No país das frustrações

Carlos Chagas

Admite-se que o cidadão comum disponha de memória curta. Ficaria doido caso lembrasse de todas as frustrações  porque passou desde que, entrando na idade da razão, começou a desiludir-se da política e dos políticos aos quais emprestou apoio e  esperanças. Nos tempos recentes, entre altos e baixos, um período sobressai para acentuar a desilusão geral. O país reencontrara a expectativa de voltar a ser uma democracia, com a eleição de Tancredo Neves. Infelizmente, a vida nos pregou uma das maiores de suas peças, com a doença e morte daquele que simbolizava a esperança nacional, sem poder assumir.

José Sarney fez o que pode, assegurou a transição, mas limitado por trajetórias antigas. Veio Fernando Collor, bem nascido e mal formado, em pouco tempo refugado pela opinião publica. Itamar Franco surpreendeu, recuperando combalidos sentimentos de que o Brasil tinha jeito.  Recomeçar era preciso e o vice-presidente, depois de uma administração mais do que louvável, foi buscar um molde imaginado quase perfeito, com passado, presente e futuro definidos. Fernando Henrique vinha de lutas socialistas, intelectual perseguido pela ditadura, disposto a repelir radicalismos e a dar passos concretos no rumo do aprimoramento social, político e econômico. No entanto…

No entanto, desmentiu-se e frustrou a nação. Menos, é claro, as elites que com toda certeza conheciam sua verdadeira face e nele também tinham apostado. Submeteu o governo aos interesses multinacionais, alienando patrimônio público imprescindível ao nosso desenvolvimento.  Esqueceu os compromissos com a classe trabalhadora, congelou salários públicos e privados, nenhuma iniciativa adotou para ampliar direitos sociais. Pelo contrário, comprimiu os pobres e beneficiou os  ricos. Chegou a ser referido como o Hood Robin, antípoda do Robin Hood. De graça essas coisas não acontecem.  Enfrentou o acerto de contas no final de seu duplo período de governo, ele mesmo responsável por haver mudado e comprado as regras do jogo depois de começado. Ouvia-se com frequência o “Fora FHC!” ecoado na antessala da vitória do Lula.  Seus índices de reprovação só não foram maiores do que sua vaidade, presunção e arrogância. Atrasou o Brasil em dez ou vinte anos e até deixou um modelo em boa parte adotado pelo sucessor.

DE VOLTA AO PALCO

Pois não é que o sociólogo está de volta, ou melhor, jamais deixou o sonho de ocupar parte do palco? Ontem, começou a pregar a renúncia de Dilma, aliás, uma proposta oportuna, só que formulada por quem carece de embasamento político para tanto. Quer que Madame salte de banda,  não pelos  defeitos dela, que são muitos, mas por eventuais e diminutos méritos. Para quê?

Indaga-se das motivações da sugestão divulgada nas manchetes de ontem, não havendo explicação melhor do que a fixação do ex-presidente em julgar-se acima de todos nós. Soluções para a crise?  Só ele possui. Há dúvidas se não estaria prevendo que com a renúncia de Dilma teríamos eleições para completar o mandato em curso. Com que candidato? Elementar, neste país de frustrados…

13 thoughts on “ No país das frustrações

  1. O Chagas está como a Globo, mudando de lado! Passito a passito seus artigos tornam-se mais e mais condescendentes com o Planalto. Logo, ele vai dizer que a Anta não sabia de nada! O que o dinheiro não faz!

    • Paulo 2: Realmente, não dá para entender. O PT acabou com o país; a cada dia um escândalo novo. E, logo agora, vem o respeitável Carlos Chagas com essa arenga contra FHC. Mesmo que Fernando Henrique Cardoso tenha cometido atos ilícitos, o assunto agora é outro, e ele sabe muito bem qual é.

  2. Com todo respeito ao jornalista Carlos Chagas, ele, inimigo ideológico de FHC, analisa as atitudes do ex-presidente da forma primária e perversa, não como jornalista de longa memória e sim como um cidadão comum sem memória, como ele assinalou em sua primeira frase do texto.
    Tenho muitos os motivos para detestar FHC, pois em seu Ministério da Educação com Paulo Renato, os funcionários públicos tiveram o pior dos mundos com a dupla. Por outro lado, pude ver como o Brasil mudou para um ponto mais maduro com a diminuição do estado através de vendas de ativos que serviam mais aos amigos do poder que ao Brasil. O embate ideológico cega a todos que se envolvem com paixão.
    Vejam a situação da Petrobras hoje. Acabaram de divulgar que ela se desfará de 25% da BR Distribuidora; a sua participação na Braskem (onde é sócia minoritária da Odebrecht) também está na mira de ser vendida. Está se desfazendo do patrimônio em troca de um dinheiro, assim como muitos de nós em aperto financeiro, mas está sendo anti-nacionalista aos olhos de muitos.
    Seria melhor manter sob controle acionário estatal a Vale do Rio Doce que necessitava aportes quase regulares do tesouro nacional e servia como amparo de apadrinhados políticos indicados ou, por outro lado, passar o controle acionário para a iniciativa privada, mas mantendo muitas ações em seu poder , que lhe originam lucros muito maiores, abrindo, ao mesmo tempo, agências reguladoras que fiscalizassem as atividades das empresas de concessão. Esta guinada deveu-se a FHC. E o Sr. Lula, hoje milionário, não desfez nadinha que o monstro FHC (aos olhos do Sr. Carlos Chagas) havia feito.

  3. A grande diferença entre o governo FHC e Lula: FHC pegou o governo com
    uma inflação de 80% ao mês e o Lula pegou o governo com a casa arrumada.
    Um governo para ser bom depende muito do governo anterior. Embora FHC tenha arrumada a casa, mas no computo geral seu governo foi anti nacional. Entendo que
    monopólios e empresas estratégicas têm que estar nas mãos do governo, que além de ajudar a regular
    o mercado, trata-se também de segurança nacional. Se Getúlio Vargas não fizesse a Vale do Rio Doce,
    a Siderúrgica Nacional, a Petrobrás etc, qual iniciativa privada ou multinacionais iriam fazer? considere-se que essa empresas foram a base, o alicerce do desenvolvimento brasileiro.
    O que precisa de contenção é a desonestidade dos governos que dilapidam o patrimônio público, procurando fórmulas que blindem essas empresas da corrupção governamental.

  4. Sei que cada um tem o direito de colocar seu ponto de vista porém, um jornalista que está a par de tudo isso que está acontecendo ao pais, e fazer o jogo da situação se remetendo ao governo passado do ex-presidente FH, é simplório demais, pois será que tanto tempo que lula ocupou o governo e sua pupila não dariam para fazer algo de melhor e mais util ao país?
    Fico penalizada ao constatar que uma pessoa da idade do sr. Chagas ainda tenha que agir dessa maneira.

  5. Chagas tu conheces bem Fernando Henrique Cardoso, conhecido outrora como “o príncipe dos sociólogos”. É bom lembrar sua perseguição: Não foi cassado e nem asilado. Auto asilou-se. Não fora assim não teria vindo do auto-exílio para o enterro de seu pai o general Leônidas Cardoso nacionalista, atuante na campanha do “Petróleo é Nosso” sem que fosse hostilizado pelas autoridades. Também não teria sido candidato ao senado em 1978. Uma coisa que pouca gente sabe: Fernando Henrique, quando Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro, fez-lhe quatro visitas. Chegava em Cocabana às 7h da manhã e Brizola estava na entrada do edifício o esperando. Subiam e depois de uma hora desciam. Ele ia embora e Brizola chamava alguém da militância para subir e tomar café com ele. Naquele momento Brizola recebia muitas ameaças, então militantes, a segurança pessoal do Brizola (que ninguém sabia ao certo quem era, sabiamos que eram gauchos), e nós os voluntários, ficavamos nós revesando a noite toda. Brizola na sede do partido comentava: Pois é este Fernando Henrique é mais radical que eu. Ledo engano, FHC estava se valorizando. Em pouco tempo foi chamado por Sarney para ser embaixador. Deixou de falar com Brizola e quando se elegeu presidente a primeira coisa que fez foi dizer que ia acabar com a “Era Vargas”.

  6. Chagas tu conheces bem Fernando Henrique Cardoso, conhecido outrora como “o príncipe dos sociólogos”. É bom lembrar sua perseguição: Não foi cassado e nem asilado. Auto asilou-se. Não fora assim não teria vindo do auto-exílio para o enterro de seu pai o general Leônidas Cardoso nacionalista, atuante na campanha do “Petróleo é Nosso” sem que fosse hostilizado pelas autoridades. Também não teria sido candidato ao senado em 1978. Uma coisa que pouca gente sabe: Fernando Henrique, quando Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, fez-lhe quatro visitas. Chegava em Cocabana às 7h da manhã e Brizola estava na entrada do edifício o esperando. Subiam e depois de uma hora desciam. Ele ia embora e Brizola chamava alguém da militância para subir e tomar café com ele. Naquele momento Brizola recebia muitas ameaças, então militantes, a segurança pessoal do Brizola (que ninguém sabia ao certo quem era, sabiamos que eram gauchos), e nós os voluntários, ficavamos nós revesando a noite toda. Brizola na sede do partido comentava: Pois é este Fernando Henrique é mais radical que eu. Ledo engano, FHC estava se valorizando. Em pouco tempo foi chamado por Sarney para ser embaixador. Deixou de falar com Brizola e quando se elegeu presidente a primeira coisa que fez foi dizer que ia acabar com a “Era Vargas”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *