O abandono do ser humano, na visão poética de Paulo Peres e Chico Pereira

Resultado de imagem para o mendigo poema

O que pode justificar o abandono de seres humanos?

Carlos Newton

Os poetas cariocas Chico Pereira e Paulo Peres escreveram este poema em parceria, ou seja, cada um criou uma parte. Nos primeiros versos, o personagem se autodefine perante parte da sociedade que o marginaliza, enquanto que na segunda parte, esta sociedade que o marginaliza passa a utilizá-lo como objeto de promessas, quase nunca concretizadas, nos pseudos programas sociais e ridículas campanhas eleitorais.

O MENDIGO
Chico Pereira e Paulo Peres

Eu broto
igual flor suja, morta… morto…
Eu saio dos bueiros que ficam nos
cantos dos asfaltos
dos grandes centros urbanos

Eu sou o resto,
a sobra da humanidade
sou o filho do erro
ou o próprio erro

Como quem imagina, não vê,
só imagina…
Convivo com o rato
divido tudo com o rato
não tenho visão, nem tato,
audição e nem olfato

Como quem dança numa
breve manhã
como quem emana
do nada
como quem respira
o vazio
como quem espera
um assovio de ninguém…

A minha água é aguardente
a minha companhia é a solidão
a minha vida não é de gente
e a minha fome é ser cidadão

(Chico Pereira)

Eu sou o “outdoor” dos políticos
com promessas ilusionistas
de palavras equilibristas
entre tráficos sonhos trágicos.

Eu sou a sujeira varrida
para baixo dos tapetes
das calçadas, das marquises,
máscara, engano e ferida…

Sou a elite, destino trapos,
silenciosa e letal
das cidades em farrapos,
avesso cartão-postal.

Sou o limite humano
do negativo social,
escravo mundano
poema marginal.

9 thoughts on “O abandono do ser humano, na visão poética de Paulo Peres e Chico Pereira

  1. 1) Bons poemas: nossa indigência não é só econômica, mas social, política, cultural, educacional, escolarizada etc;

    2) Os poucos que se “salvam” desse quadro, justificam a regra.

    3) Licença: em 03/01/1936 nascia no RJ, o escritor e senador Paulo Alberto Monteiro de Barros, jornalista Arthur da Távola, que tive a honra de conhecer na antiga Faculdade de Letras da UFRJ, na Av. Chile, pertinho da antiga Tribuna da Imprensa.

  2. O homem contemporâneo padece de uma profunda frustração. Ele pensou que as maravilhas tecnocientíficas fossem trazer-lhe a tão sonhada autossuficiência, e com ela determinar o fim dos seus problemas existenciais. Ledo engano, sua expectativa surtiu efeito contraproducente, o tiro saiu pela culatra. Pois, à medida que a sociedade passa a depender de parafernálias, mais as pessoas vão ficando robóticas, frias, materialistas, individualistas: quanto mais densa a multidão; maior será a solidão.
    Resta buscar amparo naquele colo abnício da nossa espécie, o Sagrado. Mas este já se encontra privatizado, não nos é mais possível estabelecermos com ele uma relação enteogênica. Sua senha de acesso caiu nas mãos de sacripantas, os quais cobram um preço altíssimo, para o Altíssimo nos encaminhar.
    Porém, nem tudo está perdido àqueles que resistirem à extorsão divina, eles continuarão com Deus, mas ao deus-dará!

    -Mecanismo de Compensação: saber que existe outrem PIOR que nós; isso funciona como uma alavanca da nossa autoestima, da nossa autoconfiança. Ou seja: quanto mais tenebrosa a noite, maior será o esplendor da nossa chispa!

  3. Num país de cultura cristã como os EUA, existe um cinturão de segurança para atender os necessitados, doentes mentais, viciados em drogas e pessoas que preferem as ruas do que a casa dos pais.
    Não faltam abrigos e alimentos para todos.
    Há até casos de mendigos nos EUA que ficaram milionários com a grana que recebiam e foram juntando com o tempo.

  4. “Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.” Artur da Távola

    Hoje, 3 de janeiro, seria aniversário dele – 83 anos. Saudades eternas.

    Artur da Távola
    ‘Uma Perda
    A Carlos Drummond de Andrade

    No meio do caminho tinha uma perda.
    Tinha uma perda no meio do caminho.
    Tinha uma perda.
    No meio do caminho tinha uma perda.

    Primeiro a irmã depois o pai.
    Não sabia que no meio do caminho
    tinha a perda do paraíso
    que me fez bravo.

    Fui só, fui eu,
    fui vida a partir da perda
    que me estava destinada
    no meio do carinho
    de minha mãe solitária.

    Fui perda de mim mesmo
    procurado por toda a vida
    até que achado no poema
    do meu hoje encanecido.

    Tudo porque
    no meio do caminho
    tinha uma perda.
    Tinha uma perda no meio do carinho.’

  5. Essa de se solidarizar com o próximo vem desde milênios e Cristo foi um dos que apontaram essa maravilha que trazemos conosco , mas que muito das vezes não se desperta em nós.

    Por outro lado tem-se o lado hipócrita nesta questão social, que é praticada pela esquerdinha, que usa o sofrimento dos necessitados para chegar ao poder e também por aqueles que nada fazem por eles e, mas de seus confortáveis apartamentos, ficam dando uma de Madre Teresa de Calcutá

  6. O “mendigo” é uma denúncia da situação da miséria humana, que sai dos bueiros,
    “igual flor suja, morta… morto…
    Eu saio dos bueiros que ficam nos
    cantos dos asfaltos
    dos grandes centros urbanos”

    Uma denúncia da desigualdade social e econômica em que vive o homem “Convivo com ratos” bicho nojento. Em “os bichos Manuel Bandeira exclama “Meu Deus era o homem” este bicho.

  7. Por que essa obsessão de querermos as pessoas dentro de padrões estéticos estabelecidos?
    No caso de mendigos, muitos deles tem problemas mentais, mas eles ainda conservam o que a natureza dá a todos, o poder da fala e com ela pedem o que precisam e a maioria das pessoas não lhes negam, pois a generosidade já nasce na maioria das pessoas.
    Lá em cima já mostrei como funciona nos EUA , um país cristão, de como eles são tratados. Comida, abrigo e roupas não lhes faltam. E o mais: o direito á liberdade dessas pessoas viverem do jeito que quiserem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *