O carnaval da democracia

Vittorio Medioli

Infelizmente, nos acostumamos a práticas detestáveis. Normalmente, as figuras de proa da política nacional se dirigem e se pautam em consideração aos analfabetos morais e funcionais. Essa maioria que sofre de diferentes indigências (e paga por isso) escolhe presidente, governadores, senadores, prefeitos e ainda um grande número de deputados e vereadores.

Esse é a realidade. A consequência, justa ou cruel, da democracia é que seus governantes refletem o que a sociedade é, e nenhum político ousa questionar.

Um meu ex-colega definiu o Congresso Nacional como um “Brasil enlatado”, uma espécie de concentrado dos processos que passam pelas urnas.

A matéria prima para produzir geleia de ameixas é ameixa, de tomates já é outra coisa a ela relacionada. A sociedade se concentra e se “enlata” nos partidos e nos políticos que a representam.

Culpar senadores pela eleição de Renan Calheiros é como culpar as balas que fuzilaram um condenado, esquecendo que atrás delas tem quem acionou o gatilho. Responsabilizar a maioria da sociedade que votou na maioria dos senadores que escolheu Renan é mais realista que achincalhar senadores. A sociedade se faz representar por um tipo de senadores que, por sua vez, escolhe aquele com o qual se faz representar. A decisão se remete sempre ao voto democrático, origem de tudo. Renan é uma “emanação” do Brasil democrático.

Se uma substância de grau em grau se concentra como na geleia de ameixas, não há dúvida. Renan é o concentrado do Brasil que cabe na “lata” do senado e, ainda, serve-lhe de rótulo. Duro dizer que essa figura é um destilado democrático. Que horror é essa democracia?

DEMO E DEMÔNIO

Pois desse resultado perturbador até as milenares desconfianças de Platão tem pouca distancia. Ele condenava a democracia, “demo” mais “kratos”, igual governo do demo ou do povo.

Platão usava o exemplo das especializações. Será que um médico deve ficar subordinado a uma decisão da maioria dos leigos para tratar dele e dos outros? Obvio que não. Mas as analogias entre demo e demônio fazem da geleia democrática algo pouco coerente. Por isso Platão auspiciava o rei-filósofo, uma pessoa que em primeiro e único lugar tinha preparo moral, intelectual e amor incondicional para consigo e com os outros, no melhor e mais elevado dos sentidos. Apenas quem é movido por essa essência pura do “Bem” poderia dar certo na condução de escolhas e decisões comunitárias.

Seria esse rei um concentrado de perfeição, mas infelizmente o voto da maioria é somatória e concentrado das imperfeições que carregamos como humanidade. Onde entra a carne e o interesse, aí está o demo. Anjo é outra coisa.

Em comum demo e demônio tem o sentido de pertencer a parte inferior de uma hierarquia, organização vertical que leva a Deus.

A democracia pouco evoluiu, se parece como uma pirâmide invertida, portanto, um objeto que tenta se equilibrar de cabeça para baixo. Caberia nessa tentativa abstrata e absurda, a base da pirâmide ficar no vértice. Mas ela, base, enxerga o que é melhor? A dúvida se arrasta desde a grande obra de Platão, “A República”, e serve de reflexão sobre o limite e as incongruências do nosso sistema. O rei-filósofo continua a morar na utopia. O demos – instinto primordial – é que manda.

Defender democracia, depois das tristes aristocracias que fracassaram, parece defender tiranos demagogos – aqueles hábeis em conquistar o apoio da maioria, custe o que custar – e inábeis a governar pelo bem de todos.

Contudo, podemos manter a fé, e não ter pressa. Nada é eterno, não há sofrimento que dure para sempre. Até a chegada em outro reino, precisa fazer por merecer.

(Transcrito de O Tempo)

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