O caso da Escola Base e a investigação do assassinato do menino Bernardo Boldrini

Carlos Newton

No mês passado, o educador Icushiro Shimada morreu de infarto em São Paulo, mas a imprensa fez questão de ignorar o fato. Não saiu nos telejornais da Globo, SBT, Bandeirantes, Cultura, TVE (Rede Brasil), nem foi publicado nos grandes jornais, mas merecia o mesmo destaque com que destruíram a vida de Shimada, ao denunciá-lo como um perigoso maníaco sexual, que seviciava criancinhas no jardim de infância da Escola Base.

O episódio, ocorrido há 20 anos, ficou conhecido como o “caso Escola Base”. Os jornalistas acreditaram na versão do delegado de polícia Edelson Lemos e noticiaram, com estardalhaço, denúncias infundadas de pedofilia na escola. O delegado, por sua vez, confiou no laudo da Dra. Eliete Pacheco, setor de sexologia, do Instituto Médico Legal, nos seguintes termos:

“Referente ao laudo nº 6.254/94 do menor F.J.T. Chang, BO 1827/94, informamos que o resultado do exame é compatível para a prática de atos libidinosos”.

Somente um mês depois constatou-se que a denúncia dos pais era uma farsa e o resultado do exame não era conclusivo, apenas “compatível”. Mas a polícia havia destruído a vida dos acusados e principalmente seu trabalho, sua escola, que foi saqueada e destruída pelos vizinhos.

ORDEM JUDICIAL

Detalhe: a imprensa somente divulgou o erro por imposição de ordem judicial, ainda assim de forma discreta, limitada, sem destaque. Shimada já estava viúvo. Sua mulher morrera de câncer, poucos meses após o escândalo.

Vinte anos depois, em fevereiro deste ano, o SBT foi condenado a pagar R$ 100 mil de indenização por danos morais a Shimada e aos antigos sócios da Escola Base, que ficava no bairro da Aclimação, em São Paulo. E as outras emissoras e jornais? Pagaram alguma coisa? Quem se interessa por isso?

Esse gravíssimo erro policial e da mídia somente ocorreu porque desrespeitaram a velha máxima jurídica de que “todos são inocentes, até prova em contrário”.

O CASO BERNARDO

Na investigação do assassinato do menino Bernardo Boldrini, que ainda está em curso, embora a Justiça já tenha aceitado a denúncia, não há provas concretas contra o pai, o cirurgião Leandro. E as evidências são de que ele não teria participado. Primeiro, porque se o pai estivesse participando, porque a mulher dele (Graciele) precisaria arranjar uma cúmplice (Edelvânia) e lhe pagar 6 mil reais para ajudar no crime, prometendo ainda quitar o apartamento que ela havia comprado recentemente? E o médico ainda deu à cúmplice da mulher uma receita de medicamento controlado, que é facilmente identificável. Ele mesmo, que é cirurgião, poderia dopar ou matar a criança sem muita dificuldade e sem precisar de cúmplice.

É lógico que teria sido muito mais simples e seguro cometer o crime sem cúmplice. Pensem nisso e raciocinem se existe ou não a possibilidade de o médico Leandro Boldrini acabar condenado como assassino do filho, quando merecia ser punido apenas por ter sido um péssimo pai, o que também é um crime muito grave, mas está longe de se equiparar a um assassinato premeditado e com requintes de crueldade.

Se ele participou ou não, é preciso provar. Já estão dizendo que ele matou também a primeira mulher, cujo inquérito concluiu por suicídio. Daqui a pouco vão dizer que ele matou também Aida Curi e Dana de Teffé…

12 thoughts on “O caso da Escola Base e a investigação do assassinato do menino Bernardo Boldrini

  1. Percebe-se neste tema que tu voltas a postá-lo, Newton, sobre o assassinato do Bernardo, que o blog tem duas tendências:
    Aqueles que abordam a questão através do sentimento paternal, e os que analisam o crime tecnicamente.
    Observa que meus comentários a respeito não foram com base na existência de provas ou não, mas no aspecto da negligência do pai.
    Quanto à análise do Direito, temos especialistas (tu és um deles) que devem comentar sobre este caso escabroso.
    Entretanto, a opinião sobre a culpabilidade do pai de Bernardo está formada pela maioria, pois é unânime que houve falhas graves no convívio com o guri, que se ressentia da falta de atenção de seu genitor.
    Fundamentado neste particular, fui enfático ao afirmar que eu o condeno, independente de detalhes comprobatórios a respeito da efetiva participação do médico na morte do seu filho.
    Inclusive, deve ser considerado que o pai tem curso superior, médico, uma pessoa inteligente, que poderia muito bem arquitetar um plano onde seria muito difícil incriminá-lo.
    Pessoalmente acredito no seu envolvimento. Acho que o filho era um entrave na sua nova relação, um elo com o passado muito forte, que iria acompanhá-lo por muito tempo.
    Eliminar o guri seria o rompimento deste vínculo, a porta que se abriria plenamente para a sua “felicidade”, e da sua recém constituída outra família.
    Enfim, eis a morte de um inocente, imolado para que adultos pudessem viver “melhor”, livres da sua presença, que pedia por um pouco de carinho e atenção, tão somente.
    Mais um caso abominável que creditamos ao momento atual, da busca incessante e irracional pelo alegria sem compromisso, responsabilidades, obrigações.
    A meu ver, temos de nos preocupar bem mais com esta situação inaceitável de filho matar os pais, de pais matar os filhos, pois estamos retornando céleres à barbárie, à falência da qualidade até então inata dos humanos, que é o amor pelos seus filhos e destes pelos pais.
    A perda deste sentimento na própria família mostra o ser humano programado para somente atender seus apelos de ordem material, desvencilhando-se de qualquer outra forma de aproximação com os seus ou de manter a unidade necessária no meio familiar.
    Se a família está sendo ameaçada, devemos compreender que todos nós corremos sérios riscos de se desmantelar a célula da sociedade e, em consequência, a sua extinção!
    Quanto à tragédia que vitimou os donos desta escola, o sofrimento que viveram diante das falsas acusações, o exemplo que deixou da incúria humana não foi o suficiente.
    Esta semana que passou tivemos dois episódios semelhantes, que também levaram à morte seus protagonistas:
    A mulher confundida através de um retrato falado pela rede social que foi linchada, e o coitado que corria nu e que se pensou que era um estuprador, e que teve o mesmo trágico fim.
    Sede de justiça que tem o povo ou estamos no limiar da loucura?!

  2. Perdão, esqueci mais esses sintomas de loucura que se avizinha:
    Os ônibus incendiados com as pessoas dentro, sem poderem sair; os criminosos que arrastaram aquela criança com o carro em alta velocidade; a morte pelo “microondas” que os traficantes usaram contra Tim Lopes e aplicam contra seus inimigos; o maluco que esquartejou a namorada; a mulher que se desfez do marido japonês em pedaços, o dono da Yoki …
    E assim caminha a Humanidade.
    Para onde?!

  3. “Loucura, loucura, loucura…” Acreditem, o velho bordão do Huck está mais atual do que nunca. Não foi por acaso que Huck adotou esse bordão. Se presente no caso o fator loucura por “dinheiro”, se foi o pai que matou a mãe, ou a levou à morte, a próxima vítima dele seria mesmo o filho (questão apenas de tempo e oportunidade). E se foi ele o mentor ou indutor da morte do filho foi ele que fez o mesmo em relação à mãe, apenas com instrumentos diferentes, a menos que a assassina tenha praticado uma vingança terrível contra o pai e o menino, tirando a vida do filho. Uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa, como já dizia o filósofo Farinácio. Cada caso é um caso, com sintomatologia própria. Esqueceram-se de citar o caso da quenga que fazia ponto frente a um casarão abandonado onde recolhia transeuntes, clientes eventuais, até que alguém da vizinhança cansado daquilo, acionou a polícia noticiando “estupro”, que chegando ao local pegou o “estuprador” atolado até as batatas da terra na quenca, que gritava mais, mais mais, mas que ao perceber a chegada da polícia passou a gritar, socorro, socorro, sendo que na sequência, de quebra, chega a quenga-mãe, tão fiteira quanto a filha, gritando e dando até bolsadas no eventual comprador de sexo venal, barato e fácil, preso em flagrante, para só mais tarde, na delegacia, descobrir-se a realidade da situação e do ponto de putaria do qual, assim, a vizinhança acabou se livrando. Outro caso é o do açougueiro que, de madrugada, ainda escuro, desossando carne dentro de seu açougue, ouviu gritos desesperados de socorro de sua vizinha, e, com a faca na mão, ato contínuo, correu pelos fundos, pulou o muro, chegou à cozinha da casa onde encontrou a vizinha ao chão, morta a facadas, e, então atordoado com a cena com a faca ensanguentada na mão, sem saber o que fazer, tb ato contínuo, passou a ouvir os gritos da vizinhança: ” assassino, assassino, lincha, lincha…”, sendo preso em flagrante, com a chegada da polícia, que de pronto o colocou no xadrez, onde chorava copiosamente e jurava inocência ao então Promotor (Dr. Marcelo Fortes Barbosa/SP ) que por uma faísca divina resolveu ouvir a sua história. Feito o exame do sangue na faca do açougueiro constatou-se sangue bovino e não humano, de modo que de fato não poderia ter sido o açougueiro o assassino, sendo que o assassino jamais fora encontrado, assim como o corpo de Dana de Teffé tb não foi, por mais que Cony , Carlos Newton, entre outros, jamais tivessem desistido de cobrar providências no caso, durante décadas. E as dúvidas permanecem, Dana de Teffé fora de fato assassinada ? Terá sido mesmo o “Advogado do Diabo”, o autor do homicídio ? Será que o Advogado, no caso Dana de Teffé, foi mais esperto do que o próprio “Diabo”, que ajuda a fazer mas não ajuda a esconder ? Mistériooosss… Voltando ao “Caso do Menino Bernardo”, o que fizeram contra esse garoto indefeso (do qual recebi a visita num sonho há dois dias me pedindo para ajudar a conter a violência neste país), não foi pouca coisa não, pelo contrário, foi muita coisa: foi um enorme sinal de que, mentalmente, estamos todos doentes, muito doentes, uns mais outros menos, e que este estado de coisas, e “coisos”, ditado há 125 anos, pelo gollpismo-ditatorial e pelo partidarismo-elleitoral, velhacos, a serviço do capital velhaco, precisa ser mudado, completamente.

  4. Excelente texto. Em relação ao papel da “grande mídia” em episódios desta natureza, a condenação do ZÉ DIRCEU prova que pouco ou nada mudou.

  5. Caro Jornalista,

    O assassinato bárbaro deste casal da Escola Base não mereceu reportagens na imprensa. Nem mesmo um artigo do Santayana…

  6. O que me deixa pasmo, sao esses leitores de panfletos nunca terem lido, um Santayana que foi dos poucos Grandes jornalistas a bradar, contra o “serviço” do delegado de policia no inquerito da Escola Base.
    Faltou Santayanas na epoca, para evitar aquele linchamento.

  7. Os 100 mil de indenizacao da Escola Base significam, depois de 20 anos, R$ 416,66 por mes (100.000 ÷ 240 meses). Ridiculo. Melhor parte da pena eh saber que o principal responsavel estah mofando numa reparticao paulista, mas para as vitimas eh muito insuficiente.

  8. Sei não…
    O fundamental, que é o seu direito terminar onde começa o meu, já era…
    Educação, respeito, civilidade e patriotismo, daqui há mais um pouco, só iremos encontrar em livros que muitos não irão abrir ou não vão ler, em tempos de tecnologia e do comportamento politicamente correto.
    Daí que, igualmente, desinformação, humilhação, violência e barbárie passam a ser irrelevantes no contexto da pura e total ignorância, deixando que predomine a leniência para as verdadeiras crueldades que só ser humano é capaz de imaginar e executar.
    Loucura ?
    Somos humanos…

  9. Brilhante vitória ocorreu com a nova lei anti palmada. Alguns criticaram essa lei, mas, ela não é uma lei anti educação, é apenas anti palmada. A educação, a boa educação permanece. Isso é importante. O Bernardo sofreu muito, e foi uma vergonha para a sociedade tudo o que ocorreu. Me sensibilizei muito com um vídeo postado no You Tube com o tema “Homenagem a Bernardo Uglione”. Ali está exatamente o perfil do Bernardo, numa linda homenagem. Parabéns à todos que ajudaram o Brasil a acordar, seja nas redes sociais, nos fóruns, nas mídias. É a prova de que com a sociedade unida, podemos mudar as leis.

    • Se a promotoria e o juiz tivessem honrado seus misteres o garoto estara vivo.
      Coincide tambem com o casoos dos irmaos que procuraram guarida nas nossas instituicoes e encontraram a morte e esquartejamento.
      Essas instituicoes nao Podem continuar passando incolume a essas perdas de vidas.

  10. Pelo amor de Deus, vamos separar bem as coisas…que provas querem ainda para ter certeza do envolvimento do pai de Bernardo na morte do garoto?! Um vídeo dele premeditando o crime com a madrasta?! Esse homem ja havia matado essa crianca diversas vezes enquanto viva…sabe-se o que eh uma crianca de 11 anos entrar num fórum sozinha para pedir por uma outra familia? Implorar por amor sentado no colo da Promotora de Justiça? Sim a justiça falhou, nao tenho duvida…mas considerar , fazer comparações sugerindo duvida por parte do “pai” desse menino eh no mínimo ingenuidade, nao vamos comparar esse crime que esta escancaradamente obvio com situações que envolveram calunia e difamação enganosas que geraram tragédias citando como exemplo esse dessa moca linchada por engano…

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