O carnaval do poder

Sebastião Nery

Meses depois da renúncia, Jânio Quadros voltou da Europa e em 62 se candidatou a governador de São Paulo, com um slogan do saudoso deputado baiano, cassado em 64, João Doria: “A renúncia foi uma denúncia”.

Luís Lopes Coelho, presidente do Barzinho do Museu, em São Paulo, reuniu alguns intelectuais e jornalistas amigos, de São Paulo e do Rio, na casa dele, para uma conversa com Jânio: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Mário Neme, Darwin Brandão, outros. Jânio estava alegre. Até que Darwin perguntou:

– Presidente, o senhor prometeu que, quando voltasse da Europa, denunciaria as “forças ocultas” que o levaram à renúncia. Quais foram?

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JANIO QUADROS

Jânio ficou furioso:

– Meu caro Darwin, não falei em “Forças ocultas”, mas em “Forças terríveis”! É o que disse. E mantenho. Forças muito poderosas!

Revirou os olhos e se calou. Pegou o uísque, levantou-se, chamou Paulo Mendes Campos a um canto:

– Meu caro Paulinho, quero dizer-te uma coisa. Não é fácil renunciar a tanto poder. O presidente, neste País, meu caro Paulinho, é um rei. Fui um reizinho! Um reizinho, Paulinho, tu o sabes!

A reunião acabou. Sobre renúncia, nada. Nunca. Morreu sem explicar.

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HELIO DUQUE

Cada poder tem seus carnavais. O de Lula era criar pomposas mentiras, que os jornalões e TVs, cevados por inconfessáveis verbas de propaganda, repercutiam. O professor Helio Duque, doutor em Ciências Econômicas e ex-deputado do MDB e PMDB do Paraná, denunciava em março de 2011:

1. – “Massacrantemente jornais, televisões, rádios e figuras públicas veem festejando o surgimento da “nova classe média”. No apogeu do totalitarismo nazista o ministro da Propaganda dizia que a mentira repetida torna-se verdade. Aqui não é diferente. O aparelhamento dos órgãos de pesquisa sócioeconômica estatais, aliado ao silêncio da universidade por motivação ideológica, agregado ao despreparo da oposição política em questionar com competência, criou-se um mito que não se sustenta”.

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JESSÉ SOUZA

2. – “Felizmente, nesse cenário de engajamento militante no “nunca antes na história desse país”, o sociólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza, resolveu desmistificar o mito. Coordenador-geral do Centro de Pesquisas sobre Desigualdade Social daquela universidade e autor do livro Os Batalhadores Brasileiros, considera equívoco mortal falar em “nova classe média no Brasil”.

“Em verdade, o que vem surgindo é uma classe social diferente, que chama de “batalhadores”. A ascensão social de 30 milhões de brasileiros nos últimos anos é importante, mas está muito distante essa classe de “batalhadores” de ser classificada sociologicamente de “classe média”.

O sociólogo é objetivo: “A classe média é uma das classes dominantes em sociedades como a brasileira porque é constituída pelo acesso privilegiado a um recurso escasso de extrema importância: o capital cultural. Seja sob a forma de capital cultural técnico, como tropa de choque do capital (advogados, engenheiros, economistas, administradores, médicos, etc.), seja pelo capital cultural literário (professores, jornalistas, publicitários, etc.), esse tipo de conhecimento é fundamental. Tanto a remuneração quanto o prestígio social são consideráveis.”

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“BATALHADORES”

3. – Ao negar o conceito de nova classe média, o professor Jessé Souza, que é também livre docente em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), enaltece a ascensão social dos “batalhadores”:

“A vida deles é marcada pela ausência de privilégios de nascimento que caracterizam as classes médias e altas. Os “batalhadores”, em sua esmagadora maioria, precisam começar a trabalhar cedo e estudam em escolas públicas de baixa qualidade. Compensam a falta de capital cultural e econômico com esforço pessoal, dupla jornada e aceitação de todo tipo de super exploração de mão de obra. Precisam matar um leão por dia.”

 

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