No Natal de Manuel Bandeira, surge a criança que resiste em cada um de nós

TRIBUNA DA INTERNET | Manuel Bandeira e a sensação de ser sempre menino na véspera de NatalPaulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), conhecido como Manuel Bandeira, no poema “Versos de Natal”, evoca a passagem do tempo numa dimensão metafísica, em que o adulto ainda permanece menino.

VERSOS DE NATAL
Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta

3 thoughts on “No Natal de Manuel Bandeira, surge a criança que resiste em cada um de nós

  1. Como este conto se passou no campo, para abordá-lo, vou pedir data maxima concessa a José Lins do Rego, e tomar-lhe por empréstimo o personagem, Carlinhos, do seu livro Menino de Engenho, para disfarçar a identidade do protagonista deste causo:
    – Carlinhos nasceu de uma família campesina, aquinhoada. Teve uma infância um tanto quanto atormentada e conflitiva. O cio aflorou muito precocemente em si. As primeiras sugestões lascivas vieram do seu irmão mais velho, Reco, o qual insinuava: “Carlinhos, faz assim: pega um sabonete molhado, passa na mão e começa a sugigar tua juruta com movimentos rápidos. Decorridos uns cinco minutos, tu sentirás uma comichão tão gostosa, e logo sairá uma geleia da tua piroca!” Carlinhos seguia à risca as instruções do mano, porém, ao final do tempo previsto, nada acontecia. É que Reco não sabia: Carlinhos sequer havia entrado na puberdade, ou seja, ainda não estava pronto para gozar. E Reco insistia: ” Então, besta, vai naquela barreira de argila, fura um buraquinho com o dedo e mete teu prego!” Aquilo era irmão ou a serpente tentando Adão no paraíso? É, mas o Freud ensinava que, nas formas arredondadas, estão as zonas erógenas ou os pontos de excitação. À medida que crescia, Carlinhos só respirava motivos eróticos, embora veladamente:
    Uma vez e outra pilhava paninhos ensanguentados, entocados em lugares secretos: eram trapos de sacos de açúcar usados pelas tias do garoto, durante as semanas de incômodo delas. Ficava curioso! Quando uma das tias se casava, Carlinhos e primos eram mantidos a distância pela avó, a fim de que não ouvissem quaisquer fungados oriundos do casal em lua-de-mel. Tudo era tratado à boca pequena. Se uma mulher paria, e um dos meninos quisesse saber “por onde saiu o nenê”, algum adulto respondia prontamente: pelo umbigo! Na hora de brincar de casinha, a vovó era quem escalava os times: netinhos para uma banda e netinhas para outra. Frequentemente Carlinhos flagrava os idosos da casa em seus colóquios censurados: “A esposa de fulano morreu daquela doença braba (câncer). Outro perguntava: onde o sofrimento apareceu nela? Uma mulher explicava: “Deu aqui pelas partes (vagina) dela, Deus salve este lugar!”. “Seu beltrano também faleceu dessa ferida braba; a marvada roeu a natureza (pênis) dele todinha!”
    Mas o universo é uma escola a céu aberto. Aquilo que os adultos escondiam de Carlinhos e sua turma – galos x galinhas e, sobretudo, cães x cadelas – revelavam de forma abotoada, gratuita e prolongada. Daí os moleques foram evoluindo para o estágio de zoofilia (coito com animais): patas, cachorras, vacas, jumentas etc. Ah, daquelas relações animalescas, Carlinhos lembra de três pitorescas:
    – Primeira: certa ocasião, acompanhado dos primos, Jorge e Rui, cada um portando uma espingarda punheteira, pois, saíram de casa com a desculpa de passarinhar. Rui, o mais jovem e inexperiente, ao avistar a primeira jumenta, correu e atracou-se ao pescoço da jega. Bravia, a jerica abocanhou Rui à altura das costelas; o coitado balançava como um badalo dependurado e clamava por socorro. Enquanto isso, Jorge pedia a Nossa Senhora que o ajudasse a tirar a mão dele de dentro da pança duma porca prenhe. Ao tentar sacar um leitãozinho pelo cachimbo da suína, Jorge que enfiou a mão fechada, lá dentro, ele a abriu como um guarda-chuva, e queria retirá-la com a mesma facilidade com que a penetrou. Fecha a mão e puxa rápido! Gritou Carlinhos.
    – Segunda: foi uma oportunidade em que, junto com Reco, Carlinhos passou a noite “cobrindo” um lote de éguas. Depois de saciarem seus instintos, ambos encheram as mãos de areia grossa e tacaram nas entranhas das bestas, através dos pipius delas. No dia seguinte, todos os animais amanheceram segregando humores (hipômane) pelas vaginas. Tolo, o proprietário festejava: “As éguas estão escorrendo uma salmoura; é sinal de que o padreador está prestes a cruzar com elas”.
    -Terceira: aconteceu quando Carlinhos e outros capetinhas estavam enfileirados para transar com a burra de “Rimuardo Carroceiro” , a mais escoiceadora da récua, talvez por ter o mijador mais cerrado. E não deu outra: naquela noite sinistra, Carlinhos tomou um coice da quadrúpede sobre a rótula do joelho direito. Seu calçado, uma anabela, só foi encontrado no dia posterior, pelo saudoso Chico Dengoso – o guardião dos animais que pernoitavam sob regime de curralagem.
    O apetite de Carlinhos pelo sexo oposto era ascendente, passando para as bípedes da espécie homo sapiens. Disse que ele e seu trio de parentes peraltas descobriram uma viúva que morava apenas com uma linda filha, por quem se apaixonaram. Vendo que a moça não dava a mínima para o quarteto, movidos por um sentimento de desforra, todos foram à choupana da viúva, diante do portão eletrônico (porta de mençaba), abriram o trinco (um laço de embira), daí os quatro baixaram as bermudas, lavaram as rolas em uma vasilha d’água e derramaram dentro do pote onde a mulher e a filha armazenavam água de beber. Saíram sem deixar pistas da invasão.
    Em seguida veio a fase de tocar uma “maria-cinco-dedos” em homenagem à professora, à mulher do vizinho etc. Isto era apenas um passaporte para o ingresso no mundo dos puteiros; as primeiras doenças venéreas, o aguçar do instinto caçador……. Apesar de a via-crucis pela qual peregrinou, ainda assim, Carlinhos considera-se um triunfante, por ser uma exceção dentre os que foram poupados pelos “carrités” dos padres e pastores pedófilos.
     

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