O anão nos ombros do gigante

Carlos Chagas

Foi o Padre Antônio Vieira quem primeiro referiu-se à imagem, ainda que certamente percebida muito antes nessa permanente aventura da inteligência humana. Talvez os gregos, os egípcios ou os babilônicos, para não falar dos chineses, tenham chegado primeiro a essa evidência. De qualquer forma, o polêmico jesuíta deixou escrita a certeza de que um anão, colocado sobre os ombros de um gigante, vê mais longe, no horizonte.

O Lula, de colossal estatura, percebeu chegada a hora da renovação, ainda que sem alterações de rumo. Primeiro, apostou em Dilma, agora em Haddad, antecipando o sentimento de um eleitorado ávido de mudanças, especialmente quando promovidas por ele. Aplausos para o gigante, que continua perscrutando o futuro com muito mais capacidade do que seus companheiros, dada sua inegável altura.

O problema é que os ombros do Lula estão à disposição de muitos pigmeus sequiosos de olhar mais adiante. Um deles acabará assentado em seus omoplatas e surpreenderá todo mundo ao exclamar, espantado, que lá no horizonte delineiam-se contornos diversos e até conflitantes com as intenções, planos e certezas do atua detentores do poder de fato.

Impossível definir, por enquanto, o que 2014 nos reserva. Pela visão do gigante, a reeleição de Dilma, a eleição de governadores petistas e de aliados na maioria dos estados. Também um Congresso majoritariamente afim com seus postulados e a preservação da maioria do eleitorado em favor da manutenção das diretrizes por ele estabelecidas.

Só que qualquer anãozinho poderá enxergar diferente, desde que consiga subir nas costas do gigante. Quem garante que o país não se encontra esgotado por tantos anos de um modelo que até agora deu certo, mas desgastou-se, capaz de ser atropelado e substituído por outro mais acorde com as necessidades e com o pensamento popular?

A ascensão das classes menos favorecidas a um patamar socialmente mais justo despertou não apenas melhores condições econômicas para elas. Os novos tempos vem ensinando o povo a pensar. A reivindicar, não mais lá de baixo, dos porões da miséria, mas de patamares superiores, escorados pela educação e o conhecimento. É essa nova classe média que surge em condições de ultrapassar dogmas antes infalíveis, agora questionáveis.

Por que, apesar da elevação das massas, continua cruel a divisão de renda no país? De que forma aceitar elites dedicadas ao roubo e à corrupção, mas ainda definindo os destinos nacionais? Como permitir, no governo, a presença de parasitas antigos e novos, daqueles interessados em locupletar-se através de nomeações fajutas e de negociatas vergonhosas?

Admitir quadrilhas sugando os cofres públicos? Penalizar a população por meio de impostos indecentes quando bilhões são enviados a paraísos fiscais e para os caixas de multinacionais empenhadas na exploração de nossas riquezas? Aceitar o diálogo da guilhotina com o pescoço nas relações entre patrões e empregados? Ou a livre competição entre quantidades distintas, onde sempre prevalecem as imposições dos fortes contra os fracos?

O gigante olha o horizonte com a certeza do dever cumprido e a expectativa de continuar vislumbrando o sucesso de suas realizações, mesmo promovendo as renovações necessárias à continuidade de sua obra. O anão postado em seus ombros, ao contrário, vê a tempestade próxima.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *