No novo emprego, Dirceu nada fará e ainda poderá continuar fazendo consultoria (ou melhor, tráfico de influência)

Carlos Newton

Os jornais informam que o ex-ministro José Dirceu, condenado a 10 anos e 10 meses como mentor do mensalão, aceitou nova proposta de trabalho – desta vez por um salário de apenas R$ 2,1 mil mensais, ou 10% do salário que apressadamente o Saint Peter Hotel, de Brasília, registrara na carteira de trabalho dele, para criar um fato consumado e forçar a concessão do regime aberto, o que acabou se transformando um escândalo de laranjas com ramificação no Panamá, e que acabou atingindo de tabela o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e sua ilustre família.

Agora, se a Justiça acolher requerimento apresentado à Vara de Execuções do Distrito Federal, o empregador de Dirceu será o escritório José Gerardo Grossi de Advocacia, cujo titular foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e tem o ex-presidente Lula  e o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) entre os clientes.

A oferta de emprego – com horário corrido, das 8 às 18 horas – foi apresentada por escrito pelo próprio Grossi, informando que o ex-ministro “se encarregará da organização e manutenção da biblioteca jurídica, da eventual pesquisa de jurisprudência e de colaboração na parte administrativa”.

RETROCESSO?

Para Dirceu, representa um certo retrocesso, porque no Hotel Saint Peter ele teria mordomia total, poderia receber seus clientes de “consultoria” (expressão que passou a designar o antigo tráfico de influência) e dar seguimento à sua “vida empresarial”, digamos assim.

Mas as aparências enganam. E de qualquer forma, com status de celebridade e instalado num grande escritório de advocacia,   certamente Dirceu será tratado a contento e não terá dificuldades para receber seus clientes, como fazia num hotel em Brasília, antes do julgamento do mensalão, conforme ficou público e notório, e até o então presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, aparecia por lá, nas “audiências” que o ex-ministro concedia.

Mas quem já trabalhou no ramo da advocacia sabe que “organizar e manter uma biblioteca jurídica” significa trabalho zero, porque a biblioteca já existe, está mantida e raramente é ampliada.

Da mesma forma, os outros serviços a serem feitos por Dirceu também inexistem. “Eventual  pesquisa de jurisprudência e de colaboração na parte administrativa” não representam praticamente nada, porque o setor administrativo do escritório já funciona sem Dirceu e a pesquisa de jurisprudência hoje em dia é facílima e rápida, porque está tudo acessível pela internet, e selecionado por assunto. Qualquer estagiário faz.

Traduzindo: o que Dirceu quer é moleza, além de continuar ganhando muito dinheiro, é claro. E o escritório do advogado José Gerardo Grossi ainda se presta a um papel desses… Ah, Brasil!

Depois a gente volta para comentar o inacreditável assédio de parlamentares petistas, que pressionaram o juiz da Vara de Execuções Penais para beneficiar os mensaleiros. O PT parece que perdeu completamente a dignidade. Um partido que nasceu tão cheio de esperanças, ao qual me filiei em 1982, e que tinha tudo para mudar a política brasileira, agora se transforma nesse monte de lixo. É uma pena, não há dúvida.

5 thoughts on “No novo emprego, Dirceu nada fará e ainda poderá continuar fazendo consultoria (ou melhor, tráfico de influência)

  1. O direito de trabalhar deveria ser exercido da seguinte maneira: o juiz da execução ofereceria a oportunidade de trabalho, escolhida por ele, e que se traduzisse em atividade verdadeira e não fictícia.

  2. Vamos ficar calmos, a mata vai acabar. Dirceu preso, foi a primeira parte, agora é desmascarar o “BARBA”. Uma vez os dois acabados, o PT se desmantela, tamanha a incomPTência da cambada.

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