Nobel da dissidência e da liberdade. Nobel do desemprego e da coletividade. Por que o Brasil não tem Nobel? E o Nobel da Paz para um argentino?

Helio Fernandes

O prêmio que surgiu contraditoriamente de uma fortuna explosiva, servia geralmente para recompensar personagens não intimidativos, que não ameaçavam o “sistema”, e precisavam ser elogiados, lançados na voragem da comunicação, ainda não tão poderosa como hoje. Acertaram poucas vezes, erraram muitas.

Os acertos eram por conta de méritos visíveis, os erros, também visíveis, usados para preterir principalmente economistas importantes. O caso mais famoso (mas não único) foi o do economista americano John Kenneth Galbraith.

Com 25 anos, assessor de Roosevelt no primeiro mandato, a partir de 1932 (a eleição, 1933 a posse), foi o inspirador e idealizador do “New Deal”, revolução verdadeira e sem armas. Em 1941, com a guerra, Roosevelt entregou a Galbraith o que se chamou de Coordenação da Mobilização Econômica, que era a transformação de toda a indústria civil em indústria de guerra.

Ficou até a morte de Roosevelt, (no início do quarto mandato) nem quis saber de trabalhar com Truman. Em 1961, voltou à Casa Branca, convite especial de Kennedy. Já participara da campanha, ficou quase 2 anos, teve divergência com Ted Sorensen (que escrevia alguns dos discursos de Kennedy), pediu demissão, foi embora.

Surpreendido, o presidente chamou-o, tentou sua volta, Galbraith ficou irredutível (mas não hostil), Kennedy perguntou: “Posso ajudá-lo em alguma coisa?” Resposta: “Presidente, se o senhor quiser me nomear embaixador na Índia, estou indo para lá, é um dos países mais importantes do futuro, reforçará minha posição”. Foi nomeado na hora. No dia do assassinato do presidente, entregou o cargo, voltou aos EUA para o enterro, mas sem cargo. Muitas vezes lembraram dele para o Nobel, jamais tiveram coragem.

Agora, praticamente, todos os prêmios são RELEVANTES e importantes, por causa disso, até polêmicos. O Nobel dado ao dissidente da China que está preso desde o episódio fascinante da Praça da Paz Celestial, movimentou o mundo. Menos pela escolha, mais pela resistência, não do dissidente, mas da própria China.

Os dirigentes da China não perceberam (como afirmaram) que “o mundo está com inveja da China”. Podem até estar, mas sendo hoje a China a maior EXPORTADORA e a maior IMPORTADORA do mundo, todos temem a queda do PIB da China, não por ela, mais por eles.

Outro prêmio altamente satisfatório, foi o do economista dos EUA, que há muito tempo estuda a razão ou as razões do DESEMPREGO. Notável ou notáveis suas conclusões. E a repercussão foi ainda maior, porque não existe contestação para a constatação do economista Peter Diamond. Vem escrevendo sobre o assunto há dezenas de anos, só agora, aos 70, teve o reconhecimento merecido.

Mas continuam errando muito. Surpresa total o Nobel da Literatura para Vargas Llosa, despropósito total, completo e irreversível. O peruano é um escritor puramente regional, sem qualquer repercussão universal, para o homem e a sua, vá lá, obra.

O romance (?) que lastreou e premiou Lloza, é historinha sem qualquer importância. “Pantaleão e as Visitadoras”, obra menor e sem consistência, Conta, sem qualquer lance de gênio (nem o assunto permitia), o recurso dos militares do Peru para atender as necessidades sexuais (indispensáveis) de soldados e oficiais. Espalhadas pelo imenso território, as tropas ficavam isoladas, sem contato com ninguém, praticamente abandonadas.

Criaram então esse exército paralelo, de mulheres, que chamaram de Visitadoras, muito justamente para atender os homens. Só que ligaram essas “Visitadoras” ao comportamento geral dos militares.

E aí surge o absurdo do Brasil não ter nenhum Prêmio Nobel, sempre ter sido preterido. No setor mesmo da Literatura, o Brasil tem muitos escritores mais importantes do que Vargas Llosa. Jorge Amado tem pelo menos 5 ou 6 romances muito pais importantes do que o “Pantaleão”, idem, idem para Erico Veríssimo e outros.

Carlos Drumond de Andrade e Manuel Bandeira, no mesmo nível ou melhores do que Gabriela Mistral. Encurtando, podemos dizer que a maior discriminação é em relação ao Nobel da Paz. Obama ganhou esse Nobel,  presidente de um país com duas guerras por interesses. Pode ser que veja a merecer, mas nos primeiros tempos de governo, quando manda mais tropas para REFORÇAR essas guerras?

Outro Nobel que atingiu profundamente o Brasil, foi a premiação do argentino Perez Esquivel como Nobel da Paz. O que fez ele? Por que recebeu esse Nobel?

(Conheci Esquivel em Cuba, 1987, já Nobel, ninguém o conhecia, não me deixou a menor impressão. Nesse Seminário sobre Dívida Externa, fui apresentado a ele, quase não disseram o nome, só o título, que ganhou surpreendente e imerecidamente).

Naquela época, o Prêmio Nobel da Paz natural e universal, teria que ir para Dom Evaristo Arns. Um dos grandes resistentes da ditadura era ele. Teoricamente podia ser o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara. Perseguidíssimo, mas na prática era Dom Evaristo.

E sua capacidade de luta e de comando chegou ao apogeu na organização da MISSA DE SÉTIMO DIA PELA ALMA DO ASSASSINADO WLADIMIRI HERZOG. Os militares não queriam de maneira alguma essa MISSA. Dom Evaristo Arns, a família, a resistência verdadeira, os que não transigiam nem concediam nada aos ditadores de plantão, “fecharam a questão”, tem que haver a missa. Sentindo-se derrotados, veio a “sugestão-intimidação”, que era a seguinte: “Concordamos com a missa, mas não na CATEDRAL, e sim numa igreja mais distante, não no centro da capital”.

Como não houve acordo nem poderia haver mesmo, a missa foi na CATEDRAL. Multidões de todos os lados, tropas nos mais variados lugares. Onde houvesse um “vão ou uma janela, metralhadoras eram visíveis”. O centro de São Paulo se transformou igualmente num templo de resistência e num quartel a céu aberto.

A semana que Dom Evaristo Arns “travou” com os militares, homérica. Intransigentes, os “plantonistas da ditadura” jamais imaginaram que homens desarmados, de terno, batina ou roupa de trabalhador, pudessem ter tanta força na mente, na alma, no coração, a transformar tudo em resistência.

Dom Evaristo, o centro de tudo aquilo, devia ter recebido o Nobel da Paz. Tudo o que ele fez no tempo e na semana da missa, era luta pela Paz. Por ser o Brasil, não tivemos esse Nobel, já não havíamos recebido os outros.

***

PS – Vargas Llosa, reacionaríssimo, foi candidato a presidente da República, lançado pelos militares, apoiado e financiado pelos banqueiros. Como os trabalhadores estavam em greve, a luta foi contra eles.

PS2 – Derrotadíssimo, Llosa tentou se redimir, afirmando: “Nunca mais serei candidato”. Se fosse, seria novamente massacrado.

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