O conjunto não é igual à soma das partes

Pedro do Coutto

A frase “o conjunto não é igual à soma das partes é de Einstein” e integra um dos capítulos da Ciência da Função, um de seus últimos livros escritos em torno de 1950, fase final de sua vida. Ele morreu em 55 aos 75 anos de idade. Um dos grandes pensadores da história universal, seu cérebro foi objeto de exames e mais exames. Nada de diferente –concluíram outros cientistas- do cérebro de pessoas comuns. O conjunto não é igual à soma das partes. Uma coisa é a situação estática. Outra  mesmo objeto em movimento.

Penso que a definição de Einstein ajusta-se perfeitamente também ao futebol e estou me lembrando dela porque li o artigo de Tostão sobre as convocações de Dunga, Folha de São Paulo, edição de 12 de maio. Uma seleção – disse o tricampeão de 70, que a meu ver integra o selecionado brasileiro de todos os tempos – não deve estar pronta antes da hora. As grandes seleções –acrescentou – são as que se tornam grandes durante a competição. Surpreendem e encantam.
O encantamento – digo eu – não faz parte do calendário do treinador que, a seu favor, possui na bagagem a conquista da Copa América e da Copa das Confederações. A mim parece que ele arma o time à sua imagem e semelhança. Daí a exigência da aplicação total, de amor à camisa, de desenhos táticos e estratégicos prévios. Tudo bem, ele tem resultados em seu crédito. Possui também o título de tetracampeão do mundo, no escrete de 94, de Parreira e Zagalo. Um futebol mais defensivo que criativo, à base da ocupação de espaços. Daí a convocação de Kleberson, peça-chave do esquadrão na vitória de 2002. Alguém que ataca e participa ativa e empenhadamente das ações defensivas. Não se sabe, entretanto, se Kleberson 2010 ainda é o Kleberson da Copa do Japão. Fomos campeões vencendo a Alemanha na final, por dois a zero, dois gols de Ronaldo Fenômeno. Mas esta é outra questão.

Os esquemas rígidos em futebol não funcionam dentro das regras de projetos originais. O imponderável entra em campo. Ele não torce nem é justo. Apenas acontece, disse Tostão. O imprevisto, acentuo eu, é o essencial. Porque o futebol é uma janela aberta sobre o infinito. Os espaços e as situações são objeto de disputa a todo momento. Além do mais, trata-se do único esporte em que a tática pode neutralizar a técnica e até a arte, como aconteceu em 1950, na final entre Brasil e Uruguai. Primeiro quatro-três-três da história, o meio campo uruguaio, sob o comando de Obdúlio Varela, herói da partida, voltava para defender. O nosso não.

Homens da meia cancha como Danilo e Jair da Rosa Pinto não recuavam para dar cobertura ao lateral Bigode, que vinha sendo ultrapassado por Gighia seguidamente. Aliás a esse respeito, em matéria de atacar e defender, devemos levar em consideração que as equipes do passado atuavam com onze jogadores. As do presente com quinze. Absurdo? Não. Dois laterais, hoje, ao mesmo tempo zagueiros e pontas. Dois homens do meio campo avançam para atacar, recuam para defender. Temos aí, portanto, duas duplas ocupações de espaço. Fisicamente são onze peças. Em movimento quinze. E o conjunto continua não sendo igual à soma das partes. Isso de um lado.

De outro, nem todos os craques em seus times repetem o desempenho quando no escrete. Tostão tem razão. A realidade é que vai determinar o desempenho brasileiro na Copa da África do Sul. Surpresas vão surgir, elas surgem sempre no futebol, um esporte mágico, sensacional. E entra em campo o imponderável, como disse o craque do passado. Nós torcedores brasileiros, somos 190 milhões, não devemos nos precipitar. Vamos em frente. Em Joanesburgo a formação ideal vai surgir. Com Ganso ou sem ele. Ainda há tempo para acertos.

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