Nem os americanos acreditaram

Carlos Chagas 

Se verdadeiras as afirmações de José Dirceu e do próprio presidente Lula de que o mensalão não existiu, porque para eles  a  distribuição de dinheiro a parlamentares envolveu apenas liberação de recursos para enfrentar as despesas da campanha de 2002, como ficarão candidatos e  partidos em 2011, quando as contas precisarão ser saldadas? De novo a palavra vai para o ex-chefe da Casa Civil, a respeito de que  os  candidatos, inclusive ele,  gastam duas vezes mais do declaram. 
                                             
Deve ter gente,  em todos os  partidos, com a corda no pescoço para pagar as dívidas contraídas para as eleições do último  mês de outubro. A maioria, inclusive, apoiou a candidatura de Dilma Rousseff.  Vão fazer o quê?  Chamar outra vez o Delúbio Soares?

Cada vez que vem à tona a questão do mensalão, mais se caracteriza a lambança.  Fica estranho assistir o presidente Lula declarar a disposição de  dedicar parte de seu tempo, depois de deixar o poder, a provar que o mensalão não existiu.  Nem se enganaram os ingênuos e tranqüilos embaixadores que os Estados Unidos mandaram para o Brasil, nos últimos anos. Os memorandos pouco éticos e nada vernaculares que enviaram para Washington comprovam não acreditarem nas versões de Dirceu, a quem  não pouparam em seus comentários, divulgados em pílulas pelo WikiLeaks.
                                             
Deve cuidar-se a  presidente prestes a receber a faixa presidencial.  Um monte de políticos eleitos e não eleitos este ano estarão maquinando fórmulas pouco claras de pagar aos seus, digamos assim, “fornecedores”.  Ao primeiro sinal de negócios escusos ela deve estar de tacape e borduna na mão, pronta para vibrar inesquecíveis golpes em quem se arriscar a buscar dinheiro sujo.

COINCIDÊNCIAS OU CONTRADIÇÕES?

A política praticada pelo presidente Lula continua cheia de coincidências, para não dizer  contradições. Ontem, em Brasília, o primeiro-companheiro recebeu os generais promovidos no Exército, almoçou  com eles, fez um discurso elogiando as Forças Armadas e ainda entregou novos helicópteros  à Aeronáutica.
                                             
À tarde voou para o Rio e, entre outras solenidades, lançou a pedra fundamental da nova sede da União Nacional dos Estudantes, no mesmo lugar da velha, queimada e demolida pelos militares quando chegaram ao poder. Também com direito a um pronunciamento onde deixou clara sua simpatia pelos jovens que, de 1964 em diante, enfrentaram a ditadura.
                                             
Tudo no mesmo dia, demonstrando conciliação ou confusão? Precisamente quando os jornais publicaram entrevista do ministro chefe da Secretaria dos Direitos  Humanos, Paulo Vanucci, desancando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, acusado de haver manchado a própria biografia ao ter atacado “de modo indesculpável” o projeto de criação da Comissão Nacional da Verdade, uma resposta do poder público aos familiares dos desaparecidos políticos.

Admite-se que no ministério existam  divergências de caráter ideológico, mas na  agenda do presidente da República, fica meio estranho.

NÃO FALTAM CANDIDATOS

Na entrevista a uma rede de televisão, na madrugada de ontem, o presidente Lula admitiu que poderá ser candidato ao palácio do Planalto, no futuro, mas sustentou ser muito cedo e que “quando chegar a hora, a gente vê o que vai acontecer”. 

Citou como possíveis candidatos, a própria Dilma Rousseff, ocupando a pole-position, mais os governadores Eduardo Campos,  Jaques Wagner e Sérgio Cabral, esquecendo-se de Tarso Genro e   referindo-se também a Aécio Neves e José Serra.
                                             
“O que não falta é candidato”, acrescentou o Lula, para quem o simples fato de estar vivo não fecha a porta a nenhuma possibilidade. Traduzindo a linguagem cifrada do primeiro-companheiro,  também presidente de honra do PT: é candidatíssimo a voltar…

RECARREGANDO AS PILHAS

Parte dos ministros já escolhidos por Dilma Rousseff obteve dela licença para submergir por uns poucos dias, não mais do que uma semana, antes da posse. É fundamental para os que vão enfrentar  desafios e  obstáculos  estar descansados ao menos da pedreira que foi a campanha.

Pelo jeito, só ela permanecerá com a mão no leme,  menos por inviáveis tempestades, mais para acostumar-se à máxima lusitana de que se o dono do botequim não estiver na caixa, o negócio não anda…

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