No silêncio da noite, voando sobre o Atlântico, uma mensagem acorda Jango

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Se o avião fizesse escala no Brasil, Jango seria preso

Sebastião Nery

De repente, no silêncio da noite, como na canção de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlântico, já próximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol: “Atenção, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala técnica em Recife, para recarregar o combustível. A demora no aeroporto será de aproximadamente 45 minutos. Obrigado”.

Ele percebe o perigo e diz ao jornalista uruguaio Jorge Otero, seu companheiro de viagem e vizinho de poltrona:

– Estou proibido de entrar em território brasileiro. Comprei esta passagem da Aerolíneas Argentinas com o compromisso de não fazer uma só escala. Então, que o avião retorne à Europa.

E foram os dois à cabine falar com o comandante. Um comissário de bordo tentou impedir. Mas, afinal, o comandante saiu e o ouviu:

– Sou o ex-presidente João Goulart, do Brasil. Estou como asilado na Argentina. (Era no Uruguai, mas vivia mais na Argentina). Se o avião descer no Brasil, serei preso, O senhor deve devolver-me à Europa ou levar-me aonde quiser, a qualquer lugar, menos no Brasil.

JANGO – O comandante estava “rígido e surpreso, com burocrática energia”:

– É impossível atendê-lo. Os ventos frontais foram muito superiores aos previstos e por isso gastamos muito mais combustível do que habitualmente. Quando o senhor comprou a passagem, tinha que saber das escalas assinaladas para uma emergência. Recife é o aeroporto mais perto.

– Mas, comandante, ninguém me avisou nada. Serei retirado do avião e preso. E o senhor será o responsável.

– Senhor, não entrará ninguém no avião. A esta hora só está acordado o responsável pela torre de controle, que vai chamar o pessoal do abastecimento. Não há ninguém no aeroporto.

– Desculpe, comandante. Mas meu nome está na lista de passageiros, que o senhor deverá entregar. Será só questão de minutos que venham do quartel e me levem preso. Contra mim, foi decretada uma ordem de prisão pela ditadura brasileira. Não posso entrar no Brasil, porque serei preso.

– Senhor, este é um avião argentino, sob meu comando. Não permitirei a ninguém que leve nenhum dos passageiros sob minha responsabilidade. Estamos em território argentino.

– Comandante, esta é uma aeronave civil. O senhor não vai poder fazer nada quando um punhado de soldados entrar aqui. A responsabilidade por isso, que surpreenderá o mundo, será exclusivamente do senhor.

– Vou ver o que posso fazer, mas não alimentem muitas esperanças.

RECIFE, NÃO – E voltou para a cabine. Jango e seu amigo para os lugares deles. O jornalista uruguaio tentou aliviar a tensão de Jango:

– Presidente, o senhor me disse que em Madrid comprou a passagem em nome de Belchior Marques. Talvez não se deem conta de quem é.

– É possível, Jorge. Mas o chefe da guarnição militar de Recife foi promovido por mim. Tem que saber quem é o passageiro Belchior Marques

O tempo vai passando e nada. De repente, a voz do comandante:

– Atenção, por favor. Aqui fala o comandante. Quero informar que os cálculos do combustível que resta e a sensível melhora nos ventos tornam desnecessário descer em Recife. O voo será sem escalas até Buenos Aires.

Jango, afinal, voltou a dormir. Era 12 de outubro de 76.

7 thoughts on “No silêncio da noite, voando sobre o Atlântico, uma mensagem acorda Jango

  1. TENTAÇÃO GOLPISTA NORTEIA DIREITA VENEZUELANA

    O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi reeleito neste domingo (20/05) com 68% dos votos. Ele fez 5.823.728 sufrágios, contra 1.820.552 do segundo colocado que somado a outras forças oposicionistas está contestando os resultados. Maduro sucedeu no poder o então presidente Hugo Chavez, morto em 5 de março de 2013, valendo lembrar que ambos venceram 22 das 24 eleições realizadas no país desde 1999 e tradicionalmente as forças contrárias tentam sem sucesso impugnar os resultados. http://operamundi.uol.com.br/conteudo/geral/49427/reeleicao+de+maduro+o+triunfo+de+uma+revolucao+popular.shtml

    • O povo venezuelano paga com o próprio sangue a insensatez de haver sufragado nas urnas como afirma o leitor e comentarista essa dupla nefasta, pois o desgoverno de Maduro não tem competência para melhorar a situação econômica da Venezuela.
      Um governo onde o seu povo foge para o Brasil, pois está com fome e desempregado. Ou eu estou mentindo?
      Infelizmente, para o povo venezuelano serão mais 6 anos de misérias com certeza absoluta.
      E é esse regime nefasto que queremos para os nossos filhos, netos e bisnetos?

      • O nobre editor e moderador da TI sempre afirma que a TRIBUNA DA INTERNET é uma tribuna para discussões, para debates de todas as correntes do pensamento humano.
        Tendo vista a postagem do leitor e comentarista Valmor Stédile, não posso me calar e declaro que a Venezuela está sendo massacrada por um governo comunista indiscutivelmente, e não pela direita golpista como quer fazer crer o comentarista.
        É risível, quando o governo se identifica como comunista e ladrão, e sabemos que hoje a Venezuela é desgovernada por um regime nefasto de esquerda, retirá-lo do poder é golpe; no entanto, se for um governo de direita, é necessidade.
        Com todo o respeito, essa postagem do leitor e comentarista Valmor Stédile, induvidosamente, trata-se de uma afronta não só à democracia, mas sobretudo ao povo venezuelano que foge do seu país para o Brasil porque está morrendo de fome, sem trabalho, sem comida, sem emprego, todavia, na ótica do aludido leitor e comentarista da TI é a direita golpista a culpada por todo o infortúnio do povo venezuelano.
        Mais uma vez, com todo o respeito, a cara de pau é tanta ou o cinismo e a hipocrisia extravasam quaisquer limites do bom senso, da lógica e do razoável, pois aqueles que acreditam que a redenção da humanidade é o comunismo/socialismo, ainda têm a petulância de escrever que a ascensão de Hugo Chávez foi uma revolução popular.
        Quanta DESFAÇATEZ!

  2. Ler um artigo de Sebastião Nery é viver a história política do Brasil de forma prazerosa. Longos anos de vida para este bravo jornalista!

  3. Não li porque fala de Jango. Não leria se falasse de Marx ou Engels. Essa gente floresceu pelo atraso da época em que viveram.

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