O alto clero e o baixo clero

Sebastião Nery

Não se falava em outra coisa, aqui em Brasilia, naquele junho de 1964, dois meses e meio depois do golpe e dois meses depois da posse do general Castello Branco na Presidência da Republica: a prorrogação de seu mandato.

Castello tinha jurado diante do Congresso, no dia 15 de abril: “Entregarei o governo no dia 31 de janeiro de 1966, a quem for eleito no dia 3 de outubro de 1965”. Mas no dia 8 de junho cassou logo Juscelino, candidato já lançado. Sobrou Lacerda.

Consultado pelos generais Cordeiro de Farias e Ernesto Geisel, “Castello chegou a ameaçar com sua renúncia, se o Congresso aprovasse a prorrogação à sua revelia”. Tudo farsa. A pedido de Daniel Krieger (UDN do Rio Grande do Sul), líder do governo no Senado, na biblioteca particular de Afonso Arinos, em Botafogo, no Rio, na maior moita, foi redigida, escondido, a emenda da prorrogação, que na hora oportuna seria assinada pelo senador João Agripino (UDN da Paraíba).

O jornalista Hélio Fernandes, amigo íntimo de Lacerda, várias vezes advertiu o governador da Guanabara de que a prorrogação significaria a liquidação da candidatura dele. Lacerda veio a Brasília com o vice Raphael Magalhães e Hélio Beltrão, secretário de Planejamento, conversar a UDN: “Deputados e senadores mostraram-se reticentes”. Na volta, no avião, Hélio Beltrão disse a Lacerda:

– Carlos, o presidente Castelo Branco fala que é contra a prorrogação. A bancada da UDN diz que não tem nenhuma responsabilidade na iniciativa. Mas assim mesmo a emenda vai passar. É um crime sem autoria, cujo alvo é a sua candidatura. Um crime perfeito, enfim.

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VACA FARDADA

Uma tarde, o general Olímpio Mourão Filho saía do gabinete de Castello, no Palácio do Planalto. O veterano repórter Ronan Soares o viu:

– General, o senhor veio tratar da prorrogação do mandato do presidente?

– Meu filho, em matéria de lei sou uma vaca fardada.

Um contínuo acompanhava o general Mourão. Ronan perguntou:

– Você ouviu o que o general disse?

– Não ouvi nada. Sou um boi à paisana.

Castello articulava a seu feitio: embuçado e disfarçado. No dia 18 de junho, almoçou com os cardeais da UDN: Bilac Pinto, presidente, Pedro Aleixo (MG), Paulo Sarazate (CE). À tarde, recebeu no Planalto “a parte da bancada do PSD que não rompera com o governo no expurgo de JK”. A assessoria de imprensa logo informou que, nos dois encontros, Castello “não permitiu que a conversa enveredasse para a prorrogação”.

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LIRA NETO

Em sua excelente biografia de Castello Branco, a mais isenta de todas (“Castello, a Marcha Para a Ditadura”), o jornalista cearense Lira Neto levantou e documentou o dia-a-dia da operação-prorrogação.

No dia 14 de julho, em Belo Horizonte, o governador Magalhães Pinto (que sabia não ter condições de disputar com Lacerda), diante do general Costa e Silva, ministro da Guerra, disse que “não havia clima para o país ir às urnas”. Lacerda respondeu no dia 15, na TV Itacolomi, de Belo Horizonte:

– Em vez das reformas de base, exige-se que o povo não vote, como condição da democracia. Uma parte do Congresso, que votou no presidente Castello Branco por medo dos tanques, agora pretende prorrogar-lhe o mandato por medo do povo.

Lacerda escreveu a Bilac Pinto, presidente da UDN:

“A prorrogação constitui um ato de covardia com o povo e somente beneficia os oportunistas e sinistros aventureiros que novamente se conluiam”.

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O VOTO BÊBADO

“Um dia após a entrevista de Lacerda em Belo Horizonte, o Congresso se reuniu em sessão noturna para votar a emenda. O Senado, com os expurgos, prometia uma votação tranqüila (43 a 6). Na Câmara, seriam necessários 205 votos para a maioria absoluta. A votação era protelada em busca dos deputados faltosos. Já passava de uma hora da madrugada, quando a votação finalmente teve inicio.

“Quanto faltavam vinte minutos para as 5 da manhã, votou o último deputado: 204 a favor, 96 contra. Derrotada por um único voto. A oposição comemorou com palmas e gritos. O senador Daniel Krieger, inconformado, argumentou que, com os expurgos, a Câmara estava desfalcada de 4 deputados e portanto 204 eram maioria”.

Tinham ido buscar o deputado Luiz Bronzeado, da UDN da Paraíba, que estava bebendo em um botequim do Plano Piloto. Chegou aos tombos, votou “não”. Depois consertou, dizendo que tinha votado “sim” e foi registrado “não”.

O alto clero do Congresso, comandado pelos cardeais da UDN, tinha prorrogado o mandato de Castello com um voto bêbado.

Essa é a diferença entre o alto clero e o baixo clero. O alto clero, segundo Lacerda, era um punhado de “oportunistas e sinistros aventureiros que se conluiam” em silêncio. Já o baixo clero se conluia escancaradamente.

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