Nostalgia do que não existiu

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Tostão
O Tempo

Chico Buarque, que deveria voltar a escrever sobre futebol, disse, décadas atrás, que os europeus eram os donos do campo, pela distribuição e organização tática, e os brasileiros, os donos da bola, pela habilidade e criatividade.

Na época, vários lances eram a marca de nosso futebol, como os chutes e passes de curva, de rosca, de trivela, os elásticos, os chapéus e dezenas de outros efeitos especiais. Melhor ainda, o futebol-arte ganhava do futebol-força.

A Europa e a América do Sul tinham estilos bem definidos, opostos, embora, como hoje, haja várias diferenças entre o futebol que se joga em um país e outro da Europa e entre um sul-americano e outro. Às vezes, para simplificar, cometo o erro de não fazer esta distinção.

Com o tempo, houve uma grande aproximação entre os dois estilos. Os europeus deixaram de ser cintura dura, e os brasileiros não são mais os únicos artistas da bola. O belga Hazard é mais habilidoso e inventivo que seu companheiro Oscar, enquanto o brasileiro é mais disciplinado e tem mais inteligência coletiva.

UM DILEMA

Por causa da globalização e do avanço da ciência esportiva, criou-se, no Brasil, há décadas, um dilema entre aderir ao futebol essencialmente coletivo, moderno, compacto, de atacar e defender em bloco, de valorizar a posse de bola, e a outra postura, a de incentivar a improvisação, os efeitos especiais e os devaneios individualistas. Uma coisa não anula a outra.

Essa indefinição continua. O futebol que se joga no Brasil não é uma coisa nem outra. Pior, passou a ser um jogo de espasmos individuais, isolados, além de excesso de faltas, chutões e jogadas aéreas.

Fora de campo, o futebol brasileiro continua dividido entre o profissionalismo e o amadorismo, entre a ganância pelo lucro, sem se preocupar com a qualidade do jogo, e a nostalgia, às vezes, por coisas que nunca existiram ou que nunca foram vistas.

Faço essas reflexões, divagações, um resumo telegráfico, por falta de espaço, para responder a um leitor contrário à minha opinião, de que um dos méritos de Felipão, facilitado pelo fato de os jogadores da seleção atuarem fora, é fazer com que o time tenha uma estratégia parecida com a das principais equipes da Europa.

Esse leitor e muitos outros pensam que o Brasil deveria recriar seu estilo, sem perder a origem, a magia, o jogo bonito e peculiar, marcas da história de nosso futebol. Seria ótimo, mas a atual realidade é outra. Ficamos para trás e, neste momento, é preciso aprender com as coisas boas de fora.

Quem sabe, em um futuro não muito distante, isto aconteça, quando os melhores jogadores continuarem aqui e quando sair a turma que está no poder, que, há décadas, voltando novamente a Chico Buarque, subtrai nosso futebol, em tenebrosas transações?

2 thoughts on “Nostalgia do que não existiu

  1. Sou flamenguista. E como tal, sou fanático. Acho que é o vermelho do uniforme, que nos transforma em loucos touros atrás da bola.

    Dadas essas desculpas, ou confissões, não posso deixar de observar que há um fenômeno a ser reconhecido que só acontece no Flamengo.

    Por que, às vezes, um tremendo perna-de -pau chega no Flamengo e vira um craque?
    Exemplos não faltam. Alecsandro, seria um craque? Nâãããããão, não é. Mas, jogando pelo rubronegro ele deixa a sua improvisação tomar conta do corpo e realiza jogadas, ou tentativas de, especialíssimas.
    No último jogo, contra o Madureira, se um gringo estivesse assistindo, gostaria de levar ele para a Europa. Suas pernas, ao que parece, são antenas que procuram o gol. Ele é capaz de, num mesmo jogo, fazer umas cinco jogadas, que, redundando ou não em gol, tem o sabor único do autêntico futebol brasileiro. Mas isso, jogando pelo Flamengo.

    Outro exemplo? O Ernani. Será capaz de fazer cinco embaixadinhas? Temos dúvidas. Mas dá passes e faz gols com uma simplicidade que encanta a todos.

    O Paulinho. Quem era o Paulinho, até estrear no Mengão? Quem nega que ele comeu a bola quando lhe deram oportunidades? Levaram o Negueba. Ficou travado. Voltou para o Flamengo, já fez dois belíssimos gols.
    O mesmo fenômeno aconteceu com o Williams, lembram-se dele? O “maior ladrão de bola”. Se não voltar para o Flamengo, encerrará a carreira no ostracismo.

    São inúmeros os casos de craques que nascem no Flamengo e a diretoria, apressada, os vende, antes da pré-maturidade. Fora do habitat, são esquecidos. Não são, de fato, grandes jogadores. São grandes jogadores NO e DO Flamengo.

    Pensem nisso.

    Um último desabafo: queremos o Vagner Love de volta. Seu lugar é aqui. Ele é Flamengo de cima a baixo, por todas as veias, pulmões e coração, no sentido orgânico e no poético.
    Quem é Flamengo, não tem jeito: se não o fosse, seria.
    Desculpem a paixão.

    O Flamengo pode servir de termômetro de jogadores. Se não jogar bem no Flamengo, não jogará bem em lugar nenhum.
    Temos ainda aquele monte de jogadores que o Flamengo exportou, como o Renato Abreu, Williams

  2. E a COPA DO NORDESTE segue firme como a competição com a melhor média de público dentre todas as competições futebolísticas realizadas neste primeiro semestre. E o canal ESPORTE INTERATIVO e ESPORTE INTERATIVO NORDESTE bombando em audiência. Vale destacar que a média de público poderia ser ainda maior caso o BAHIA não tivesse sido eliminado ainda na primeira fase com uma campanha muito fraca, o SANTA CRUZ tivesse mandando seus jogos no ARRUDA desde o começo, o que não ocorreu. Pois atuava em caruaru, o SPORT não tivesse sido obrigado a jogar com portões fechados contra o CSA no último domingo por cumprir punição da CBF, o AMÉRICA-RN somente ha duas semanas passou a atuar na ARENA DAS DUNAS em Natal, antes mandava seus jogos em Goianinha. Por tudo isto, fica mais que provado que o futebol nordestino é uma força VIVA graças ao seus torcedores.

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