No meio da confusão político-institucional, a terceira via pode encontrar seu caminho

O eleitor está mais consciente? | Gazeta do Cerrado

Charge do Pelicano (Gazeta do Cerrado)

Merval Pereira
O Globo

O general Mourão, vice-presidente, fez uma análise correta sobre a adesão de Jair Bolsonaro ao centrão, avaliando que o eleitor dele pode ficar confuso com o episódio. Acontece que Bolsonaro não tem outra escolha, a não ser se entregar ao centrão. E a partir daí, corre o risco de perder parte do eleitorado.

Ele joga com o risco de que o candidato adversário será Lula, que não será o escolhido pelo eleitor arrependido ou decepcionado, e nesse ponto ele tem razão.

TERCEIRA VIA – Vejo aí um caminho aberto para a terceira via, um candidato que que não seja do centrão, nem um governante que desista de combater a corrupção por causa da família.

Bolsonaro corre sério risco de perder apoio na sua base. Pode ganhar no Legislativo, mas não ganha no popular. É verdade que os políticos do centrão são muito profissionais, sabem espalhar prefeitos pelo país, fazem uma política eficiente de clientelismo e Bolsonaro vai aderir, aumentando a abrangência do Bolsa Família, por exemplo.

Lula também perdeu muitos eleitores no meio do caminho, aqueles que não gostaram da corrupção nos governos petistas e na radicalização depois do Lulinha paz e amor. Perdeu eleitores nas grandes capitais e se reinventou no Nordeste.

MESMA MANOBRA – Bolsonaro faz a mesma manobra. Abre mão de um público, para ganhar outro, no centrão. Mas a fidelidade do eleitor ao Bolsonaro é muito menor do que a que Lula angaria, e as pesquisas estão mostrando isso.

Temos que ver como o eleitorado irá se comportar diante das outras opções. Até agora nenhuma agradou, mas diante da realidade, pode ser que algum deles se transforme numa saída de emergência para esse eleitorado que está decepcionado com Bolsonaro e não quer votar em Lula.

3 thoughts on “No meio da confusão político-institucional, a terceira via pode encontrar seu caminho

  1. NEM LULA, NEM BOLSONARO, NEM CENTRÃO

    Se eu critico Bolsonaro, sou acusado de ser petista, esquerdista, comunista, defensor de corrupto. Se eu critico Lula e o PT, sou tachado de bolsonarista, direitista, antipetista, conservador, retrógrado. Se eu me oponho a ambos ao mesmo tempo, sou rotulado de isentão, alienado, tucano ou jogado no balaio do velho Centrão – e ainda me mandam sair de cima do muro. Mas, e se eu não me identifico com nenhuma dessas três vias tradicionais, como faz?

    Pior que a polarização habitual, uma divisão pura e simples da política em bolhas ideológicas de direita e de esquerda, é a polarização burra e idiotizada que toma conta do Brasil (e das redes sociais). Nos dois extremos há intolerância, ignorância, ódio, preconceito e aversão à democracia. Mas o centro também não está isento de todos esses defeitos, somados ao oportunismo, ao fisiologismo e à hipocrisia típica desses políticos e partidos que vivem leiloando apoio ao governo da ocasião.

    Defender uma solução política fora dos extremos, uma saída equidistante da confrontação entre direita e esquerda, alheia às torcidas pró-Lula ou pró-Bolsonaro, com mais diálogo, racionalidade, responsabilidade, convergência e total respeito ao estado democrático de direito, não me iguala à massa amorfa e fisiológica do Centrão. (Por favor, me inclua fora dessa!)

    Afinal, o que me afasta de partidos como o PSL ou a Aliança pelo Brasil, de um lado, e do PT, do PSOL ou do PCdoB, no lado oposto, também não me aproxima de PP, DEM, PSD, Solidariedade, PTB, PL e outras tantas legendas que transitam pelo poder desde a chegada do Cabral (do navegador, Pedro Álvares, ao Sérgio, ex-governador condenado e preso).

    Até porque essa balança político-ideológica no Brasil (e no mundo) pende para os dois lados, alternando de tempos em tempos. Os movimentos entre liberais e conservadores, entre progressistas e reacionários, são cíclicos. O eleitorado é volúvel. A maioria é relativa, eventual, pontual, passageira.

    Não parece à toa que assistimos a constante inversão de papéis entre governo e oposição. Basta notar como aqui no Brasil já predominaram forças distintas, todas com amplo apoio popular: da ditadura militar ao movimento das diretas; de Sarney a Collor; de FHC a Lula; de Dilma a Bolsonaro. Todos já surfaram na onda da popularidade, viveram seu auge e o declínio. Até chegar a vez do próximo. A fila anda.

    Bolsonaro é a bola da vez. Que o fim vai chegar, é inevitável (graças a Deus!). O que não sabemos é quanto vai durar esse ciclo retrógrado (e o tamanho do estrago). Que resultados terá o bolsonarismo nas eleições de 2022? Em qual situação chegará Bolsonaro para a reeleição em 2022 (se chegar)? Quem será seu principal oponente à esquerda? E como vai se recompor o tal centro democrático?

    A vantagem do surgimento dessa aliança com o Centrão pelo Brasil, aberração populista, fundamentalista e autoritária desses nossos tristes tempos, é o filtro natural que instala na política ao reunir sob esse pool de partidos fisiológicos e corruptos grande parte dos lunáticos e inimigos da democracia. Isso é bom: o carimbo na testa, que não deixa dúvidas.

    Do lado inverso está a tentativa insana de manter o monopólio da esquerda em torno de Lula, avesso à autocrítica e incapaz de reconhecer todos os erros que levaram à ojeriza ao PT e consequentemente à eleição de um inepto, irresponsável, desqualificado e boçal direitista, o meme que virou presidente. Resultado: estão preservados os dois polos que apostam na repetição do “nós x eles”.

    O bolsonarismo e o lulismo são fenômenos que se retroalimentam. A relação é simbiótica, interdependente. Um mito só sobrevive se o outro for o seu antagonista. Daí que essa polarização burra e idiotizada une para sempre Lula e Bolsonaro, bem como arrasta e mantém seus exércitos e milícias de fanáticos e lunáticos nas redes, nas ruas e nas urnas.

    Qualquer tentativa de quebra dessa polarização será atacada igualmente por lulistas e bolsonaristas. Em 2018 funcionou: eles simplesmente aniquilaram qualquer opção de alternativa aos dois extremos. As candidaturas de Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles e João Amoedo foram trucidadas. Outras cogitadas, como as de Joaquim Barbosa, João Doria e Luciano Huck, nem foram adiante.

    Agora o movimento se repete: Doria e Huck, e Simone Tebet principalmente, despontam como possíveis candidatos do centro, que tenta se realinhar. Nomes como Ciro, Marina e Tebet serão sempre lembrados. São as peças colocadas hoje no tabuleiro eleitoral. Isso dá jogo? Qual o seu lado?

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