O adeus ao amigo Humberto Braga

Pedro do Coutto

Sexta-feira a morte levou o amigo – amigo mesmo – Humberto Braga para a eternidade. Aproximou-se dos 90 anos e exerceu uma vida trepidante, plena de embates e situações difíceis. Mas sempre foi fiel a si mesmo, um intelectual que a política e a administração pública talvez tenham desviado da arte de escrever.

Este site da Tribuna da Internet publicou diversos trabalhos seus de análise dos acontecimentos e das pessoas. Viveu com arrebatamento e intensidade. Era um emotivo. No governo Negrão de Lima foi durante os primeiros quatro anos secretário de Planejamento, que então acumulava a Secretaria de Governo, à qual estava vinculada a Casa Civil. Assumiu o Planejamento como conhecedor da matéria. Nunca falhou. Só deixou o posto para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado.

Como Secretário de Governo coube-lhe a tarefa de enfrentar Carlos Lacerda, através dos jornais, defendendo Negrão de acusações que lhe foram desfechadas. Uma coisa Negrão de Lima não aceitava de modo algum: ser apontado como desonesto. A resposta de Negrão, produzida por Humberto, publicada pelo Globo, em 1965, ficou célebre pelas acusações levantadas de que Lacerda havia conseguido escapar do serviço militar por desvios nada abonadores.

O episódio passou, o ex-governador também. Envolveu-se na maior confusão de sua vida ao investir contra aposse do vitorioso nas urnas, Negrão de Lima, por maioria absoluta. Ao investir contra Castelo Branco visando a torpedear a posse do ex-ministro da Justiça, Lacerda, candidato da UDN às eleições de 66, fez desabar sua própria perspectiva. Criou grande contradição militar e terminou entregando o governo a Costa e Silva, que, para assegurar Castelo, exigiu o fim das eleições diretas. Agora passariam a ser indiretas. Nada melhor para o ministro do Exército com poder para, aproveitando-se da situação, chegar ao Planalto.

Não fora isso, Lacerda provavelmente seria eleito em 66. O pleito já havia sido adiado de um ano, estava marcado para 65, por um voto, do deputado Luis Brinzeado, passou para o ano seguinte. Mas o movimento militar de 64 tinha apenas um líder, era Lacerda. Costa e Silva tornou-se um chefe revolucionário. A ocasião o transportou do Palácio Duque de Caxias ao Planalto.

Lacerda, o verdadeiro líder que derrubou Goulart, terminaria sendo cassado pelo movimento que liderou. A participação de Humberto Braga tornou-se um fator decisivo. Coisas da política, coisas da história. Só uma bola de cristal permitiria que o veterano líder udenista pudesse prever o futuro. Mas se isso valesse em política toso os problemas seriam resolvidos com antecipação.

Mas é exatamente o caráter inquieto das figuras de frente nos combates de ideias que formam a política tão complexa como é. Até deixar o serviço ativo há aproximadamente quinze anos continuou travando sua luta na defesa das licitações públicas. Constantemente recorria à Justiça, para que a lei fosse cumprida. Humberto Braga foi um grande amigo. Era, como disse em outro trecho, um intelectual desviado para o combate sempre em torno da honestidade e da lisura.

Como homem de cultura, seu nome fica eternizado como título do Centro Cultural do TCE-RJ e de sua Biblioteca. A homenagem foi justíssima, nenhum nome melhor entre os integrantes do Tribunal para preencher um espaço que, na verdade, vai muito além do edifício da Praça da República. Fica na história, já que com brilho de seu talento Humberto Braga dignificou seu cargo, o próprio Tribunal a que muito acrescentou, por fim, neste adeus de amigo, vamos reconhecer, dignificou a si mesmo.

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