O corruptíssimo ministro Alfredo Nascimento já vai tarde. Só esqueceu de anunciar a criação de um “Código de Conduta Ética” no âmbito dos transportes.

Carlos Newton

Não deu para entender a estratégia da presidente Dilma Rousseff no escândalo do Ministério dos Transportes. As sucessivas denúncias do senador Mario Couto (PSDB-PA) sobre o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) estavam incomodando o governo. A presidente mandou apurar, a revista “Veja” se adiantou e fez uma matéria a respeito, sem maiores detalhes, e imediatamente, no sábado mesmo, quatro integrantes da cúpula do ministério foram afastados por determinação do Planalto.

Como se sabe, as suspeitas de corrupção no Ministério dos Transportes, no Dnit e na Valec incluem um esquema de superfaturamento de obras e recebimento de propina que beneficiaria o PR. O partido controla a pasta desde o governo Lula e é um dos principais integrantes da base aliada.

Ao invés de se livrar logo do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, que obviamente era o chefe da quadrilha, estranhamente a presidente decidiu mantê-lo. Como no caso de Antonio Palocci a demissão foi um parto que durou duas semanas, desta vez parecia se confirmar que a estratégia de Dilma Rousseff é deixar o ministro apodrecendo, até cair do galho e se espatifar no chão.

Com Palocci a coisa funcionou, o prestígio da presidente nem chegou a ser muito atingido. Mas insistir nessa estranha política do imobilismo pode ser uma tática altamente perigosa, por demonstrar conivência com a corrupção.

O mais incrível é que a presidente mandou até divulgar uma nota oficial ratificando “a confiança total em Nascimento”, vejam a que ponto chegamos. O ministro, todo pimpão e se julgando detentor de uma espécie de “habeas corpus preventivo”, achou que ia escapar ileso e só faltou anunciar a criação de um “Código de Conduta Ética” no âmbito dos transportes. Imediatamente alardeou a abertura de uma sindicância interna na pasta (o que não significa absolutamente nada, vejam o exemplo de Erenice Guerra na Casa Civil) e prometeu prestar esclarecimentos à Câmara e ao Senado sobre o caso, numa enrolação danada, logo apoiada entusiasticamente. Por quem? Ora, por José Sarney.

O presidente do Senado disse que Nascimento não podia ser exonerado “apenas por uma acusação publicada”. E acrescentou: “Acho que a presidente tomou medidas imediatas que foram muito saneadoras e, em seguida, entregou ao ministro a condução da apuração dessas irregularidades todas”, afirmou Sarney, de quem não se espera mesmo nada.

Era óbvio que a imprensa logo iria esmiuçar a corrupção que o senador Mario Couto tanto denunciou da tribuna, só não se esperava que o desfecho acontecesse tão rápido. E O Globo surpreendeu a todos, ao publicar hoje a estarrecedora notícia de que o ministro dos Transportes tinha uma espécie de Palocci dentro de casa, o filho de 27 anos, Gustavo Morais Pereira. Uma das empresas de Gustavo, a Forma Construções, apenas dois anos após ser criada, com um capital social de modestos R$ 60 mil, conseguiu acumular um patrimônio de mais de R$ 50 milhões, com crescimento de 86.500%, um desempenho de deixar espantado até o consultor Palocci.

Uma notícia dessas já seria suficiente para demitir até o Papa, quanto mais o ministro dos Transportes. Mesmo assim, a presidente Dilma Rousseff continuou protelando. O desenlace fatal só veio a ocorrer no  final da tarde, com o ministro agonizando em público o dia inteiro. E assim a tão esperada reforma do Ministério começa a acontecer. Mas aos pouquinhos. Em doses homeopáticas, infelizmente.

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