No debate de sexta-feira, Dona Dilma devia ir de faixa, colocada “no ar”, diretamente pelo presidente Lula. Serra aplaudindo e o povo chorando e perguntando: “Temos que suportar a farsa?”

Helio Fernandes

É bem verdade que nenhum dos 10 “debates” apresentou audiência. A maioria porque as estações não têm mesmo público. E os que seguem invariavelmente a Globo, vão dormir, (esses espetáculos circenses são exibidos muito tarde) ou aproveitam para fazerem alguma coisa.

O da Record, anteontem, foi talvez o mais violento, inócuo, inútil, agressivo, dava a impressão de que se agrediriam fisicamente, o que não seria possível. Foram cautelosamente colocados bem distantes, e com segurança mais do que razoável.

Também estavam alertados para o fato: agressão não dá voto. O povo (135 milhões de eleitores obrigados) repudiou tanto Serra quanto Dilma (e principalmente Lula, o principal baluarte da candidata-poste), foram farta e vastamente repudiados no episódio da bolinha de papel. (Como eu disse, QUICOU na cabeça do Serra, REPICOU em Dona Dilma, obrigou Lula a mostrar toda a ARROGÂNCIA vazia). E mesmo os jornalões (e as revistas) engajados, não tiveram coragem de defender seu candidato.

A Record, que sonhava com audiência acima dos seus índices melhores, Nossa Senhora, teve um público de Rede TV, ridículo. (E a Rede TV, organizou o antepenúltimo debate, sua audiência não caiu, pela razão muito simples de que não tem nenhuma).

Não podendo se agredir fisicamente, Serra e Dilma se hostilizaram verbalmente. E fizeram o que têm feito desde o início: MENTIRAM, MENTIRAM, MENTIRAM. Nisso são insubstituíveis, ninguém pode contestá-los, e os dois abusaram tanto da inverdade que não havia retificação, o público às gargalhadas. Pelo menos isso, momentos de bom humor, o que por si só, não justificava as palhaçadas.

Devia haver um desmistificador eletrônico e automático, que a cada mentiralhada, registrasse: “Não vale, tudo que foi dito não será levado em consideração”. Seria a única forma de dar algum sentido a esses “debates” perda de tempo.

Na Record, com o programa visto prática e unicamente pelos profissionais (da televisão, que trabalhavam, igualmente para os jornalistas que cobriam a tolice), dois comportamentos diferentes para cada candidato.

Dilma, sabendo que já ganhou, que não confirmou no primeiro turno, por causa do que Lula chamou de “salto alto”, (sem perceber que ele usava o mesmo tipo de “engrenagem”) provocou o “adversário”, para que se perdesse na agressividade, obteve o resultado pretendido.

Serra, provocado e desesperado, se exaltou, exagerou, aumentou o tom, sabe que não tem uma possibilidade em 1 milhão de sair vitorioso. (Há 8 anos venho dizendo que Serra jamais será presidente, ele sabe disso. Mas não desiste).

Neste final de campanha, já derrotado, Serra só tem um objetivo: perder por pouco, manter 43 por cento do primeiro turno, poder confirmar ou blasfemar: “Viram? Meu eleitorado é fiel, se manteve sem se afastar de mim”.

Com isso, Serra estaria se preparando para a terceira caminhada presidencial em 2014. Nada de imaginação do repórter, apenas conhecimento dos fatos, da ambições. E dos personagens.

Serra pretende disputar depois de duas derrotas, exatamente como Lula, só que este perdeu três seguidas e ganhou outras duas, fato único no mundo ocidental. Serra está preparado para os que duvidarem da possibilidade de obter a legenda do PSDB, que (ao contrário do PMDB) deseja ocupar o Poder.

Ele já avaliou, considerou e analisou: o PSDB só terá dois possíveis candidatos em 2014, Aécio Neves e Geraldo Alckmin. Em relação ao ex-governador de Minas, está preparado para desclassificá-lo: “Afinal ele não tem tanta força. Me apoiou, o que não fez no primeiro turno, perdi do mesmo jeito”.

Quanto a Alckmin, que segue subservientemente tudo o que Serra determina, será seduzido com a proposta: “Se eu perder ou ganhar em 2014, você será candidato favorito em 2018, tem idade para esperar, como governador de São Paulo pela quinta vez”.

A propósito de idade: Serra, em 2014, estará com 72 anos. Lembra que Rodrigues Alves foi presidente em 1918, com 70 anos, quando a longevidade não tinha a força que tem hoje. E Tancredo foi candidato em 1985, com 75 anos, já se passaram portanto 25 anos, agora, 29 em 2014. Bem diferente, segundo o próprio Serra.

Serra pretende GANHAR o “debate” da Globo, embora saiba que NÃO GANHARÁ de forma alguma a eleição. Seu único propósito é diminuir a diferença da vitória de Dona Dilma. Isso pode mesmo acontecer, é impossível garantir a margem da vantagem de Dilma sobre Serra.

Eu mesmo, que jamais tive dúvida sobre a vitória dela, (sempre ressaltando a infelicidade do país estar restrito a “escolher” entre duas mediocridades-incompetentes) não tenho a menor idéia da diferença.

E o grande objetivo de Serra é poder exibir uma derrota, com apenas 2 ou 3 por cento a menos. Vai apregoar que foi vitória, teve que enfrentar não Dona Dilma, e sim toda a máquina do Poder, utilizada pelo próprio maquinista.

***

PS – A favor de uma próxima e não impossível terceira candidatura, Serra manejará fatos que não podem ser desmentidos. A começar pela incapacidade dela, nisso ele é mestre, mede pela própria inoperância.

PS2 – A divergência Dilma-Lula-PT, começará no dia 2 de novembro, quando anunciarem alguns nomes dos ministros. Serão indicações de Dilma, de Lula, do PT?

PS3 – E os aliados poderosos, como o PMDB? É evidente que não se julgam recompensados com a vice para o acusadíssimo Michel Temer. E não querem o Poder e sim as partes mais suculentas do Poder.

PS4 – Logo, logo explodirão as disputas pela presidência da Câmara e do Senado. E o grupo de lobistas do PMDB quer Henrique Eduardo Alves no cargo. Dizem que a ex-mulher ficará em silêncio, já foi estrondosa há alguns anos.

PS5 – Só que os lobistas do Senado também querem a presidência, mas desta vez será difícil ficar com os dois cargos. Embora os lobistas do PMDB tenham tradição de não romperem, de se “acomodarem”.

PS6 – De qualquer maneira, o último “debate”, sexta-feira, terá algum interesse. (Embora não passe de 20 por cento da audiência habitual). Se pudesse, já vitoriosa, Dona Dilma não iria. Serra, ávido por perder por menos, será muito mais agressivo, não usará bolinha de papel.

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