No desespero da noite, o poeta percebe que somente as estrelas conseguem entendê-lo

Paulo Peres
Poemas & Canções
O jornalista, professor e poeta mineiro Emílio Guimarães Moura (1902-1971), no poema “Como a Noite Descesse”, revela sentir-se só, apavorado diante dos horizontes, onde apenas as estrelas poderiam lhe entender.

COMO A NOITE DESCESSE
Emílio Moura

Como a noite descesse e eu me sentisse só,
só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora!
e vi logo que só as estrelas é que me entenderiam.
Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
– É por aqui! Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
– Renasceste: liberta-te!
Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
– Ó doce e incorruptível Aurora…
se só as estrelas é que me entenderiam?

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