No novo Senado, as mesmas dificuldades

Carlos Chagas

Nem tudo é sucesso, na campanha eleitoral liderada pelo presidente Lula. Dilma Rousseff parece eleita, mas aumentar as bancadas do PT no Congresso, por enquanto, é sonho de noite de verão. Em especial no Senado, motivo das maiores preocupações do primeiro-companheiro.

Conforme pesquisas realizadas nos estados, dos 54 senadores a ser eleitos em outubro, o PT deverá eleger apenas sete: Jorge Viana, no Acre, Delcídio Amaral, em Mato Grosso do Sul, Gleise Hoffman, no Paraná, Humberto Costa, em Pernambuco, Wellington Dias, no Piauí, e Marta Suplicy, em São Paulo.

Permanecerão, do PT, apenas o suplente de Tião Viana, no Acre, e Eduardo Suplicy, em São Paulo. O resultado é que o partido, hoje, tem nove senadores, e continuará com nove, na melhor das hipóteses.
É claro que dos 81 senadores atuais, mais da metade pertencem a partidos que apóiam o governo, ou seja, estão com Lula e Dilma, mas garantir, ninguém garante. Ainda permanecem abertas as cicatrizes da derrota na prorrogação da CPMF.

Dos favoritos na disputa pelas duas novas vagas, também mais da metade respaldam o governo, mas é a velha história de que, nas votações passadas e futuras, cada caso é um caso. A nova presidente da República precisará negociar, porque fechados mesmo com ela, só nove. As negociações, muitas vezes, custam caro.

Será que o comando comanda?

Apressou-se o presidente do PMDB, Michel Temer, em desfazer especulações a respeito do açodamento com que integrantes do partido lançam-se no futuro governo de Dilma Rousseff. Ele telefonou para dirigentes do PT e chefes da campanha da candidata, dizendo não ser essa a postura do comando do PMDB, que não autoriza tal comportamento e que ninguém, em sua direção, avançou o sinal no rumo da composição do ministério, na suposição da vitória de Dilma.

O problema é saber se o comando comanda, porque de alguns anos para cá o PMDB transformou-se num balcão de negócios. Prevalece, nas votações parlamentares, o “toma lá, dá cá” que levou o partido a dispor de seis ministérios no governo Lula e mais um monte de diretorias de empresas estatais.
Michel Temer, na vice-presidência da República, poderá servir de anteparo às pretensões fisiológicas de seus companheiros, mas como a avenida que conduz o PMDB ao palácio do Jaburu tem duas mãos, quem melhor do que o ainda presidente da Câmara para representar o partido na participação no governo?

A História funciona a favor

Virou lugar comum na crônica política imaginar que os vice-presidentes estão sempre de olho na cadeira dos presidentes. Ou, pelo menos, costumam ficar alheios ou até em oposição aos titulares. Não é verdade. Da democratização de 1945 aos nossos dias, faíscas saíram apenas entre Café Filho e Getúlio Vargas, Aureliano Chaves e João Figueiredo e Itamar Franco e Fernando Collor.

No mais, Nereu Ramos e Eurico Dutra deram-se muito bem, assim como João Goulart e Juscelino Kubitschek, João Goulart e Jânio Quadros, José Maria Alckmin e Castello Branco, Pedro Aleixo e Costa e Silva, Augusto Rademaker e Garrastazu Médici, Adalberto Pereira dos Santos e Ernesto Geisel, José Sarney e Tancredo Neves, Marco Maciel e Fernando Henrique e, agora, José Alencar e Lula.
O fato de os vice-presidentes não mais presidirem o Senado e nem serem eleitos separadamente ajudou bastante no relacionamento deles com os presidentes. Inexistem motivos para supor que venha a ser diferente no próximo governo.

Saltando de banda

À medida em que outubro se aproxima e as pesquisas favorecem cada vez mais Dilma Rousseff, vai diminuindo o diapasão de críticas e reparos à candidata. Mas seria bom não deixar passar certas escorregadelas. Não dá para aceitar, assim, que diante de questões polêmicas, Dilma salte de banda, sem definir-se. É o caso das indagações feitas a ela pelas igrejas, sequiosas de saber seu pensamento sobre a legalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a pesquisa com células-tronco. A companheira acaba de acentuar, por escrito, num boletim “ao povo de Deus”, que esses temas pertencem ao Congresso, a quem caberá a palavra.

Não é bem assim. Em se tratando de projetos de lei, a decisão final cabe ao presidente da República, livre para sancioná-los ou vetá-los. Acresce que a população fica sempre voltada para sua principal figura, querendo saber até o time para o qual ela torce. E por sinal: Dilma é Flamengo no Rio, Corintians em São Paulo, Atlético em Minas e Internacional no Rio Grande?

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