No limite da obediência, militares temem receber uma ordem tresloucada de Bolsonaro

Charge do Miguel Paiva (DCM)

William Waack
Estadão

Depois do espetáculo deprimente do “desfile” militar de terça-feira ganhou corpo nos altos escalões das Forças Armadas a discussão sobre os limites de obediência ao Napoleão que transformou o Planalto num hospício.

Alguns oficiais participantes desse debate (em reuniões formais e, principalmente, por grupos fechados em redes sociais) lembram o princípio consolidado na “Führungsakademie” do Exército alemão, que equivale à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército brasileiro.

CONDUTA MORAL – É o princípio da “Innere Führung” – traduzido livremente como “conduta moral” – desenvolvido como premissa do rearmamento da então Alemanha Ocidental nos anos 50 e da educação de todos seus líderes militares.

Esse princípio estabelece que o militar é tão somente um “cidadão em uniforme”, e que deve se orientar por valores éticos e morais pertinentes a um estado democrático e de direito, e não pela obediência cega a ordens superiores (que não deixa de ser elemento essencial no funcionamento operacional de forças armadas).

Admite-se nesses círculos que o “desfile” foi uma desmoralização para as Forças Armadas e que Bolsonaro é “inassessorável” – eufemismo para “incontrolável”.

ORDEM TRESLOUCADA – Na cabeça desses oficiais superiores uma ordem tresloucada dele deixou de ser uma possibilidade e passou a ser uma probabilidade. Com tendência crescente, à medida que o isolamento político e as consequentes derrotas do presidente se acumulam e a crença mística que Bolsonaro possui de si mesmo o faz pensar que está ganhando força quando o que ocorre no mundo real da política é o contrário.

No melhor dos cenários sobre os quais se conversa amplamente nos círculos de militares superiores da ativa, Bolsonaro desiste das eleições e, consequentemente, a candidatura Lula se desidrata, mas essa possibilidade é tida como utópica.

Na pior simulação, segundo um participante desse debate, ele vai desrespeitar alguma ordem do STF, convocará seus seguidores para algum tipo de “resistência” nas ruas, haverá conflitos, correrá sangue e então as Forças Armadas serão chamadas para algum tipo da detestada (pelos militares) operação de Garantia da Lei e da Ordem.

AFASTAMENTO LEGAL – Nessas mesmas conversas é reiterado que qualquer tipo de afastamento de Bolsonaro da Presidência teria de ser exclusivamente pelas vias legais – ou seja, assim como se refuta a possibilidade de golpe, recusa-se a ideia de um “ultimato” de oficiais superiores descontentes (e o número é crescente) ao presidente e seu comportamento desequilibrado.

Ocorre que as vias legais parecem hoje pouco factíveis, como a do impeachment. Ou de longa duração e legitimidade contestável do ponto de vista político, que é o caminho da inelegibilidade via TSE.

Resta enfrentar a desmoralização das instituições incessantemente perseguidas por Bolsonaro num ambiente político polarizado, deteriorado e próximo do que os militares chamam de “bomba social”, que é o desemprego, a miséria e a inflação intoleráveis para os mais pobres. Sem que se identifique neste governo qualquer projeto ou plano de ação para realmente fazer o País crescer além de dar dinheiro para ganhar eleições, fuzila um importante oficial superior.

UM BRASIL TOSCO – Os raciocínios de militares de altas patentes espelham milimetricamente o que passaram a manifestar figuras expressivas de segmentos do mundo empresarial e financeiro, para os quais Bolsonaro não é apenas ruim para os negócios. Tornou-se a expressão de olhos revirados e vociferante do Brasil tosco, bruto, retrógrado – um motivo de constrangimento e vergonha internacional, e um acinte aos princípios e valores de uma sociedade aberta e próspera. E que se empenha em bloquear, em vez de facilitar, qualquer caminho de conciliação política, debate racional e empenho em tratar dos temas realmente relevantes.

Porém, da mesma maneira que as divididas elites econômicas e políticas, também as elites militares estão divididas e sem um claro curso de ação. Sofrem, como as outras, de falta de lideranças.

8 thoughts on “No limite da obediência, militares temem receber uma ordem tresloucada de Bolsonaro

  1. … militares temem receber uma ordem tresloucada de Bolsonaro.

    Não, isso é brincadeira. Se eles receberem uma ordem tresloucada e obedecerem serão responsabilizados perante a lei! Nuremberg teve muitos exemplos de militares que se curvaram e foram pendurados.

  2. Chega ao fim mais uma falsa noticia dos tucanalhas de plantão…
    Vai enfiar a viola no saco e sumir da mídia por alguns dias….
    Depois volta com a carga toda para a Reeleição
    Afinal, quem não gosta de se “perpetuar” em cargos e nas TEtas Públicas…

    Caso Joice Hasselmann: Polícia Civil possui tendência na definição do inquérito

    https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2021-08-13/caso-joice-hasselmann–policia-civil-movimentacao-final-inquerito.html

  3. Mesmo tendo convivido com muitos oficiais do exército dentro e fora do quartel e até me relacionado com emblemáticos generais da época, início dos setenta, não consigo habilitar-me a arriscar um palpite sobre a incógnita militar atual, o mundo mudou e os oficiais militares, parece que mais ainda, pois não consigo imaginar um Rodrigo Otávio Jordão, ou um António Bandeira, ou um Breno Fortes, ou Viana Moog, dizendo: Um manda e outro obedece.
    Mas mesmo com a politização e fisiologismo hoje dominante na cúpula militar, não acredito que o Bolsovirus os tenha atingido até o ponto de de ignorar ou esquecer a qualidade moral do ora líder, pois nesse caso, nada mais fácil de recordar, é só acessar o Noticiário do Exército ” A Verdade: Um Símbolo da Honra Militar” de 25/02/88.
    Para os acólitos que queiram homenagear seu ídolo, posso passar o link para acessar o fac-símile, se assim o desejarem.

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