O amor invencível na poesia de Cruz e Souza

O poeta e jornalista João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis. Era filho de ex-escravos e se tornou conhecido nacionalmente. Quando morreu de tuberculose, seu corpo foi transportado para sepultamento no Rio de Janeiro, onde tinha grandes amigos, como José do Patrocínio. No poema “Inefável”, Cruz e Sousa fala da invencibilidade de sua alma romântica.

INEFÁVEL

Cruz e Sousa

Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda…
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.
Sou como um Réu de celestial sentença,
Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.

Claros, meus olhos tornam-se mais claros
E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!

Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas.              

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

One thought on “O amor invencível na poesia de Cruz e Souza

  1. JOÃO DA CRUZ E SOUSA

    EDNEI FREITAS

    João da Cruz e Sousa nasceu no dia 24 de novembro de 1861 numa localidade (premonitoriamente) chamada Desterro – hoje Florianópolis, filho de Carolina Eva da Conceição, escrava liberta e do pedreiro Guilherme (sem sobrenome), escravo do Coronel Xavier de Sousa, cuja esposa, Clarinda, interessou-se por João ainda no berço: após alguns meses levou-o para casa, praticamente o adotou, manteve, vestiu, educou e mimou em excesso e a tal ponto que os biógrafos afirmam que “foi mal preparado para a vida quando os seus protetores desaparecessem” (Andrade Muricy, 1962).

    O casal Sousa não tinha filhos biológicos e João foi criado como filho único. A configuração parental fantasmática do poeta se completa por força do calendário: ele nasce no dia consagrado a São João da Cruz, frade espanhol humilde e prodigioso, poeta da Transcendência e sábio disciplinado, cuja obra mística enfatiza a experiência de Ser. Voltarei a este tema alguns parágrafos adiante.

    Este encontro casual com São João da Cruz é penetrante e definitivo na personalidade e na obra de João. Em sua adolescência só assinava seus artigos e poesias como João da Cruz. O nome Sousa, que completa a identidade João da Cruz e Sousa também não foi tomado de seus pais biológicos, mas da família senhorial, como era habitual entre filhos de escravos. Sua herança biológica e sensibilidade irão lançá-lo no abolicionismo, havendo realizado por toda parte conferências antiescravistas. O tema repercute em toda a sua obra.

    É importante observar, no que tange à sina personalógica de João, que há uma recorrência de perdas precoces em sua vida, encontrando-o sempre despreparado para assimilá-las, o que faz de sua vida um martírio e este a força propulsora de sua criação. Criado como menino rico, tendo aprendido as primeiras letras com dona Clarinda, já declamava seus próprios versos para o então promovido Marechal Sousa, em 1868, aos sete anos de idade.

    Todavia, o poeta não havia sido feito herdeiro do casal, e a morte levou Clarinda em 1869 e o Marechal em 1870, iniciando infinito e ininterrupto desamparo parental e financeiro a João. A compulsão de repetir perdas precoces o acompanha até o fim: perde o prestígio e a regalia em Desterro, já que era negro, tornou-se pobre, combativo e abolicionista numa cidade provinciana cujas classes dominantes e a economia eram predominantemente escravocratas.

    Sem as “costas quentes” de Clarinda e do Marechal, passou a ser hostilizado pela sua posição política e começa a ser desterrado em sua própria Desterro; perde o cargo de promotor na cidade catarinense de Laguna, pelos mesmos motivos, nem cheganto a tomar posse, embora nomeado; perde o jornal literário “O Moleque” que só resiste um ano; perde a mãe biológica em 1891 e o pai biológico em 1896.

    Em 1893 consegue o emprego de praticante de arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e casa-se com Gavita em novembro, todavia, em 1897 perde a saúde, contraindo tuberculose e perde a vida em 1898. Entre 1898 e 1901 morrem Gavita e três dos seus quatro filhos com ela, todos de tuberculose.

    A perda de Clarinda (nome que segundo Pandiá e Ana Pandu, no livro 7 mil nomes, é diminutivo de Clara – que em latim significa brilhante, ilustre – e é também tirado a Santa Clara, virgem e abadessa fundadora da Ordem das Clarindas) parece, no decorrer de seus poemas, ser a perda que Cruz e Sousa menos assimilou, denunciando a falta da mãe adotiva de forma velada ou ostensiva de começo a fim de sua produção: ora a mulher branca e loura era tomada como símbolo do belo e transcendente e que deveria ser alcançado, ora Clarinda reaparece através de suas paixões transferenciais por belas mulheres alvas, eternizadas em versos; ora evocando-lhe uma saudade inexorável. Vejamos exemplos.

    1. Como símbolo do belo e transcendente:

    ANTÍFONA

    Ó formas alvas, brancas, Formas claras
    De luares de neves, de neblinas!…
    Ó formas vagas, fluidas, cristalinas …
    Incensos dos turíbulos das aras …

    Formas do Amor, constelarmente puras,
    De Virgens e de Santas vaporosas …
    Brilhos errantes mádidas frescuras
    E dolências de lírios e de rosas …

    2. Nas paixões por mulheres alvas

    Conta Andrade Muricy (Revista Interamericana de Bibliografia, Washington, 1962) que “quem transparece em algumas poesias de Cruz e Sousa daquele tempo (1884) é a ‘pianista loura da Praia de Fora’. Degundo depoimento de amigos seus, confirmados pelo de Nestor Vitor, não foi esse o seu único interesse amoroso visando mulher branca e loura”.

    Cruz e Sousa tinha, além disso, gosto pelas belas mulheres, como testemunha Nestor Vitor: “nesse tempo (1885) Cruz e Sousa até se imiscuía na vida elegante da cidade, fazendo concurso de beleza entre as moças, animando teatrinhos particulares, etc.” e, segundo Virgílio Várzea: “gastava todo o que ganhava nas lições particulares que tinha, em trajes variados, finos e bem feitos, pelo que andava sempre muito asseado e bem vestido, despertando ainda, por este lado, maiores odiosidades e invejas”.

    Em um poema desta época, dedicado a Oscar Rosas, fica transparente sua fascinação pela mulher alva, loura, que para além da adorável mania do poeta de ter este gosto, significa também uma busca simbólica e desesperada de Clarinda, que está “Vestida de cor da aurora/ leve dos fluidos da graça/ és uma estrela sonora/ que, em sonhos, pelo éter, passa”. Vou reproduzir, a meu talante, algumas quadras deste poema, cortando outras, para enfatizar este aspecto da busca por Clarinda.

    PAPOULA

    Assim loura és mais formosa
    do que se fosses trigueira:
    corpo de eflúvios de rosa
    com esbeltez de palmeira.

    Resplandece em teu cabelo
    um fulgor de sol doirado,
    que só de senti-lo e vê-lo
    fica tudo iluminado

    Do teu branco leque aberto,
    que lembra uma asa de garça,
    aspiro um perfume incerto,
    talvez a tua alma esparsa.

    Num resplendor de madona
    e altivez de corça arisca
    surges da luz entre a zona
    com quebrantos de odalisca.

    E que os teus dois seios puros
    que o amor fecundando beija
    fiquem cheios e maduros
    com dois bicos de cereja.

    3. Sentindo inexorável saudade de Clarinda

    Ó meu Amor que já morreste,
    Ó meu Amor que morta estás!

    Lá nessa cova a que desceste,
    Ó meu Amor que já morreste,
    Ah! nunca mais florescerás?!

    Duas outras imagens, ainda, vem compor a configuração parental fantasmática de João, que repercutirão em toda a sua vida. A primeira delas é a imagem maternal de dona Júlia, mãe de Virgílio Várzea, seu sócio: o poeta que passara a infância no luxo era festejado como sendo o menino negro, vivaz e talentoso, e sua requintada cortesia sugeriu a dona Júlia que o chamasse, repetidamente, de “fidalgo”. Esta idéia de dona Júlia, introjetada no self de João e refletida em seu comportamento social fez com que, ao longo de sua vida, Cruz e Sousa fosse adjetivado de “petulante”, ou mesmo de “pernóstico”. Seus biógrafos reconhecem sua intolerância para com todos aqueles que lhe fossem dando a impressão de medíocres. Isto, no entanto, lhe custou muito caro, porque fez poucos amigos – aos quais se afeiçoou muito e eternamente – e provocou para si a hostilidade ou indiferença de muitos e, pelo mesmo motivo, só conseguiu precário meio de subsistência, já que na época do Império, mais do que hoje, as oportunidades sociais eram dependentes de conhecimento e simpatia.

    A meu ver, sua postura obstinada, intransigente e intolerante de “fidalgo” tem um sentido fundamental, embora possam agregar-se constelações de outras motivações: o luto não elaborado por Clarinda. Continuar “fidalgo” era a forma mais “eficiente” de negar a sua morte. Esta ideia pode nos iluminar com mais um significado importante na vida e na obra de João da Cruz e Sousa. João sempre pagou muito caro pelas pessoas de quem gostou. Especialmente as mulheres.

    A outra imagem, que é a paterna, soou-lhe mais favorável. O Marechal o protege, proporciona-lhe luxo, adota-o como filho, liberta todos os seus escravos e, enfim, dá-lhe guarida até morrer, em 1870. Mas outro “papai” o acolhe em seu colégio – o irmão de Clarinda. João estudou francês com o pai de seu amigo Oscar Rosas, Latim e grego com o Padre Leite de Almeida, Reitor do Instituto, inglês com Anfilóquio Nunes Pires, matemática e ciências naturais com o sábio alemão Fritz Müller, que o achava seu melhor aluno.

    A compulsão à repetição, aqui, foi muito mais favorável do que aquela vivida com as mulheres.Sendo assim, encontra Moreira Vasconcelos que o retira da atmosfera de desdém em Desterro e o incorpora à sua companhia (Companhia Dramática Ifigênia dos Santos), levando-o a percorrer o Brasil inteiro, o que servirá, mais tarde, para a difusão da influência de Cruz e Sousa no Brasil; mais à frente, conhece a pessoa preciosa de Nestor Vitor, fiel amigo e simpatizante eterno, que embora seis anos mais novo, dele cuidou e sobretudo de sua obra como um pai de verdade, até sua morte, trinta e quatro anos depois da de João.

    Para completar o arcabouço do que podemos chamar de configuração parental fantasmática de João da Cruz e Sousa, é necessário que voltamos a considerar a significação que lhe teve chamar-se João da Cruz, o que nos obriga a transitar pela teoria das Ideias, de Platão e o platonismo de São João da Cruz. Platão achava que acima do mundo das formas ilusórias, mutáveis, em que vivemos, há outro, que é verdadeiro e real – o das Ideias-mãe: aquilo que contemplamos em nosso mundo é apenas o reflexo enfraquecido das verdades essenciais. Para São Boaventura, seguidor de Platão, os objetos concretos que encontramos no mundo nada mais são que sinais da realidade divina e imagens aproximativas e imperfeitas da glória de Deus. As coisas materiais são apenas símbolos da beleza divina e seu valor principal só pode ser encontrado naquilo que de transcendente estas coisas sugerem. Eis aí a raiz do Movimento Simbolista. Tal movimento procura descobrir, através da imaginação e da intuição, a que, no mundo transcendente das idéias, se correlacionam as impressões que nosso sensório tem dos objetos do mundo material.

    A poesia da idade média não seguiu, no entanto, este percurso, isto é, o do símbolo. Deteve-se na alegoria. Explica-nos Bastide que “se ambos são meios de ligação entre a ideia e as coisas, no símbolo parte-se das coisas para ir à ideia, ao passo que na alegoria se parte da idéia para chegar a às coisas. Caso se queira, por exemplo, exprimir, em forma material, a ideia de doçura, notar-se-á que o cordeiro é um animal terno e bom, e o cordeiro tornar-se-á, assim, a imagem da doçura. A alegoria é, portanto, um processo artificial, uma construção do espírito, e fica, por isso mesmo, com coisa fria e estéril. Daí o insucesso da poesia medieval, dos Grands Rhétoriqueurs, por exemplo, ou do “Romance da Rosa”.

    Continua Bastide: “Houve no começo do século XVI uma renascença do platonismo na Itália e depois na França e, consequentemente, para a literatura, nova oportunidade de simbolismo. Tentou aproveitá-la Maurício Sceve.Sua obra é, com justa razão, considerada a primeira forma do Simbolismo e seu nome é o de um precursor. Mas Ronsard e seus discípulos, levando a poesia para os recém-descobertos caminhos da antiguidade grega e romana, pregando a volta à literatura pagã, isto é, a uma literatura que se ostenta com a beleza material das coisas, que com ela goza deliciosamente e que outra não quer conhecer, fez frustrar-se a tentativa de Mauricia Sceve e afastou a poesia do caminho do Simbolismo”.

    E continua: “É agora na Espanha que devemos reencontrar o itinerário interrompido na França. E assim é porque a Espanha se torna a pátria trágica dos grandes místicos. Mais, porém, do que Santa Tereza, que foi estragada do ponto de vista do simbolismo pela influência dos Jesuítas e cuja meditação é uma utilização dos sentidos e da memória, em suma, de nossas funções naturais, é em São João da Cruz que o pensamento simbólico recupera todos os seus direitos. Não certamente porque não encontramos símbolos em Santa Tereza, mas são eles em geral símbolos herdados, tradicionais, como o casamento místico, e principalmente a alegoria domina com os “castelos interiores da alma”. Em São João da Cruz, o símbolo não é uma imagem tomada voluntariamente pelo escritor para descrever sua própria experiência, mas é uma criação estética que é experiência ao mesmo tempo que explicação dessa experiência; é um produto da vida mística e não uma imagem dessa vida: haveria uma tão íntima fusão da imagem e da experiência que não podemos falar de esforço para figurara plasticamente um drama inerior …Não haveria mais tradução por um símbolo de uma experiência: haveria, no sentido estrito da palavra, experiência simbólica” (Roger Bastide).

    São João da Cruz recria o símbolo místico e reedita o lirismo, mas sua influência na literatura fica latente por três séculos. O Movimento Simbolista só vai eclodir no fim do século XIX. O classicismo pagão e naturalista dominou na Europa inteira, até ser alijado pelo romantismo, cujo enfoque afasta-se muito do simbolismo. Sobre os motivos circunstanciais que levaram Cruz e Sousa a escolher o simbolismo como expressão poética – além de sua identificação com São João da Cruz – há expressões muito interessantes de Roger Bastide. Embora eu não tenha como concordar com toda a sua interpretação, por me parecer inverossímil que a a motivação de Cruz e Sousa fosse de natureza racial (quer filogeneticamente, quer por preconceito de cor), há pontos de luminosidade máxima na interpretação de Bastide que nos ajudam a elucidar os motivos cruzesousianos de ascensão ao simbolismo: “Muito jovem, procurava, segundo o testemunho de seus contemporâneos, a solução na atitude distante, superior, hierática e na elegância do costume, sempre requintado. Aqui igualmente o simbolismo lhe permitia realizar, melhor ainda que no Parnaso, essa promessa de aristocratização”

    Estamos de volta à estrutura fantasmática parental de Cruz e Sousa, representada aqui pelas suas duas primeiras mulheres-problema: Clarinda e Júlia. Além dessas motivações, o simbolismo aparece como uma negação do positivismo, do naturalismo e do parnasianismo, contrariando o caráter sistematicamente objetivista destas tendências filosóficas e estéticas.

    A criação do símbolo, no movimento Simbolista, é sentida como uma arte já existente no Cosmos (divina?) a procura de um poeta para experimentá-la. A experiência poética não significa um apelo ao passado (memória) nem mesmo ao futuro (desejo). Memória e desejo integram a dimensão horizontal do tempo, que não é considerada pelo poeta simbolista. O simbolista só trabalha com a dimensão vertical do tempo, que é a eternidade. Em vez de desejar ou recordar, o simbolista cria a partir da reminiscência (dimensão vertical/presença do eterno). O termo reminiscência (anamnesis) vem de Platão e é uma forma mítica do racionalismo, que diz que todo o nosso poder de conhecer a Verdade está na evocação da reminiscência de um estado anterior do qual, vivendo com os deuses, nós possuíamos uma visão direta e imediata das ideias. É o mistério (cósmico? Divino?) em cujas entranhas o simbolista há de penetrar para buscar as essências, como inspiração ou como graça divina, não importa!

    Foi na França, com a geração de 1885, que apareceram os poetas simbolistas e decadentes, empreendendo uma reação contra o espírito positivo, impessoal e objetivo e a forma escultural, clara e precisa da geração parnasiana. Os simbolistas passaram a exprimir as emoções no que elas têm de mais vago, despojando´se da eloquência, procurando a musicalidade das palavras. Emprega-se o mistério para constituir o símbolo. Os objetos não são nomeados, mas apensa sugeridos, para que possam ser adivinhados pouco a pouco, desprendendo-se deles um estado de alma.

    No Brasil, em 1877, Medeiros de Albuquerque recebeu livros dos poetas Verlaine, Mallarmé, Rene Ghil, Stuart Merril e Jean Moréas e, em 1981, formou um grupo de rapazes – Bernardino Lopes, Emiliano Perneta, Oscar Rosas e João da Cruz e Sousa – no Rio de Janeiro, em torno da “Folha Popular”. O nome de Cruz e Sousa impõe-se como o de simbolista maior do Brasil em todos os tempos, embora mereça também destaque Alphonsus de Guimaraens, de raro talento verbal. O início do dimbolismo brasileiro é datado pelos críticos como sendo o ano de 1893, que é o da publicação dos “Broquéis” e dos “Missais”, de João da Cruz e Sousa.

    O simbolismo brasileiro de Cruz e Sousa utiliza os mesmos recursos do francês, que são a imprecisão de contornos e do vocabulário, um conceito mais musical do que plástico da forma e o misticismo que Cruz e Sousa acentua nas expressões do ritual mortuário. Pincemos como exemplo o poema “Cárcere das Almas”:

    CÁRCERES DAS ALMAS

    Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
    Soluçando nas trevas, entre as grades
    Do calabouço olhando imensidades,
    Mares, estrelas, tardes, natureza.

    Tudo se veste de uma igual grandeza
    Quando a alma entre grilhões as liberdades
    Sonha e, sonhando, as imortalidades
    Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

    Ó almas presas, mudas e fechadas
    Nas prisões colossais e abandonadas,
    Da dor no calabouço, atroz, funéreo!

    Nesses silêncios solitários, graves,
    Que chaveiro do Céu possui as chaves
    Para abrir-vos as portas do Mistério?!

    A alma sonha com a liberdade e se reveste da esperança de encontrar a chave do Mistério (transcendente, cósmico, superior, divino) e, com isso, mesmo encarnada, desprende-se dos grilhões que a separam das imensidades, da harmonia dos mares, estrelas tardes e natureza, e a impelem a comungar com o imortal Espaço (na dimensão vertical) da Pureza – que é belo, definitivo e transcendente. Nele, naturalmente, encontra-se Clarinda, que jamais o abandonará: imagens vagas de mares e da natureza têm se mostrado, em psicanálise, símbolos inequívocos da mãe interiorizada – a mãe continente, capaz de entender, tranquilizar, guardar e sobre tudo nomear as ansiedades, aplacando o terror sem nome que o filho sente.

    As prisões colossais e abandonadas são a comunidade brasileira onde Cruz e Sousa vive, constituída de pessoa encarnadas no mundo, com alma, mas ainda indignas da palavra. João sente-se nas trevas, entre as grades, porque fala mas não é entendido: as pessoas não se entendem, sobretudo não entendem, não ascenderam ainda à sua condição superior de humanos, ocupam-se com o que é pequeno e não percebem as imensidades. Vive-se na pré-história. E o poeta, por assim perceber, é um solitário. A chave que abre as portas do Mistério, do entendimento, é sem dúvida a palavra e a poesia. Cruz e Sousa sabia que seria entendido um dia e aí haveria a comunhão pretendida. Mas quando?!

    A carência de entendimento e o sentimento de estar só que fizeram com que Cruz e Sousa se percebesse exilado no mundo: “Ó mundo/ que és o exílio dos exílios/um monturo de fezes putrefacto …” (Cruz e Sousa(. É o exílio de alma, assunto sobre o qual já discorri em trabalho anterior (“Torquato nomeia a agonia do exílio de todos nós”, Jornal do Commércio, Recife, 23/3/97 pág. 9), condição presente em outros poetas brasileiros, como Torqueto Neto, Carlos Drummond de Andrade, ou Antônio Gonçalves Dias.

    Para Cruz e Sousa, é somente a destruição do atraso no entendimento e a fraternidade entre os homens, que ainda são corpo bruto, animal e aí calabouço atroz e funéreo da alma, é que se pode restituir à alma a interação com o Cosmos, o que vai permitir nossa ascensão à Luz das Essèncias. A libertação que busca em “Cárcere das Almas” tem o fim de possibilitar o reencontro com seus entes queridos (as perdas que sofreu, especialmente a mãe e o lar adotivos), com quem espera fundir-se e permanecer em comunhão eterna.

    João de Cruz e Sousa morreu no Sítio, uma estância mineira, em 19 de março de 1896 e seu corpo foi trasladado para o Rio de Janeiro, onde foi enterrado. Conta-nos Carlos Dias Fernandes que “o trem parou, os passageiros despreocupados, descera,; foi mister atingir a cauda do comboio, onde vinha o corpo no chão do carro, sobre uns papéis estendidos à guisa de lençol, sem uma flor, sem uma grinalda, sem uma luz. Foi indescritível a cena de dor desenrolada no vagão sem janelas, sem bancos, onde se transportavam muares e bois para o tráfego e açougues da cidade. No leito sujo, que as bestas conspurcavam, jazia imóvel, pequenino, envolto no seu único terno marrom, o “homem apocalíptico” que tivera sempre um sorriso e um hino para todas as galas na natureza, que cantara a vida, o amor e a morte, com todas as transcendências de sua exaltação iluminada”

    Na estação da Central, para receber o corpo de Cruz e Sousa, apareceram somente quatro pessoas – Maurício Jubim, Tibúrcio de Freitas, Carlos Dias Fernandes e Nestpr Vitor. José do Patrocínio chegou depois, e foi quem, generoso, mandou fazer o enterro.

    Ednei José Dutra de Freitas

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