O auto-retrato pantaneiro de Manoel de Barros

O advogado, fazendeiro e poeta matogrossense Manoel Wenceslau Leite de Barros mostra-nos que a natureza é sua fonte de inspiração, o Pantanal é a sua poesia, uma vez que para criar seus versos, parte de experiências vividas, transformando-as a partir da sua imaginação em poemas, entre os quais “Auto-Retrato Falado” merece destaque na sua obra literária.

AUTO-RETRATO FALADO
Manoel de Barros

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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