Nos EUA: 56% a favor da divulgação das fotos; 36 contra

Pedro do Coutto

Os argumentos do presidente Barack Obama usados para não divulgar as fotos e os filmes que registraram o ataque final a Bin Laden na incursão do comando americano no Paquistão (que, claro, hospedava o terrorista) não convenceram a opinião pública americana. Pesquisa da CNN, objeto de reportagem de Fernando Eichenberg, correspondente de O Globo em Washington, publicada na edição de quinta-feira, apontou ampla maioria pela liberação das imagens: 56%. Contra a divulgação, portanto ao lado da posição de Obama, 39%.

Esta diferença, a meu ver, levará o presidente da República a partir para uma nova versão em torno dos fatos da noite de domingo, a terceira da série. Sim. Porque como o próprio O Globo, a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo publicaram houve uma primeira sucedida por uma segunda. Na primeira, a tendência era divulgar as fotografias. Na segunda, um posicionamento contrário.

Estranho porque Barack Obama – viu-se a foto nos maiores jornais do mundo – na hora da invasão encontrava-se na Casa Branca diante de uma tela acompanhando todos os lances em tempo real. Portanto,  aprovou  o ataque todos os momentos. Se ele, como aconteceu, tornou-se responsável pelo êxito da operação, natural que seja também pelos seus desdobramentos.
O primeiro deles a constatação histórica através do material visual disponível. Pode até não ser o filme com todos os detalhes da violência. Mas a imagem do terrorista de onze de setembro morto é, acredito, inexcusável.

Na opinião também do presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Celso Scroeder: “São momentos históricos –disse- .Ficam para sempre”. Pode inclusive haver uma seleção que não edite as imagens mais grotescas. Para o professor Fernando Paulino, da Universidade Nacional de Brasília, a sociedade tem o direito de saber. Alberto Dines, que foi editor-chefe do Jornal do Brasil em sua melhor fase, defende a divulgação, respeitados os preceitos morais e éticos. As declarações dos três encontram-se embutidas na reportagem de O Globo a que me referi.

Inclusive, o que na bela e inultrapassável definição de Macluhan divide a história universal são as eras do relato e do registro. Se nós focalizarmos as duas maiores tragédias do tempo humano, a crucificação de Cristo e o nazismo, vamos perceber nitidamente a diferença. A crucificação é um relato. O nazismo de Hitler um registro. Já havia a imprensa, a fotografia, o rádio, o cinema.

Aliás o marco entre um período e outro está na criação da imprensa por Gutemberg, no final da primeira metade do século 15. No final da guerra na Europa, em maio de 45, o general Eisenhower, que anos depois seria eleito presidente dos Estados Unidos, ao visitar os campos de concentração e extermínio, pediu que repórteres, fotógrafos e cinegrafistas registrassem a inspeção. Documentem tudo, ressaltou. Para que no futuro não apareça alguém capaz de sustentar cinicamente que as atrocidades não aconteceram. Assim foi feito.

Um bom exemplo a ser seguido por Barack Obama na futura terceira etapa envolvendo o episódio de domingo passado, primeiro de maio, quando as cortinas do palco se abrirem mais uma vez. Obama disputa a reeleição em 2012. Está em plena campanha, tanto assim que na quinta-feira visitou o marco zero em Nova Iorque local das Torres Gêmeas, destruídas por Bin Laden.

Divulgar as imagens, com base na pesquisa CNN, é ir ao encontro da verdade e da opinião pública. Não só no caminho das urnas, mas sobretudo no rumo da certificação histórica. Pois como sustentou Eisenhower em relação ao nazismo, no futuro não faltará alguém para afirmar que Bin Laden escapou com vida. Ou pior: ressuscitou.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *