Nos tornamos reféns de um poder público extorsivo

IPTU

Charge sem assinatura (Arquivo Google)

Percival Puggina

Lembro-me perfeitamente da última atualização feita na planta de valores de Porto Alegre para lançamento do IPTU. Aconteceu em 1991, terceiro ano da administração Olívio Dutra, e causou sérios dramas. Nas zonas em que ocorreram maiores aumentos, os novos valores excediam a capacidade financeira de muitos munícipes, comumente idosos cuja renda andara em direção inversa à da valorização dos respectivos imóveis. A inadimplência explodiu. Embora o poder público muitas vezes o desconheça em si mesmo, esse limite existe, sim, na vida dos cidadãos.

Ninguém espera, nem interessa à comunidade, um órgão arrecadador de coração mole, disposto a perder dinheiro. No entanto, cabe perguntar: está a prefeitura “perdendo dinheiro” ao lançar o imposto, todo ano, com valor corrigido segundo a inflação ou algum índice de preços? Óbvio que não. É o mesmo dinheiro, em valor atualizado, mudando de bolso.

RECEITAS CORRENTES – Nos impostos que pagamos, acompanhando a alta dos preços de tudo que compramos, ele sai do nosso e vai para os entes federados como receitas correntes. Não, não é aí que mora o prejuízo. Se há vazamento, obviamente não é nos impostos pagos. Elementar regra de prudência recomendaria à União, aos estados e aos municípios que o aumento de suas despesas correntes não sobrepujasse esses mesmos índices.

Dê uma pesquisada no Google sobre o que aconteceu em recentes revisões de plantas de valores em municípios como Curitiba, Belo Horizonte e Guarulhos, entre outros. Verá casos que multiplicaram o tributo por 10 e até 20 vezes. A própria intenção de parcelar esse aumento ao longo de alguns anos mostra que o forte impacto da providência na economia das famílias é pressentida pelo fisco.

DANOS ÓBVIOS – O fatiamento da majoração, porém, não altera sua substância, nem sua inconveniência ou inoportunidade. Desconhecem, por acaso, o dano que a crise do setor público está produzindo na economia, nos empregos, no poder de compra das pessoas?

Alega-se, e é fato, que quem adquire um imóvel agora numa região valorizada estará pagando IPTU maior do que seu vizinho que ali reside há bom tempo. Mas é falso ver-se injustiça nisso. Quem compra imóvel paga preço e imposto conforme suas posses. Injusto, em vista disso, é onerar o vizinho que nada tem a ver com tal comércio. A imensa maioria dos imóveis residenciais só constitui um negócio na hora da transmissão. Depois, se converte em lar de alguém, parte importantíssima de um projeto de vida que não pode ficar sujeito a essas manipulações tributárias.

PROBLEMAS REAIS – São surpreendentemente reais os problemas financeiros da prefeitura de Porto Alegre, 10ª capital brasileira em população. Eles ocorrem apesar de a população ser fortemente onerada. Segundo artigo publicado em ZH da última quarta-feira, dentre todas as capitais, nossa arrecadação per capita é a quinta em IPTU, a terceira em ISS e a primeira em ITBI. E repito: a capital gaúcha é apenas a 10ª em população.

Mesmo assim, o dinheiro não basta, como nunca são bastantes as receitas do Estado e da União. Por quê? Porque o mais real conflito no Brasil de hoje, malgrado todas as manobras diversionistas que tentam focar questões de classe, raça, gênero, etc., se relaciona à opressão do público sobre o privado, do Estado sobre a nação.

Somos reféns de um setor público que consorcia o patrimonialismo dos poderes políticos com o corporativismo da burocracia. E crescem juntos, de modo incontrolável, impondo à nação, muito além da capacidade que temos de sustentá-los, uma verdadeira ditadura de interesses minoritários.

5 thoughts on “Nos tornamos reféns de um poder público extorsivo

  1. É o estado e mercado mancomunados , manipulados e achacados por bandidos desalmados, deu no que deu, mas elle$ ainda querem mais, muito mais, quiçá os ossos da população contribuinte. É o estágio de loucura a que que chegou o $istema podre e exaurido. E elle$ não se dão por achados, e nem pegos com as bocas nas botijas.

  2. É o estado e o mercado mancomunados, manipulados por bandidos desalmados e convertidos em achacadores do contribuinte-consumidor que, agora, ao que parece, querem triturar até os ossos das suas vítimas. Não deve ser à toa que Hitler não via com bons olhos empresários bandidos, banqueiros, rentistas, agiotas e afins, mas, infelizmente, quem acabou pagando o pato foram os judeus pobres e inocentes.

  3. O pior, só sabem cobrar, mas impostos, mais dinheiro, agora o retorno de serviços públicos ficam a desejar, seguranaça não tem mais, o cidadão não pode sair as ruas, sempre haverá notícias de violência nas tvs, não se pode mais usar jóias e nem celular, a bandidagem tomou conta das ruas, já foi época em que passeávamos a noite com jóias e chegávamos de madrugada em casa, não havia a violência absurda que existe hoje, ou seja, o Rio de Janeiro está um caos, assim como qualquer cidade do país, já conseguiu chegar ao interior, onde está o poder público, estão sendo processados pela lava jato.

  4. Essa matéria do Puggina merece um debate intenso, permanente, pois é aí que reside a falência do $istema político podre, exaurido.

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