Nomes, s depois do perfil

Carlos Chagas

Os exemplos vem de longe. O ministrio do marechal Eurico Dutra foi correto, mas sem brilho, caracterizado por figuras que participaram do Estado Novo e por adversrios da ditadura deposta. Getlio Vargas, eleito em seguida, mostrou desconsiderar o conjunto de seus auxiliares ao rotul-lo como ministrio da experincia. Buscou atrair adversrios, mas mudava de ministros como quem muda de camisa. Se havia um perfil no ministrio, era o do presidente, que abafava os demais. Caf Filho comps uma equipe parcial, s com gente da direita, golpistas, exceo do ministro da Guerra, general Henrique Lott, que botou gua no chope da aventura antidemocrtica. Juscelino Kubitschek optou por unir os contrrios mas sem abrir espao para seus adversrios, preferido tcnicos entre polticos de menor expresso.

Jnio Quadros empolgou o pas ao eleger-se presidente da Repblica, despertando intensa ansiedade quanto ao seu ministrio. Imaginava-se que seria escalada a equipe dos sonhos. No final, veio um ministrio provinciano, cheio de paulistas desconhecidos do restante do pas. O comeo do fim talvez estivesse ali. Joo Goulart seguiu o exemplo de Getulio, trocava de ministros todas as semanas e terminou perdendo o apoio at da maioria das foras que o cercavam. O tal governo de unio nacional durou poucos meses.

Os generais-presidentes foram parciais em suas escolhas, os poucos selecionados fora do sistema no se aguentaram, como Milton Campos, na Justia, no governo Castello Branco, ou Severo Gomes, na Indstria e Comrcio, no governo Ernesto Geisel. Nmero exagerado de militares ocuparam pastas civis com Costa e Silva e Garrastazu Mdici, brilhando a estrela do general Golbery do Couto e Silva nas administraes Ernesto Geisel e Joo Figueiredo, pelo menos at o Riocentro. Mas em todos prevalecia a identidade negativa que os obrigava a amar o movimento militar ou deixar o poder. No mximo, dividiam-se entre desenvolvimentistas e contencionistas.

Tancredo Neves sofreu todo o tipo de presses, no final j no ligava muito para as indicaes, como as de que o Cear e a Bahia, por exemplo, tinham de indicar trs ministros cada, para apaziguar os grupos locais em choque. Jos Sarney, quando conseguiu fazer o seu ministrio, viu-se envolto numa colcha de retalhos, aumentando o grau de mediocridade ministerial medida em que seu mandato chegava ao fim.

Com Fernando Collor aconteceu coisa singular. Comeou com a Repblica das Alagoas, ningum que fosse considerado do primeiro time, em especial na rea econmica. Quando decidiu mudar, compondo talvez a mais brilhante equipe em muitas dcadas, j no dava mais tempo. Itamar Franco formou um ministrio feijo com arroz, mas eficiente na medida em que cobrava resultados e at mandava passear os desenquadrados.

Fernando Henrique e o Lula ofuscaram seus ministros, revelados alguns apenas com o passar do tempo, mas nenhum parecendo estrela com luz prpria. O atual presidente chega ao mximo de dispor de ministros que no despacham com ele a no ser de seis em seis meses.

E o ministrio Dilma Rousseff? Diversas variveis ainda inconclusas pesam na composio por enquanto desconhecida: ser um ministrio formado imagem e semelhana do Lula, com boa parte dos ministros continuando no governo? Ou uma equipe mista, com gente velha e gente jovem? Dificilmente um grupo totalmente novo. Um ministrio com prevalncia de mulheres? Ou provindo essencialmente de embates partidrios, com ministros impostos pelo PT, o PMDB e penduricalhos? Haver, da parte da nova presidente, preocupao com a unidade doutrinria e at ideolgica de seu governo? Ministros fortes e ministros fracos? Algum controlador ou primeiro-ministro enrustido? Um colegiado com voz e autoridade ou uma classe de freirinhas submetidas ao rigor da madre superiora?

Fica no ar a definio do perfil do ministrio Dilma. Talvez s depois dele conhecido possam ser especulados nomes.

CONSELHOS OPORTUNOS

Vem de Tancredo Neves um oportuno conselho para Dilma Rousseff: um presidente da Repblica tem que sorrir sempre, no apenas na campanha. Cenho fechado, respostas speras e ar de superioridade so bons para professores em sala de aula, no para governar o pas. Deve tambm o governante estar preparado para aceitar exageros verbais e encenaes irreais da massa qual se dirige.

At que Dilma seguiu essa lio, enquanto pediu votos, mas agora comea o jogo para valer.

Por que Tancredo chegou a essa concluso? Pela experincia de ver Juscelino Kubitschek governando, mas, tambm, pelo anti-exemplo do marechal Henrique Lott, quando candidato derrotado, em 1960. Certo dia, visitando So Joo Del Rey, desfilavam ambos em carro aberto. A multido, eufrica, aplaudia, mas s Tancredo sorria. Numa determinada esquina, com o trfego interrompido, um popular aumentou os decibis de seu entusiasmo e, aproximando-se, falou para o marechal: Eu servi com o senhor, como soldado!. O dilogo parecia estabelecer-se quando Lott indagou onde, mas diante da resposta de que tinha sido em Uruguaiana, seguiu-se a frustrao: Mentiroso! Eu jamais servi em Uruguaiana!…

A VERDADE E A LENDA

O fim de semana prolongado pelo feriado, mais a chuva, ensejaram a muita gente ficar em casa diante da telinha, buscando filmes antigos. Dos inscritos na galeria das obras-primas, passou O Homem Que Matou O Fascnora, de John Ford. A histria de um jovem advogado que vai para o interior disposto a fazer valer a lei contra a truculncia, interpretado por James Stewart. Perseguido por um bandidao, Lee Marvin, o mocinho foi protegido por um campeo da lei, John Wayne, de quem acaba roubando a namorada. Dcadas depois, por haver enfrentado e matado o mau carter num duelo, mesmo sem saber atirar, e tendo-se tornado por isso deputado, senador e duas vezes governador do estado, Stewart volta cidadezinha para o enterro de Wayne, que morreu de velho. L, resolve contar a um jornalista a verdadeira histria: ele no era heri coisa nenhuma, muito menos havia matado Lee Marvin. Quem fizera isso fora John Wayne, escondido do outro lado da rua.

No final, o jornalista rasga as anotaes e conclui: Quando a verdade prejudica a lenda, mantenha-se a lenda.

Quem quiser que interprete…

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