No fundo, não querem a reforma

Carlos Chagas
                                                     
Embolou o meio campo. A Câmara dos Deputados instalou ontem sua comissão especial para propor a reforma política. Ótimo. Só que o Senado, duas semanas atrás, havia instalado  a dele. Serão duas comissões redundantes, cada uma disposta a fazer aprovar no respectivo  plenário as propostas afinal aceitas por suas maiorias. Depois, será o troca-troca: o projeto do Senado irá para a Câmara e o projeto da Câmara, para o Senado.
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O resultado óbvio parece  que os deputados modificarão as propostas dos senadores e estes farão o mesmo com o texto daqueles. Como ficamos? No mesmo impasse de sempre, ou seja, condena-se ao fracasso mais essa tentativa de reforma política.�
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Acresce que cada casa é ciosa de seus interesses. Na Câmara, reclama-se que o Senado pretende  criar o distritão e  o voto para deputado em listas partidárias, temas que não  seriam da competência dos senadores. Já os deputados, como circula nos corredores do Congresso, dariam o troco acabando com a figura dos suplentes de senador. Ninguém sem voto teria a prerrogativa de ocupar uma cadeira no Senado, temporária ou definitivamente, obrigando-se a justiça eleitoral a realizar novas eleições no caso de abertura de vaga, mas ficando as  bancadas sem substituto para o  senador que se  licenciar.
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Não vai dar certo essa dualidade de comissões, início do impasse anunciado. Deveriam os dois presidentes, José Sarney e Marco Maia, ter discutido a formação de uma comissão mista, capaz de dirimir uma série de dúvidas nas preliminares, de forma a que surgisse um só projeto. Observadores mais maliciosos concluem ser precisamente o impasse o objetivo da maioria da classe política. Deixar as coisas como estão, sem reforma alguma, situação que mais atende os desejos do conjunto. Ou Suas Excelências  não se tem elegido sem a reforma?

CORTARAM MESMO
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A presidente Dilma Rousseff puxou as orelhas de Guido Mantega, da Fazenda, e de Miriam  Belchior, do Planejamento, porque logo no começo do governo anunciaram a possibilidade de cortes  referentes às obras do PAC. Agora que a contenção de gastos começou a ser divulgada, sabe-se que o programa habitacional “Minha Casa, Minhas Vida”, perderá 5,1 bilhões, dos 12,7 bilhões previstos para este ano. De duas, uma: ou o programa não integra o PAC ou a equipe econômica conseguiu dobrar as determinações da presidente. Saem perdendo os sem-teto.
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A falta de informações precisas levava deputados e senadores, ontem, a aguardar a divulgação dos cortes de suas emendas individuais ao orçamento mais ou menos como se aguarda o resultado da mega-sena. Uma emenda, em mil, poderá ter sido poupada, mas a esperança permanecerá até depois do Carnaval.

DEFESA FURADA

O ministério da Defesa perde 4,38 bilhões, recursos antes previstos para a aquisição de aviões de caça e submarinos. O corte coincide com a crise no Oriente Médio e no Norte da África, regiões produtoras de petróleo. Não é de graça que o preço do barril já passa dos 110 dólares. A lógica indica que os países consumidores,  em especial os Estados Unidos, irão voltar-se para outras fontes, a maior das quais está no pré-sal ao longo do litoral brasileiro.

Defender essa riqueza é essencial para nossa economia, mas com  recursos reduzidos, nossas forças armadas ficarão devendo. É claro que com 36 caças e quatro submarinos a mais, não seremos páreo para a IV Frota da Marinha de Guerra americana, do Atlântico Sul,  na improvável hipótese de um confronto. Só um dos  porta-aviões dos Estados Unidos abriga 98 caças de última geração, e aquele país possui dezenove porta-aviões, todos defendidos por submarinos, no caso, nucleares. Seria bom prestar atenção.     �

 FANTASIAS (2)

Iniciamos ontem especulações a respeito das fantasias que os políticos poderiam usar no Carnaval. No ministério,  faltou referir alguns. Guido Mantega, da Fazenda,  desfilará de “Tesoura Voadora”, capaz até  de deixar o bloco e avançar nas arquibancadas, ameaçando os foliões com  cortes de toda espécie.
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Gilberto Carvalho, Secretário Geral da Presidência, apareceria de “Lula, Primeiro e Único”, demonstrando suas funções de  fiscal do ex-presidente no governo atual.  Para José Eduardo Cardoso, da Justiça,  nada melhor do que uma toga de ministro do Supremo Tribunal Federal, e para Antônio Palocci, chefe da Casa Civil, a máscara de José Dirceu.
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Miriam Belchior, do Planejamento, entraria no sambódromo como “Mulher Invisível”, ninguém poderia vê-la, muito menos a presidente Dilma, que por sinal, com todo o respeito, caso decidida a desfilar, entraria  como  “Mulher Maravilha”.
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O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, vestiria um camisolão com os dizeres “Se Eu Soubesse, não Viria”, ao tempo em que Edison Lobão se fantasiaria de “Chapeuzinho Vermelho”. Paulo Bernardo, das Comunicações, experimentaria  “Saudades do Planejamento”. Amanhã será a vez do bloco do Congresso, denominado de “Me Engana Que Eu Gosto”.

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