O conhaque de Bárbara

Sebastião Nery

RIO – Varsóvia era uma cidade-martirio. Numa madrugada branca, toda pingada de neve, naquele já quase inverno de 1957, o velho motorista de táxi, olhos azuis e cabelos fogueados, ia me contando coisas de sua vida, entre o restaurante Krokodila e o hotel Bristol. De repente, a praça imensa, quadrada, seca, vazia, absolutamente vazia, como um pedaço de deserto caído sobre a cidade, com um discreto monumento negro ao centro.

A rendição no gueto de Varsóvia

– O que é isso, esta praça estranha?

– Aqui foi o gueto de Varsóvia. Aqui perdi pai, mãe, irmãos, filhos, a família inteira. Aqui vivíamos, nós, os judeus. Em 1943, cansados do cerco de Hitler, indignados com as perseguições, violências e assassinatos diários cometidos pelos nazistas, explodimos. Fizemos um levante armado, um desesperado suicídio. Fomos arrasados pela superioridade militar dos nazistas. Sobramos poucos, pouquíssimos. Fui um deles.

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O GUETO

Arrastando seu francês cansado, o velho motorista de Varsóvia parou o carro pequeno de quatro lugares, saltou, chegou junto ao monumento e passou as gordas e avermelhadas mãos sobre a pedra negra, como se alisasse o rosto inútil dos pais, irmãos e filhos mortos. Tremi de frio e angústia na madrugada branca de Varsóvia vendo aquele homem encardido de desesperanças acarinhando a saudade de tudo que ele foi e a vida dilacerou nas garras da violência, do radicalismo, do racismo.

Cheguei ao hotel, comecei a escrever uma série de indignadas reportagens sobre os crimes de Hitler contra os judeus: Treblinka, às margens do rio Buz, onde foram cremados os heróis do gueto de Varsóvia; Auschwitz, hoje museu da loucura dos homens, onde 3 milhões de judeus, 180 mil franceses, holandeses, russos, foram massacrados e queimados. Os campos todos da ignomínia da barbárie nazista visitei e descrevi com a repulsa irada de minha juventude agredida.

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VARSÓVIA

Era 1957. A guerra acabara só há doze anos. Fui dos primeiros jornalistas brasileiros a descrever e denunciar os campos nazistas de extermínio, que executaram a monstruosidade do Holocausto.

Guardei para sempre a certeza de que, na dura briga do homem pela existência, uma coisa não se justifica: a agressão pelo preconceito, a violência em nome do bem. Não longe do hotel Bristol, havia um pecado instalado. Um bar de nome inconfundível, Krokodila, com cara e fumaça de cave existencialista de Paris, naquela cidade arrasada pela guerra.

Lá, a um canto do Krokodila, toda noite, tomando conhaque da Geórgia, uma estudante de arquitetura com cara de pecado, Barbara Slanka, pulôver vermelho de gola rolê e calça preta. Ia ficar uma semana em Varsóvia, fiquei varias, naufragado nos olhos verdes de Barbara.

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JUDEUS

Uma noite, na véspera de vir embora, no quarto miúdo onde Barbara morava, já de madrugada, eu lhe pedi que bebesse menos. Barbara sorriu um sorriso triste de guerreiro que perdeu a batalha :

– Somos judeus. Meu avô morreu numa guerra da Alemanha com a Rússia. Meu pai morreu numa guerra da Alemanha com a Rússia. Eu sei que vou morrer numa guerra da Alemanha com a Rússia. O conhaque ajuda a esquecer isso. E vai me ajudar também a esquecer você.

No dia seguinte, Barbara ficou lá na estação do trem para Praga, dando adeus, com seu pulôver vermelho, sua gola rolê, sua calça preta e os olhos verdes cheios de lagrimas. Em 1991 voltei a Varsóvia só para dizer a Barbara que ela não morreu numa guerra da Alemanha com a Rússia.

Não a reencontrei.Toda vez que explodem novos conflitos entre Israel e Palestinos, o coração me dói lembrando as mãos gordas do velho motorista do gueto de Varsóvia e os olhos desesperançados de Barbara.

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GAZA

Na semana passada, o “Globo” contou na pagina 2:

– “O foguete que matou Ahmed Al-Jabari (comandante militar do Hamas na Faixa de Gaza) acendeu o sinal vermelho nas redações mundo afora. O ataque muito provavelmente desencadearia uma escalada. Dois dias depois, a chuva de foguetes de lado a lado trouxe de volta o temor de uma nova guerra, como a de 2008”.

A “Folha” disse também na pagina 2:

– “Hamas deflagra (sic) mais um confronto com Israel, que responde (sic) com força. As ações do Estado judeu são uma resposta (sic) ao lançamento de foguetes contra alvos israelenses, que são inadmissíveis”.

O “Globo” falou a verdade. A “Folha” mentiu despudoradamente. O mundo todo viu que quem começou a escalada foi Israel, assassinando o líder militar de Gaza. A “Folha” soma: 155 palestinos e 5 israelenses mortos.

Toda véspera de eleição em Israel é a mesma coisa: bombardeiam ou invadem Gaza. Israel só esperava as eleições norteamericanas passarem para bombardear Gaza. 70 anos depois, Gaza é o gueto da Palestina.

sebastiaonery@ig.com.br

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