No fundo de tudo, do próprio universo, surgem os versos de Antonio Cícero

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Antonio Cicero é membro da Academia Brasileira de Letras

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O filósofo, escritor, compositor e poeta carioca Antonio Cícero Correa de Lima escreve poesia desde jovem, mas seus poemas só apareceram para o grande público quando sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima, passou a musicá-los. Antes, porém, já eram suas canções como FullgásPara Começar e À Francesa – as duas primeiras em parceria com a irmã, e a última com Cláudio Zoli. No poema “Dilema”, Cícero reconhece um dilema existencial, que o confunde bastante.

DILEMA

Antonio Cícero


O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.

5 thoughts on “No fundo de tudo, do próprio universo, surgem os versos de Antonio Cícero

  1. GUARDAR
    Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

    Em cofre não se guarda coisa alguma.

    Em cofre perde-se a coisa à vista.

    Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

    admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

    Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

    ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

    isto é, estar por ela ou ser por ela.

    Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

    Do que um pássaro sem voos.

    Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

    por isso se declara e declama um poema:

    Para guardá-lo:

    Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

    Guarde o que quer que guarda um poema:

    Por isso o lance do poema:

    Por guarda-se o que se quer guardar.

    Antônio Cícero

  2. Belo poema. Antonio Cícero em Dilema ele fica em torno de problemas existenciais:

    O que muito me confunde
    é que no fundo de mim estou eu
    e no fundo de mim estou eu.
    No fundo
    sei que não sou sem fim
    e sou feito de um mundo imenso
    imerso num universo
    que não é feito de mim.

  3. A Cidade e os Livros
    para D. Vanna Piraccini

    O Rio parecia inesgotável
    àquele adolescente que era eu.
    Sozinho entrar no ônibus Castelo,
    saltar no fim da linha, andar sem medo
    no centro da cidade proibida,
    em meio à multidão que nem notava
    que eu não lhe pertencia — e de repente,
    anônimo entre anônimos, notar
    eufórico que sim, que pertencia
    a ela, e ela a mim —, entrar em becos,
    travessas, avenidas, galerias,
    cinemas, livrarias: Leonardo
    da Vinci Larga Rex Central Colombo
    Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
    Alfândega Cruzeiro Carioca
    Marrocos Passos Civilização
    Cavé Saara São José Rosário
    Passeio Público Ouvidor Padrão
    Vitória Lavradio Cinelândia:
    lugares que antes eu nem conhecia
    abriam-se em esquinas infinitas
    de ruas doravante prolongáveis
    por todas as cidades que existiam.
    Eu só sentira algo semelhante
    ao perceber que os livros dos adultos
    também me interessavam: que em princípio
    haviam sido escritos para mim
    os livros todos. Hoje é diferente,
    pois todas as cidades encolheram,
    são previsíveis, dão claustrofobia
    e até dariam tédio, se não fossem
    os livros infinitos que contêm.

  4. Como muitos outros ditos poetas, apenas um narcisista sem o senso de ridículo. Pra eles tudo se resume no Eu, Mim, no fundo de mim, e sou feito de um mundo imenso que não é feito de mim…
    Eu hein. O homem que não é pequeno fala dos outros, da vida, do universo. O mim não cabe em mentes grandes.

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