No mundo encantado de Moro, falta contar por que Bolsonaro quis interferir na PF

Livro de Moro sai no mesmo dia de filiação de Bolsonaro ao PL

Sérgio Moro usa o livro para fortalecer sua campanha

Elio Gaspari
Folha/O Globo

Jair Bolsonaro conseguiu mais um feito inédito. Em três anos de governo, dois de seus ministros puseram na rua livros denunciando sua conduta. Primeiro veio Luiz Henrique Mandetta com seu “Um Paciente Chamado Brasil”. Nele, o ex-ministro da Saúde denunciou o negativismo obsessivo do presidente diante de uma epidemia que já matou mais de 600 mil brasileiros. Em seguida, veio Moro, a maior estrela de seu ministério nos dias da posse, mostrando que o compromisso de Bolsonaro com o combate à corrupção era parolagem. A favor, nenhum. Só os delírios românticos de Paulo Guedes.

Em ritmo de campanha, o ex-juiz e ex-ministro não conta tudo em seu livro recém-lançado, mas solta insinuações e fala muito bem de si ao relembrar passagens com Bolsonaro

LIVRO DE CAMPANHA – Sergio Moro está em campanha e tomou uma rara iniciativa: publicou um livro escrito por ele, explicando-se e apresentando-se. O epílogo diz tudo. Seu título é “Precisamos de você” e a última frase é um pedido de ajuda: “A luta contra o sistema de corrupção nunca poderá prescindir de bons combatentes, entre eles você.”

Moro fala muito bem de si. Saem mal de seu livro o Supremo (quando o declara parcial), o Congresso (quando altera suas propostas) e Jair Bolsonaro (quando fritou-o). A Sergio Moro ele concede um mecanismo que condena, a “presunção de inocência à brasileira”: Ela “é apenas uma construção interpretativa que visa garantir a impunidade de crimes cometidos pela classe dirigente”. Todo mundo é culpado de tudo, menos Sergio Moro.

Ele justifica suas sentenças e defende com argumentos que parecem insuficientes o fato de ter patrocinado a exposição da interceptação telefônica de uma conversa de Lula com a então presidente Dilma Rousseff quando o prazo legal da escuta já tinha caducado. Não foi ele quem autorizou a publicidade. Vá lá, mas quem foi?

VÍTIMA DAS VIRTUDES – O juiz que simbolizou a Lava-Jato com seus méritos históricos, conclui que a operação “foi vítima de suas virtudes, e não de seus erros”. Moro trata do episódio que pode ter sido o maior erro do campeão da Lava-Jato: sua ida para o Ministério de Jair Bolsonaro.

Referindo-se à retórica de Bolsonaro durante a campanha de 2018, quando era um magistrado, ele diz: “Não imaginei, nem por um minuto, que aquelas declarações, muitas delas completamente absurdas, reverberassem em políticas públicas concretas. Havia uma distância entre discurso e gesto que me dava algum conforto.”

Tudo bem, mas como Bolsonaro não mudou, o juiz que aceitou, entre o primeiro e o segundo turno, o gesto do convite para o Ministério, acreditava que o capitão estava enganando a plateia. O tempo mostrou que o juiz enganou-se achando que enganava-se o eleitorado.

RACHADINHAS – Relembrando o aparecimento do rolo das rachadinhas, na primeira semana de dezembro de 2018, Moro diz:

“Àquela altura eu já havia deixado a magistratura e estava na equipe de transição do governo. Não havia como voltar atrás.” Haver, havia, ficou porque quis.

Moro menciona em seu livro mais filmes e séries de TV (oito) do que marcos da jurisprudência. Em nenhum deles o herói se deixou fritar. Tendo entrado no governo de um presidente que dizia absurdos durante a campanha, perdeu a confiança nele quando começaram a trabalhar juntos.

DIZ MORO – “Eu não poderia confiar nele”, ou “não havia como confiar mais no presidente”. Moro registra que Bolsonaro também mostrava não confiar no seu ministro da Justiça. Essa desconfiança seria maligna, enquanto a de Moro em Bolsonaro, benigna. Jogo jogado, afinal, o livro é dele.

Lê-lo pode ser um pouco agreste, mas ajudará a acompanhá-lo na campanha do ano que vem. Ele não conta tudo, mas solta insinuações e avisa: “Quem sabe algum dia eu escreva um relato mais abrangente e detalhado, abordando fatos sobre os quais fica muito difícil me posicionar no momento.”

Tomara que isso aconteça logo. Falta contar com fatos por que Bolsonaro queria interferir na Polícia Federal.

8 thoughts on “No mundo encantado de Moro, falta contar por que Bolsonaro quis interferir na PF

  1. Moro esquece que o eleito foi o presidente, não o ministro e por isso as políticas a serem seguidas são as do presidente e não do ministro.

    Bolsonaro também tem em seu poder os dados e audios da vaza jato, só pra lembrar. Informações que nem Moro ou Dallagnhol jamais negaram.

  2. Se o importante jornalista Élio Gaspari quiser saber o por quê do Bolsonaro querer interferir na PF, basta assistir o tape da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020. Vai ouvir pela boca do próprio presidente, porque queria interferir na polícia Federal.
    Quanto ao motivo da desconfiança entre o ex-ministro Moro e do Presidente, um era a favor da punição, o outro a favor da impunidade, Basta ver a lei anticrime do Moro que foi transformada no Congresso em lei pró crime, sancionada pelo Bolsonaro

  3. PSDB sempre teve apoio do Moro. Pessoas de bem são enganadas sobre o candidato da Globo.

    FATOS sobre Moro:

    É conhecido como o protetor do caixa 2.

    Protegeu Temer quando era juiz (caso das 21 perguntas).

    Protegeu a esposa do Eduardo Cunha. Atrapalhou a investigação de FHC/PSDB (conversa nunca desmentida).

    Livrou acusados de corrupção no caso Banestado.

    Postergou a investigação do acusado governador Beto Richa/PSDB, supostamente para se dedicar a suas palestras (carreira política).

    Condenou agricultores pobres de cometerem crime em sentença que os juízes/desembargadores da segunda instância da justiça anularam.

    Resumindo, tudo leva a crer que este Moro só fazia prisões que lhe traziam benefícios pessoais. Moro é com todas as letras corrupto. Na mesma linha, Deltan Dallagnol não quis investigar tucanos do PSDB. Calhordas .
    Incrível a milionária cobertura midiática promovendo PSDB e Moro, um escândalo de doação de campanha eleitoral ilegal antecipada privada empresarial, de propaganda eleitoral com caixa 2 disfarçado, tudo para manter um anti-povo Paulo Guedes Pastore na economia. Precisamos de nacionalistas na política econômica.

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