Nem pior nem melhor do que a nação

Carlos Chagas
                                   
Já em pleno Carnaval, que no Congresso se estenderá até o dia 14, serve o interregno para um primeiro balanço das atividades parlamentares nesta nova Legislatura. De início, vale a preliminar de que todo Congresso é o retrato da nação. Nem melhor nem pior, pois é o espelho da sociedade inteira. Isso, é claro, quando o regime é democrático e o voto é livre.
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Acrescentava  o saudoso Gustavo Capanema, autor desse diagnóstico tão simples,  que em todo Congresso podiam ser identificados dez por cento de luminares, e nesse momento ele inflava o peito, e dez por cento de ladrões, quando ele fazia aquele gesto de quem tange galinhas, para completar que oitenta por cento eram o retrato da nação.
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Pois os deputados e senadores no exercício de seus mandatos são exatamente isso. Por uma certa dose de maldade é que o dr. Ulysses comentava que “pior do que o atual Congresso, só o próximo…” Tratava-se de uma blague, uma frase de efeito, na qual nem ele acreditava.
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Acrescente-se o saudosismo de alguns velhos jornalistas,  hoje meio  gagás, que pontificam junto aos novos afirmando que “no meu tempo é que o Congresso era importante”. Citam parlamentares do passado, como Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Oscar Correia, Pedro Aleixo, Magalhães Pinto, por sinal todos da antiga UDN, denunciando o próprio facciosismo desses nossos venerandos companheiros.

A tentação é de responder que daqui a cinquenta anos, quando os jovens repórteres de hoje estiverem encanecidos, quem sabe não dirão aos novos que no tempo deles é que era maravilhoso, pois o Congresso tinha Tiritica, Romário, Paulo Maluf, Geddel Vieira Lima e quantos outros…
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Feito o preâmbulo que já vai longe, o principal: o atual Congresso corresponde às expectativas nacionais? Fez o quê, nesse primeiro mês de atividades?
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Num primeiro tempo, deputados e senadores elegeram suas mesas diretoras.  No Senado,  o veterano José Sarney. Na Câmara,  o jovem Marco Maia. Ambos, dentro de suas características, têm mantido o controle das casas respectivas. Não se contesta o deputado, como no passado aconteceu com Severino Cavalcanti, nem o senador, longe de passar pelo que passou, por exemplo, Jader Barbalho.
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Nas comissões técnicas aconteceu o natural rodízio. Claro que na Comissão de Constituição e Justiça do Senado saiu um jurista de mão cheia, Demóstenes Torres, entrando um empresário pouco afeto às questões  do Direito, Eunício Oliveira. A falta de experiência do senador cearense, no entanto, não lhe retirou a firmeza de constituir polêmica subcomissão para elaborar projeto de  reforma administrativa do Senado. O ex-presidente Fernando Collor deixou a direção da Comissão de Infraestrutura pela de Relações Exteriores.

Na Câmara, João Paulo Cunha assumiu a Constituição e Justiça, não obstante sua condição de réu no processo dos quarenta  mensaleiros. De um modo geral as comissões seguem seu ritmo normal, nas duas casas.
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Jovens os há nos dois plenários, de Randolfe Rodrigues e Lindberg Farias, no Senado, e aquele monte de meninas bonitas, na Câmara. Se tiverem paciência e humildade, aprenderão. Por enquanto andam exagerando, como ainda na quinta-feira o primeiro citado neste parágrafo, ao discorrer longamente sobre a História e a Geografia da África, quando deveria apenas  fazer  perguntas a um embaixador submetido à aprovação. �
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Também no Senado,  o singular Mão Santa não se reelegeu, para tristeza dos que aplaudiam a realização de intermináveis sessões não deliberativas por  ele presididas,  sempre discursando em todos os  intervalos entre os oradores. Permaneceu, no entanto,  outro cultor da palavra fácil, Eduardo Suplicy.  

Na Câmara, tem sido empolgante o esforço feito pelos deputados de primeiro mandato para exprimir opinião sobre os mais variados assuntos,  sempre de olho na luzinha vermelha das câmeras de televisão. Nada mais natural. O singular Tiritica esbanjou humildade quando indicado para a Comissão de Educação e Cultura, postura que o Romário deveria seguir.
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Em matéria de trabalho, deram as maiorias das duas casas demonstração de alinhamento com o Executivo, aprovando em tempo recorde o projeto de reajuste do salário mínimo. Medidas Provisórias foram votadas, assim como discutidos  temas polêmicos, do  aumento dos juros à crise na Líbia. Entre uns poucos despropósitos, muitos pronunciamentos pertinentes.
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Em suma, um primeiro mês sem surpresas, no Congresso. Nem melhor nem pior do que o desempenho da sociedade, do lado de cá, apesar da inveja que nos assola de não podermos ficar sem trabalhar  toda a próxima semana.

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