. Peças de teatro, livros, filmes no acervo que se deslocou da arte para a Justiça.

No texto de Alessandra Medina, cabe uma retificação: a frase “o amor compra tudo, até amor verdadeiro” não é de Nelson. É do jornalista David Nasser, em artigo na antiga revista O Cruzeiro, narrando diálogo difícil que mantivera com Assis Chateaubriand, o proprietário do Diário Associados. Encontra-se no contexto de quando Chato, como era chamado, diz:  “Você quer ter a liberdade de opinião? Então compre um jornal”. O artigo focalizava Juscelino Kubitschek.

Voltando a Nelson, a família era a matéria prima. São dificuldades, seus impasses, seus desgastes, suas contradições que, na verdade, pertencem à espécie humana. O moralismo, a monotonia, o ódio, o tédio, a saturação, os rompantes. Duas personagens femininas o fascinavam: Ana Karenina, de Tolstoi, e Madame Bovary, de Flaubert. As duas simbolizavam a paixão na mulher. Febril, sem fronteiras, sem limites.

Quem melhor compreendeu sua obra, sem dúvida, foi o jornalista e poeta concreto José Lino Grunewald. Iluminou o sentido mais profundo dos textos nelsonrodrigueanos: o moralismo, por fim, não a imoralidade por meio, que expunha. Expunha, porém condenava. Nelson era um moralista. Ambos meus amigos, sou responsável pela apresentação. JLG passou a ser mais um personagem de suas histórias. Foram grandes amigos também.

Nelson Rodrigues foi muito combatido. A falsa moral burguesa não suportava ver-se indiretamente exposta ao sol e à chuva. Chefes de família diziam: isso que o Nelson escreve é impossível de acontecer. Eu o defendia indagando: o nazismo foi possível? Se o nazismo foi possível, tudo o que envolve o ser humano é possível.

Hoje, sepultado o preconceito, ninguém mais duvida do mergulho de Nelson. Minha pergunta, portanto, perdeu sentido. Ficou datada. A vida como ela é – título de coluna que publicou na Última Hora – prevaleceu. A vida tem sempre razão.

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