No auto-retrato de Lya Luft, ela cuida da vida como se fosse um jardineiro

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A professora, escritora, tradutora e poeta gaúcha Lya Fett Luft, no poema “Auto-Retrato”, mostra que é uma intelectual revolucionária, pois defende a igualdade de gêneros também na literatura.

AUTO-RETRATO
Lya Luft

Alguém diz que sou bondosa: está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa, e acho graça.
Não sou áspera nem amena: estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa: corte, sangue, dor e aroma
para que a beleza fique na memória
quando a flor passa.

(Amar é lidar com os espinhos de quem ama por inteiro: com força, não com fraqueza.)

4 thoughts on “No auto-retrato de Lya Luft, ela cuida da vida como se fosse um jardineiro

  1. Quando Hélio Pellegrino faleceu:

    Não digam que isso passa – Lya Luft

    Não digam que isso passa,
    não digam que a vida continua,
    e que o tempo ajuda,
    que afinal tenho filhos e amigos
    e um trabalho a fazer.
    Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
    Mas morreu bem ( que não quereria uma morte como essa?)

    Não me digam que tenho livros a escrever
    e viagens a realizar.
    Não digam nada.

    Vejo bem que o sol continua nascendo
    nesta cidade de Porto Alegre
    onde vim lamber minha ferida escancarada.

    Mas não me consolem:
    da minha dor, sei eu.

    Lya Luft

  2. LYA LUFT

    O tempo, amigo feroz

    É uma das esquisitices do nosso tempo que na época em que mais tempo vivemos haja tanta dificuldade em relação ao que se convencionou chamar velhice. Palavras significam emoções e conceitos, portanto também preconceitos. Por isso, quero falar de minha implicância com a implicância que temos com os vocábulos – e a realidade – velho, velhice.

    E, como gosto de historinhas, algumas, como esta, reais, lembro um episódio com Tônia Carrero, ainda uma linda mulher aos oitenta anos, na casa de minha comadre Mafalda Verissimo. De repente, alguém lhe perguntou: “Tônia, chegando aos oitenta, como você lida com a velhice?”. Nós todos gelamos, mas ela, em pé no meio da sala, possivelmente com um cálice de champanhe na mão, respondeu sem hesitar: “Ora, eu acho ótimo. Porque a alternativa seria a morte”.

    A presença de Tônia era sempre uma festa naqueles tempos. E nós, eu então com mal uns cinquenta, achei maravilhosa aquela presença de espírito, e aquele pensamento. Naturalmente, nem ela, nem ninguém gostaria de envelhecer com as doenças, perdas e fragilidades que tantas vezes nos acompanham quando o número de anos cresce assustadoramente. Mas que, pelo menos, não sejamos velhos chatos e sombrios, eternamente reclamando de tudo e de todos.

    Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda exercer afetos, agregar pessoas, ler bons livros, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso, não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda…) ou ágil, mas ainda lúcido.

    Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato otimismo – coisas que podem melhorar. A mim, o que me aborrece é o preconceito evidente com que cercamos velho, velhice, como se fossem uma enfermidade, um incômodo para os outros, a demência inevitável, a chateação: “Ah, tenho de ligar para a mamãe, poxa, tenho de visitar o velho”.

    Isso não é apenas grosseria, mas grave pobreza emocional. Viver deveria ser poder celebrar sempre mais um dia: o nosso, e dos que amamos. E, em momentos de dor indizível, redobrar sem espalhafato, com delicadeza, o amor de que somos capazes.

    LYA LUFT

  3. “Predomina a idéia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos mutilando ou escondendo. No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: “Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem de espírito.” Por que ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável. Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem. Mais sereno, mais misterioso, mais sedutor. Assim como não gostei quando certa vez pensando me agradar um crítico escreveu que embora sendo mulher eu escrevia ‘com mão de homem’.”
    – Lya Luft, em “Perdas e Ganhos”.

    Adorei este livro. Lya Luft conseguiu instigar seus leitores . A gente para várias vezes durante a leitura para pensar na vida

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