Novo ministério: uma articulação descoordenada

Pedro do Coutto

Efetivamente as queixas e reclamações colocadas à mesa dos entendimentos tanto pelo PT quanto pelo PMDB, em torno da formação política do ministério da presidente Dilma Roussef, resultam basicamente de uma articulação descoordenada em sua essência. Para início de conversa, está predominando uma dualidade impossível na prática: o fato de Michel Temer ocupar, ao mesmo tempo, a vice-presidência da República e a presidência nacional do PMDB. Não pode assim desempenhar o papel de Arlequim de Goldoni, peça que no passado alcançou grande sucesso nos palcos do Rio. Nos palcos, pois foi montada em mais de um teatro. Temer, como o personagem italiano, tem que cobrir dois palcos simultaneamente. Sai de um, parte para outro. Sai de outro, volta para o primeiro. Afinal ele equilibra mais o governo do qual vai fazer parte, ou as reivindicações do Partido do Movimento Democrático Brasileiro?

É difícil estabelecer uma linha divisória entre os dois planos. É difícil chegar a um denominador comum. No governo Lula, o PMDB ocupou – e ocupa – cinco ministérios. No esquema Rousseff, passaria a deter quatro. Menos um. Porém é possível que esse um de hoje seja mais importante que os dois de amanhã. Mas pode ser o contrário. Um caso de pesagem na balança da influência. Tanto na área política, quanto na esfera econômica.

Entretanto, não é a descoordenação que até agora está se impondo o único problema. Há outros. A começar pelo binômio competência-representatividade, essencial a qualquer governo que sobretudo começa e, portanto, ainda não ganhou a velocidade de cruzeiro, como se diz no espaço aéreo. O fato, aliás como considerava o presidente Juscelino, é que só se pode responder às pressões partidárias realizando-se coisas concretas. Pois ninguém pode prover atendimentos políticos se não fizer nada. Esta condicionante é eterna. Mas para isso é indispensável a competência pessoal e também o espírito construtivo. Uma qualidade sem a outra não leva a nada.

Isso porque o conhecimento humano, na área pública, que é a do governo, não pode se restringir a um exercício de narcisismo, mas sim a de seu ajustamento à visão coletiva. Afinal de contas, a política é o único instrumento possível de realização em favor da sociedade. Se nãose direcionar no sentido do progresso social, nada feito. Todo o seu potencial será esterilizado. E aí não se sai do lugar. Não se sai do lugar só, não. Anda-se pata trás, pois enquanto nada se faz, a população não para de crescer.

A desarticulação a que me refiro, entretanto, não se restringe apenas, o que já seria muito, à formação da nova equipe de governo, nela incluídos os cargos nas empresas estatais. Vai além. Veja-se agora, manchete de O Globo de ontem, a reação do presidente Lula aos cortes no PAC anunciados pelo ministro Guido Mantega, um choque político ruim para a administração que começa a fechar as cortinas do Palácio do Planalto. Sobretudo porque o titular da Fazenda foi confirmado por Dilma no posto. Mantega não tem razão. Ele ainda não assumiu novamente e há um presidente na República. Não poderia tomar a iniciativa que tomou sem consultar um homem chamado Lula da Silva que o nomeou para a Fazend há vários anos. Além do mais, cortar investimentos é a pior solução. Porque não cogita ele cortar as despesas do país com os juros que paga por ano à rede bancária para girar a dívida interna?
O programa de investimentos é de 94 bilhões de reais num orçamento de 1 trilhão e 767 bilhões, como a Secretaria do Tesouro publicou no Diário Oficial de 30 de setembro. A percentagem não chega a 1%. Enquanto isso o desembolso com juros é de 220 bilhões de reais. Onde será mais lógico reduzir? A resposta não é difícil. Difícil é coordenar uma articulação desarticulada. Vamos ver o que acontece.

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