No Brasil, os novos ricos são banqueiros. Não é surpresa. Com as taxas de juros mais elevadas do planeta, não se podia esperar outra coisa.

Tadeu Cordoba Borges

O domingo, 13 de março de 2011, pode ter sido pródigo para quem se dedica à pesquisa e reflexão sobre a economia brasileira. Dois luminares do colunismo, Carlos Chagas e Elio Gaspary, convergiram, abordando um mesmo assunto: a divulgação pela revista Forbes dos maiores bilionários do mundo, e, para surpresa dos jornalistas, entre os brasileiros há forte predominância de banqueiros.

Elio Gaspary comentou a lista completa e constatou a presença de 30 brasileiros com mais de US$ 1 bilhão, com treze no setor de extração e transformação e 15 do setor terciário de serviço bancário. Já Carlos Chagas deteve-se nos 100 primeiros,  e na relação encontrou doze brasileiros, aí com uma brutal diferença: enquanto um atua no setor produtivo, onze atuam no mercado financeiro.

Conforme foi muito bem apontado por Carlos Chagas, “Deve ser preso como doido quem disser que é natural e justo, que faz parte das leis da economia, pertencendo o mundo aos vencedores das competições ou aos bafejados pelo berço”. Mas tudo isso aconteceu porque sementes foram plantadas, por semeadores escusos, já há mais de 60 anos. A fecundação das sementes ocorreu com o golpe militar de 1964.

Segundo aula do telecurso do segundo grau da Fundação Roberto Marinho, “a revolução foi patrocinada pelos latifundiários, porque havia uma ameaça de reforma agrária; pelos grandes empresários, porque havia uma ameaça de controle de preços; e pelos políticos conservadores, pelos militares, pela Igreja e pelo governo dos Estados Unidos, que inclusive enviou porta-aviões para a costa brasileira”.

O Brasil é o quinto maior do mundo em área quanto em população, sem falar na qualidade de ambos. Constitui natural ameaça à hegemonia econômica vigente. Seria interessante a eles a inversão da fórmula do sucesso: a prevalência do trabalho ante o capital. Foi o que ocorreu com toda sacanagem,  sutileza e  inteligência, pois houve toda uma estratégica, quase imperceptível e sorrateira, em favor do capital.

Após março de 64, grandes transformações se operaram no país: entre outras medidas, a criação do Banco Central  do Brasil, pela lei 4.595, sancionada em 31 de dezembro de 1964, e a entrada no ar do TV Globo, em 25 de abril de 1965.

Tudo o que é decente dentro de um banco central, a SUMOC- Superintendência da Moeda e do Crédito, carteira do Banco do Brasil poderia perfeitamente fazer. Mas havia um senão: estava reservado à nova instituição um papel impatriótico que não cabia na honrosa história sesquicentenária do BB. Por isso a fundação de um organismo novo, que fosse aos poucos moldado para exercer a tirania do capital selvagem, a longo prazo.

Quanto à TV Globo, as pessoas mais bem informadas sabem que o grupo Time/Life perdeu algum tempo tentando negociar a implantação do projeto global sobre a maior televisão existente no país, a Tupi, proposta rechaçada por  Assis Chateaubriand. Desconheço se houve tentativas junto a outras TVs existentes, mas na TV Globo o intento acabou desaguando na aquisição de outras emissoras, repleta de fraudes, inclusive por parte do poder público, conforme insistentes denúncias veiculadas pela Tribuna da Imprtensa sobre o caso da usurpação da Rádio e TV Paulista.

No período pós 64, verificamos duas fases distintas. Na primeira tivemos  restrições públicas, com eleições indiretas, censura à imprensa, atos institucionais, enquanto no campo econômico tivemos liberdade inclusive para comemorar o “milagre brasileiro”. Na segunda fase houve a completa inversão dos valores: entrou a abertura política, com o fim da censura, eleições diretas para os governos estaduais, se contrapondo ao mergulho na década perdida. Mas no campo econômico procedeu-se à deformação do sistema financeiro com a criação do “open-market” e do “overnight”. Em decorrência destes mecanismos o sistema financeiro deixou de financiar atividades produtivas e, dizem alguns incautos, passou a financiar o Estado ou a dívida pública.

Na verdade criou-se um monstrengo, pois o Banco Central passou a remunerar a ociosidade do capital. Todo valor que “pernoitava” em conta de depósito à vista ensejava que fosse remunerado pelo Tesouro. Em favor dos banqueiros, criou-se uma sinistra forma de pedágio, em que um depositante qualquer confiava seus valores a uma instituição financeira, que aplicava no “overnight”, conta disso lesando o dono da conta corrente e também o Tesouro Nacional. E até mesmo a taxa de remuneração era fixada pelo BC.

Por estas razões, criou-se no Brasil uma figura exótica no mercado financeiro: o leilão de folha de pagamentos de entidades do setor público. A instituição financeira pagava vultosa importância para a folha estatal ser depositada em seu caixa, para depois sangrar o Tesouro no “overnight”, quando os valores pernoitavam nas contas. Institui-se assim um duto ligando o Tesouro ao bolso do banqueiro.

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POR QUE OS JUROS SÃO ALTOS NO BRASIL?

Na verdade, qual é a verdadeira razão dos juros altos no Brasil? Desde que foi criado o mecanismo de “open-market” e “over-night” passamos, quase sempre, a liderar o ranking dos juros mais altos do mundo.

O mundo desenvolvido raríssimas vezes experimentou a prática de juros de dois dígitos. Aqui no Brasil o céu é o limite. Já chegamos ao absurdo da taxa de juros anualizada alcançar 6 dígitos. Isto aconteceu em fevereiro de 1990, véspera da posse de Collor de Melo. Naquele mês os juros variaram de 141.597,24% (01.02) a 790.799,15% (19.02), conforme site do Banco Central do Brasil.

Hoje no Brasil dizem que o aumento dos juros aplaca a inflação, e falam com uma convicção tão grande que impressionam. Vale então recomendar uma reflexão sobre a decorrência dos elevados juros de fevereiro/90: em março seguinte, com preços livres apenas na primeira quinzena, porque o Plano Collor promoveu congelamento de preços a partir de 15.03, tivemos a mais alta inflação de nossa história: mais de 84% (OITENTA E QUATRO POR CENTO). Em outras palavras, após a prática das mais altas de juros, convivemos com a maior taxa de inflação.

A revista inglesa The Economist, periodicamente (a primeira vez foi há mais de 20 anos),  afirma que o Brasil é um país bêbado, não doente. Com razão, aliás. Certa feita Pedro Malan fazia uma preleção onde falava da dificuldade em ser ministro da Fazenda no Brasil. Presente no evento, o diplomata Rubem Barbosa não se conteve e interrompeu o ministro, afirmando: “Dificuldade passei eu, quando embaixador em Londres, tentando explicar atitudes que vocês tomam no Brasil, na contramão do resto do mundo”.

 Luiz Carlos Mendonça de Barros registrou em artigo, que o ex-ministro Sergio Motta era absolutamente contrário à privatização das telecomunicações. Foi convencido ao ver a comparação dos números dos telefones do Brasil com outros países e ser informado que o país não tinha dinheiro para investir no setor. Deviam ter dito também que o país só tem dinheiro para pagar, desnecessariamente, os mais altos juros do mundo.

Ainda a respeito do sistema financeiro, é oportuno registrar episódio do depoimento do banqueiro Ronaldo Ganon, na CPI dos Precatórios. Ele foi único que abriu a boca e contou tudo o que sabia. A certa altura do depoimento, ele percebeu que os congressistas estavam atônitos e procurou tranquilizá-los, afirmando mais ou menos o seguinte: “Isto que lhes falei  a respeito dos precatórios é apenas 10% do que ocorre no sistema financeiro”.

Quanto à imprensa, um pequeno registro é capaz de mostrar o “patriotismo” do segmento. Em 18 de janeiro de 2008, ocorreu o segundo capítulo da novela do subprime. Uma sexta-feira, véspera do feriadão de Martin Luther King, no momento em que os mercados do mundo já haviam fechado, o Governo Bush anunciou uma devolução de impostos da ordem de US$ 150 bilhões, abrangendo todos os contribuintes do país. Na falta de mais notícias em virtude do feriadão, os jornalões brasileiros procuraram se antecipar e proclamaram que, segundo analistas consultados (mas não nominados), os juros brasileiros não poderiam mais cair ao longo daquele ano, em virtude da crise norte-americana.

Na terça-feira, quando reabriu o mercado, o FED (Banco Central norte-americano) realizou reunião extraordinária e decidiu promover a maior baixa dos juros dos últimos 14 anos. Creio que está explicado porque no Brasil os banqueiros galgam a lista da Forbes, enquanto os demais cidadãos pagam a conta.

Ao encerrar, pergunto aos leitores da Tribuna: “Vocês já imaginaram o que pode acontecer com o Brasil se o governo deixar de gastar mais de 200 bilhões de reais em juros, se as taxas de juros baixarem para os mesmos níveis dos países desenvolvidos e se o governo privilegiar o trabalho perante o capital?”

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