No Brasil, quem consome diesel ou gás está subsidiando a gasolina. Você sabia?

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Carlos Newton

Um dos maiores mistérios do país são os critérios adotados para composição dos preços dos combustíveis (óleo diesel, gasolina e gás liquefeito de petróleo). Embora  há muitos anos o Brasil já seja autossuficiente em petróleo e tenha se tornado exportador, inclusive sonhando merecidamente se filiar à poderosa OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a  Petrobras continua a fixar os preços de seus combustíveis como se fosse importados do Golfo do México e pagassem frete, taxas portuárias e seguro de transporte, algo que mais parece ser Piada do Ano, é difícil acreditar.

Para conhecer melhor o assunto, pesquisamos com a própria Petrobras os cálculos usados na formação dos preços médios cobrados ao consumidor final de gasolina, óleo diesel e gás liquefeito de petróleo em 13 capitais e regiões metropolitanas brasileiras. E tivemos algumas surpresas.

GASOLINA E GÁS – Quando chega ao consumidor, que enche o tanque no posto, o preço da gasolina tem a seguinte composição: distribuição e revenda, 12%; custo do aditivo (etanol anidro), 14%; ICMS, 29%; CIDE e PIS/PASEP e COFINS, 15%; e realização Petrobras, 30%.

No entanto, quando se trata do gás liquefeito de petróleo que abastece as cozinhas das famílias brasileiras e os automóveis dos taxistas, dos motoristas de Uber ou dos donos de automóveis adaptados, a composição do preço do preço é muito diferente, com maior peso para distribuição e revenda, 41%, completando com ICMS, 16%; PIS/PASEP e COFINS, 3%; e a fatia da Petrobras sobe para 40%.

ÓLEO DIESEL – Quando é o caminhoneiro ou o motorista do ônibus que chega ao posto de abastecimento, a relação que compõe o preço final do combustível muda radicalmente, segundo os dados com base na média das principais capitais e tendo a composição 89% de diesel e 11% de biodiesel.

Em comparação à gasolina, no diesel o quesito distribuição e revenda, por exemplo, sobe de 12% para 15%, sem motivo relevante, pois a venda massiva do diesel é feita nas rodovias e nas periferias urbanas, com menor custo de frete do que a gasolina, que é muito mais comercializada nas cidades. E os outros componentes do preço são: custo do biodiesel, 9%; ICMS, 15%; CIDE e PIS/PASEP e COFINS, 9%; e realização Petrobras, 52%.

PREÇOS INJUSTOS – Em tradução simultânea, constata-se claramente que essa política de preços prejudica expressivamente o caminhoneiro ou motorista de ônibus movido a diesel, porque eles gastam 3% a mais do que o consumidor de gasolina no preço de distribuição e revenda, sem haver justificativa. Embora no diesel paguem menos 19% de impostos do que na gasolina, em compensação a fatia da Petrobras sobe de 30% (gasolina) para 52% (diesel), algo inexplicável (e que no mês passado era 54%, vejam a bagunça, nem eles sabem o que gastam).

Essa política de preços significa que, ao vender o diesel, que é o mais importante insumo de transporte nacional, como combustível de circulação de mercadorias e renda, usado também em locomotivas e navios,  a Petrobras ganha muito mais do que comercializando gasolina, um combustível de transporte individual ou familiar, mais importante no lazer do que no transporte de massa.

E O LADO SOCIAL? – Em tradução simultânea, com 52% de retorno no diesel, 40% no gás e 30% na gasolina, a política de preços da Petrobras é totalmente injustificável, inexplicável e indecifrável. Como pode a empresa ganhar mais vendendo diesel e gás, dois produtos de interesse social da maior relevância, do que vendendo gasolina? Qual é a lógica dessa política?

Isso significa que, ao consumir diesel, as máquinas agrícolas, os trens, os navios e os caminhões que produzem riquezas, assim como os ônibus que transportam o povo brasileiro, todos esses importantíssimos meios de transporte na verdade estão subsidiando os brasileiros que usam gasolina em seus automóveis e suas motos. Da mesma forma, o taxista e o motorista de Uber, em seus veículos, e a dona de casa que alimenta a família usando gás, todos também estão subsidiando a gasolina – em menor escala do que o diesel, é claro.

A Petrobras não tem explicação a dar. Apenas alega que “os preços cobrados por esses produtos não dependem exclusivamente da companhia”, acrescentando que “tributos e margens de comercialização são alguns dos componentes do preço final ao consumidor”.

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P.S. – O governo Vargas criou e manteve a Petrobras com um objetivo claro – livrar-se da dependência externa no setor de combustíveis. Trata-se de uma empresa de economia mista, que precisa visar ao lucro, é claro, mas os interesses nacionais não podem ser olvidados. É necessário que se indique um motivo que justifique o consumo de gasolina ser subsidiado pelo uso do diesel, Basta apenas um único e escasso motivo. (C.N.) 

16 thoughts on “No Brasil, quem consome diesel ou gás está subsidiando a gasolina. Você sabia?

  1. combustíveis, energia elétrica, telecomunicações são segmentos em que o governo ineficaz explora o contribuinte brasileiros.
    os governadores são os principais vilões desta matriz tributária.

  2. Claro que existem coisas vergonhosas, por exemplo o estado do RJ ser o maior produtor de petróleo do país, porém tendo o valor de combustível muito maior do que SP, por exemplo.
    Mas o estado do Rio não conta, pois aqui é adotado os maiores absurdos deste país.
    Temos péssimas referências, onde nos tornamos motivos de chacota, pois disparado tem sido um dos piores estados para se viver (ou pelo menos tentar).
    Não querendo falar muito da “escória” que virou nosso estado, basta acompanhar os noticiários sérios (não a vênus platinada).

    Com relação ao preço dos combustíveis no âmbito nacional, é interessante ressaltar que não podemos peitar nossa “matriz” (EUA), pois poderíamos importar gasolina venezuelana para os estados do Norte e Nordeste (onde teríamos menor custos de transporte) e com isso, conseguiríamos baratear o combustível pelo menos para essas regiões (que ficam longe de refinarias), mas duvido que algum presidente queira encarar a matriz (EUA).
    Como todos sabem, contrariar os Estados Unidos é a maior “furada”, porém se consumissêmos gasolina venezuelana, com certeza teríamos redução de preço na bomba (lembrando que a gasolina venezuelana é a mais barata do mundo).

    A Petrobrás não tem a capacidade de refinar todo o petróleo produzido, por isso, ela exporta uma parte (petróleo bruto), precisando comprar derivados refinados a fim de atender o mercado (que faz o combustível ser mais caro, pois é importado).
    Vide excelente reportagem abaixo:
    https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2019/05/06/seis-perguntas-para-entender-por-que-a-gasolina-e-o-diesel-custam-o-que-custam-no-brasil.htm?cmpid=copiaecola

  3. Uau demorou hein para chegar a esta conclusão caro CN, porque é que quem pode compra caminhonetes e SUVs à diesel? Pensando no meio-ambiente é que não é. Só não tenho um carro à diesel porque o preço é muito alto, só por causa disto.

  4. CN,
    não é subsídio.
    O que acontece é a paridade com os preços internacionais, tanto da gasolina, quanto do diesel GLP e demais derivados.
    Acontece que o processo para a obtenção do diesel é mais simples e menos oneroso do que para obter a gasolina, portanto os custos são mais baixos, no caso do diesel.
    E com a paridade com os preços internacionais, é claro que o valor de realização do diesel é maior.

    O que está errado? Para mim é essa paridade com os preços internacionais, não importando o valor do barril do petróleo extraído aqui no Brasil.

    Para a produção de asfalto, por exemplo, o petróleo nacional não serve, por isso algum petróleo tem que ser importado.

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